A morte dos textos

Textos morrem? Se (ou quando) morrem, deixam de existir por completo ao se esvaecerem no plano corpóreo? Com a extinção concretizada, continuam existindo numa espécie de plano astral?

A questão pode até parecer um exercício de raciocínio existencial ou metafísico, mas a dúvida incômoda surge de algo bastante simples. Se bem que seria interessante uma discussão sobre a morte e a vida dos textos no nível filosófico. A metafísica da escrita. Já pensou? Daria um bom título para livro. Ou ainda levar a discussão para o âmbito religioso. O paraíso das palavras escritas: há vida depois do texto?. Enfim, não apenas seria possível como de fato é. Deixo isso aqui escrito para registrar que a ideia foi minha no caso de ser esse o próximo boom do mercado editorial.

Voltemos para os textos situados na preocupação aqui exposta: eles morrem? Creio que morram. Infelizmente. É triste. É doloroso. É atormentador. Mas é um fato. Da mesma maneira que os textos nascem a partir das ideias de seus criadores, eles podem morrer a qualquer momento.

As mortes dos textos podem ser tão trágicas como as humanas. Há várias histórias relatadas de obras que se perderam em grandes incêndios de bibliotecas, por exemplo. Incêndios de todos os tipos: criminosos, fortuitos, acidentais, políticos e até mesmo literários. As palavras postas no papel ardem e queimam até se extinguir por completo. Deixam de ser o que foram. Somem. Até mesmo os clichês humanos nesse cenário valem para os textos: uma hora está ali, noutra não mais está.

A grande questão, creio, reside em saber até que ponto um texto pode ser considerado como vivo. Notem que um livro que deixa de existir não constitui necessariamente um fenômeno apto a matar o texto por completo. É que quando um livro se esvai, por qualquer motivo que seja, é a parte de um todo que morre. O livro morto (ou seja, não mais livro) pode ser apenas um exemplar dentre tantos outros espalhados pelo mundo, de modo que o texto em si, ou O Texto, continua existindo enquanto presente em várias outras cópias. Seria o caso de uma morte não Morte. Percebam que por aqui já é possível notar que as diferenciações precisam ser feitas sobre o que se entende por morte do texto, uma vez que várias possibilidades existem.

A indagação persiste: quando então um texto morre? E quando ele morre, continua existindo em algum lugar desconhecido?

No plano corpóreo, se me permitem assim dizer, um texto existe e vive enquanto estiver presente em algum lugar concreto: no exemplar de um livro, na cópia original guardada na gaveta do autor, no arquivo salvo no computador, e por aí vai. Cessando a existência do texto em quaisquer das possibilidades concretas de sua constituição física, poderia se dizer que o texto morreu. Se esse texto, aqui, o presente, esse mesmo que você está lendo agora, por qualquer motivo, sair do ar em dado momento e eu não tiver uma cópia salva em meu computador ou num pen drive, o texto terá deixado de existir. Terá morrido. Fim. Mas pode ser que sua lembrança ainda paire em minha mente (ou, com sorte, na lembrança de algum leitor). É nesse sentido que lanço a dúvida sobre a morte por completo do texto: se ele se faz presente, em certo sentido, forma e maneira, em algumas lembranças, compartilhadas ou não, isso significa que ele ainda existe num determinado nível? Não se tratariam apenas de resquícios de sua existência de outrora na forma de lembranças? É adequado diferenciar morte e Morte do texto? Recordações constituem vida de um texto? A extinção do texto em sua forma corpórea significa o seu fim, ou seja, a sua morte?

Pretendo ainda dialogar aqui futuramente sobre o limbo dos textos: um lugar ocupado por aqueles que tiveram extinta sua existência terrena. Quero antes, porém, dirimir essa dúvida incômoda sobre até que ponto um texto pode ser considerado vivo. Pode se pender para o fatalismo: se um texto deixa de existir, significa que ele morre. Ponto final – exceto para eventuais lembranças, estas que não constituem o texto em si, pois seriam meramente imagens mentais de algo que já foi. Numa visão mais romântica da coisa, poderia se dizer que os efeitos de um texto morto permanecem presentes em alguns casos mesmo após sua extinção, o que significaria que o texto ainda viveria de alguma forma.

Expondo esse dilema, deixo aqui o convite aos leitores para que participem com suas percepções sobre o tema. Textos morrem. Disso não duvido. Mas eles podem continuar vivendo de alguma outra forma? Conto com os comentários de vocês, a fim de que possamos estabelecer um diálogo construtivo sobre a vida e a morte dos textos.

Até mais!


Fonte da imagem:

https://artrianon.files.wordpress.com/2018/03/04cd6-booksinfire.jpg

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Um comentário sobre “A morte dos textos

  1. Gostei! Tem texto natimorto, que nem consegue um sopro, uma edição,morre antes de perceber ter nascido. Sufocado. Nas gavetas, esquifes, sarcófagos, nos cadernos, nas caixas, nos files, algum bilhete escrito a lápis, uma folha que voou e parou no bueiro, e nas caixas de entrada do spam… muitos abortos… muitos.

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