Livros mudam vidas?

Adianto aqui que a pergunta-título é respondida no sentido afirmativo, de modo que o ponto de interrogação poderia muito bem ser substituído por um ponto exclamação. Sim, livros mudam vidas. A questão é se essa mudança proporcionada pela leitura de um livro é para melhor ou para pior.

A questão “para pior ou melhor”, que acaba ensejando na ideia de “bem e mal”, já poderia em si ser problematizada. Afinal, somente a partir do momento em que se tem “bem” e “mal” estabelecidos é que se pode dizer se algo é “bom” (bem, melhor…) ou “ruim” (mal, pior…). Até mesmo aquela ideia geral que possuímos, fruto de um consenso razoável, pode ser repensada a depender da perspectiva com a que se analisa a questão holisticamente. A filosofia nietzschiana da transvaloração de todos os valores, por exemplo, supera alguns paradigmas nos quais se estabelece aqui o que se entende como “bem” e “mal”.

Mas a pretensão não é a de problematizar conceitos filosoficamente. Parto das ideias de “bem” e “mal” calcadas na justiça aristotélica.

Livros tornam pessoas melhores? Um leitor fica mais “do bem” após o término de uma obra que carregue consigo uma lição de moral? Notem que o tom da pergunta agora é outro, diferente daquela do título. Aqui não há como a resposta ser afirmativa. Um “talvez” pode soar como uma boa resposta, mas querer afirmar que um livro torna uma pessoa melhor é forçoso e imotivadamente pretensioso.

Essa reflexão foi trazida por André Karam Trindade, quando realizou a conferência de encerramento da I Jornada Norte-Nordeste de Direito e Literatura da RDL, em 2017. Lembro-me que logo no início de sua fala essa questão foi posta em debate. Livros tornam pessoas melhores? A conclusão se deu no mesmo sentido que o aqui apontado. Uma coisa é dizer da mudança de vidas em algum aspecto proporcionada pelos livros. Outra é dizer que, com base nos benefícios que a leitura propicia, essa mudança se traduz no sentido de tornar o leitor uma pessoa melhor.

Hannibal Lecter, notório personagem de Thomas Harris, é um ávido consumidor da cultura em suas várias vertentes, podendo assim se concluir por tudo aquilo que externaliza. Entretanto, mesmo considerando toda a sua carga cultural, isso não o impede de praticar os seus crimes.

O exemplo literário aqui dado não fica apenas no campo ficcional. Nosso mundo está cheio de grandes leitores que não necessariamente são pessoas melhores que aquelas que não mantém o hábito da leitura, ou seja, não é o “fator leitura” que necessariamente torna uma pessoa melhor.

Isso não significa que a leitura deixe de proporcionar mudanças na vida das pessoas. Aí sim digo que todo livro enseja no “mudar a vida” – seja no que nível que for.

Dentre tudo aquilo que um livro traz consigo, está presente a mensagem transmitida pelo autor, seja intencional ou não. Um livro proporciona diversas leituras. Diferentes leitores percebem diferentes pontos fulcrais numa mesma obra. Em “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, por exemplo, faz-se possível uma leitura sob diversas perspectivas. Para além de toda a crítica presente que denuncia uma sociedade que ignora os seus miseráveis, o leitor pode ter sua atenção mais voltada para o aspecto do estigma que persegue Jean Valjean. Pode ser também que o que mais chame a atenção do leitor da obra seja a resiliência com a qual Cosette enfrenta todas as terríveis adversidades que lhe afligem. É possível ainda que os olhos se voltem mais para a desgastante luta de Fantine, na qual está presente todo o amor de uma mãe que rompe barreiras visando o bem-estar de sua filha. Enfim, várias leituras são possíveis nessa e em qualquer outra obra literária, e em qualquer dessas leituras uma reflexão acaba surgindo, ensejando num aprendizado, numa nova perspectiva que pode passar a ser adotada, num novo modo de ver as coisas, numa nova postura a ser adotada. Eis aí a mudança que é gerada pela leitura.

A mudança pode ser perceptível ou imperceptível. Muitas vezes nem mesmo o próprio leitor a percebe. Mas ela sempre ocorre, gerando seus efeitos visíveis ou invisíveis, externos ou internos, percebidos de plano ou posteriormente. O aprendizado, seja da forma que for, ocorre com o processo da leitura, e isso já enseja num tipo de mudança na vida do leitor.

A narrativa presente nas obras literárias é um dos principais fatores responsáveis por tais mudanças, as quais decorrem do processo de reflexão que é incutido justamente pela leitura de determinado livro. Em relatos rasos e superficiais, ou ainda naquelas manchetes onde se tenta condensar ao máximo uma grande quantidade de informações numa única frase de efeito, o poder da narrativa não se faz presente.

Já expus aqui em outra oportunidade os problemas resultantes da ausência de uma narrativa concreta na exposição de um fato, de um caso ou de uma história, quando mencionei alguns belos exemplos dados pelo filósofo Alain de Botton. E aqui reside a importância dos relatos profundos que são realizados de maneira única dos romances literários. Expondo uma história a fundo, um livro possibilita ao leitor conhecer melhor todo o conteúdo de alguma personagem, de modo que determinada parte dessa história em que essa personagem adote uma postura peculiar, tal ato acaba sendo justificado, ou pelo menos explicado, aos olhos do leitor, justamente pelo fato de poder ter conhecido as diversas particularidades que envolvem tal personagem – que foram relatados no decorrer da obra, o que não seria possível na hipótese de se ter lido um mero relato sobre aquela passagem em que a atitude da personagem soou estranha, ou seja, é o aprofundamento nas nuances de uma história que possibilita uma melhor reflexão sobre os fatos ali relatados.

Essa reflexão sobre o que ocorre nas histórias dos livros acaba também sendo feita nas situações do cotidiano que envolvem o leitor. Talvez surja uma nova visão para aquela pessoa que se depara com uma manchete sensacionalista após ter lido “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, ou “Número Zero”, de Umberto Eco. Quiçá o leitor de “1984”, de George Orwell, ou “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, reflita melhor acerca de algumas posturas adotadas pelo governo.

Livros mudam vidas? Sim! Pode ser que num nível mais significativo, ou ainda de um modo não tão marcante, mas que a mudança proporcionada pela leitura acontece, sem dúvidas, acontece!

 

 


 

Fonte da imagem:

http://blogdo.yurivieira.com/wp-content/uploads/2012/09/van_gogh_livres_jaunes.jpg

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Um comentário sobre “Livros mudam vidas?

  1. Eu penso que sistemas e regimes algemam e trazem no seu bojo a hipocrisia: para o bem do povo,
    tão somente, o bem, o seu próprio. Carrascos em séculos anteriores eram usados para remover e podar de formas
    letais os contrários às regras confrontadoras de sistemas e regimes, e outros… Em termos de mapa mundi, somos singulares. Os carrascos mataram ou torturaram Ana Bolena e todos os demais … eram maus ou criminosos ( creio que seguiam uma fé cristã) o rei era mau? o juiz Moro que condenou Lula é mau,??????
    mesmo que a letra da lei e diligências, não estão sendo cumpridas? Acho sim, que para quem gosta de ler, mesmo não concordando em muitos aspectos, a leitura faz bem, e nos pode levar a descortinar outros horizontes. Não seria, esse o objetivo didático-pedagógico da leitura? Gostos são gostos e não se discutem, diz o dito. Ótimo texto e argumentos, teve a magia de ampliar meus conhecimentos, porque o faz de uma maneira correta e com ministralidade, que é o ingrediente secreto de todo o ensino.

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