OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os Jacentes de Jan Fabre

Conheço a obra do belga Jan Fabre há alguns anos, mas fiquei especialmente impactada quando vi sua exposição Gisants (Hommage à E.C. Crosby et K.Z. Lorenz)Jacentes (Homenagem a E.C. Crosby e K.Z. Lorenz) em 2013 na Galeria Daniel Templon em Paris. Dois imensos blocos de mármore de Carrara esculpidos na forma de um jacente – esculturas mostrando o defunto como que dormisse colocadas nos túmulo durante alguns períodos na Idade Média – foram colocados junto a esculturas menores de cérebros, também em mármore imaculadamente branco, sobre os quais crescem plantas e repousam insetos.

Você deve estar confuso, pois numerei várias obras, e, geralmente, nessa coluna falamos somente de uma obra de cada vez. Entretanto, essas esculturas de se complementam de tal forma e me causaram tal impacto juntas, que seria uma pena tratá-las separadamente.

Como fica claro através dos jacentes – um deles é um caixão com a tampa aberta, e não um jacente propriamente dito – o tema central é a morte. Talvez a maior das inquietudes humanas, o tema foi abundantemente tratado de diferentes formas durante a história da arte por um sem número de artistas – eu mesma incluída entre eles. Aqui, além do convite a reflexão sobre a efemeridade da existência e suas vaidades, existe também a esperança da ressureição. Esta é indicada pelos insetos esculpidos sobre as figuras humanas nos jacentes e nos cérebros. À primeira vista, pode-se pensar que eles são, na verdade, um indicativo do apodrecimento da carne, tal como nos transi medievais. Entretanto, os tipos de insetos esculpidos indicam algo diferente. Eles fazem o papel dos cães ou leões que guardam sepulturas reais: abelhas, aranhas, borboletas e escaravelhos. Os dois últimos possuem papéis tradicionalmente ligados à ressureição. A borboleta é símbolo de metamorfose – tema caro ao artista – e figura quase impossível de não ser relacionado com o mito de Psiquê – palavra que em grego antigo significa tanto alma quanto borboleta – sobre a elevação da alma e sua imortalidade. O escaravelho, no Antigo Egito, possuía uma conotação próxima, ligada à ressureição da alma.

O fato de nascerem plantas sobre os cérebros reafirma a ideia de renascimento, e, junto aos insetos pousados sobre eles, sublinha a ligação entre o homem e a natureza, colocando o cérebro, origem da inteligência e da criatividade, como um aliado em um possível além-túmulo. Essa ideia sendo possivelmente sublinhada através da textura do colchão e do travesseiro do jacente, que lembra as ramificações do cérebro. Seria o cérebro o repositório da alma? A ligação entre a alma e a mente certamente são profundas.

Essas esculturas de cérebro, de uma delicadeza e precisão assustadora, desenhadas pelo artista e esculpidas pelos artesãos de seu atelier, são uma parte importante da homenagem do artista aos cientistas do Elizabeth Caroline Crosby (1918-1983) e Konrad Zacharias Lorenz. A primeira foi uma neuroanatomista e o segundo, biólogo e zoólogo. Essa homenagem reafirma se insere na trajetória do artista, que transita entre os diversos campos do conhecimento para criar suas obras. A neurociência, especificamente, já esteve presente no seu filme Is the brain the most sexy part of the body? (O cérebro é a parte mais sexy do corpo?) de 2007.

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Um comentário sobre “OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os Jacentes de Jan Fabre

  1. INTERESSANTE! BEM ANTES DE FALAR NUMA ARTE POR EXCELÊNCIA BELA E INTELIGENTE, MESMO ME FALTANDO TERMOS, OS ARTISTAS INSERIRAM NUMA REPRESENTAÇÃO DE CÉREBRO MORTOS, INSETOS E PLANTAS. NÃO PRECISAMOS ENTENDER A RESSURREIÇÃO DA VIDA, PORQUE MESMO NA MORTE, SOMOS AINDA NATUREZA, NOS TRANSFORMAMOS EXPLICADO EM TODAS AS FASES DE UMA BORBOLETA. O BRANCO MÁRMORE DE CARRARA REPRESENTA ALUZ PURA E TRANSCENDENTAL DE TODO O FENÔMENO. DESCULPE, MAS GOSTEI IMENSO DESSAS ESCULTURAS.

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