OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os mosaicos de Justiniano e Teodora em San Vitale de Ravenna

OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os mosaicos de Justiniano e Teodora em San Vitale de Ravenna

 

Os mosaicos de Justiniano e Teodora na basílica de San Vitale, em Ravenna, no norte da Itália, estão entre os exemplos de mosaicos mais famosos do período bizantino, e são, particularmente, meus preferidos por sua composição e seu colorido, conseguido através do uso de pequeninos pedaços de pedras semipreciosas. A basílica toda é decorada por mosaicos, sendo as imagens estudadas localizadas perto do altar maior, uma de frente para a outra, complementando-se.

Mestre de San Vitale de Ravenna (desconhecido), Mosaico de Justiniano, mosaico, século VI.

Um dos mosaicos mostra o imperador bizantino Justiniano, do Império Romano do Oriente, oferecendo à igreja uma patena de ouro, ladeado por altos dignitários eclesiásticos à sua esquerda (direita da composição) e por sua comitiva e guarda à sua direita (esquerda da composição). Um dos guardas leva um escudo de um tom verde belíssimo e bastante adornado, no qual vemos o monograma do Cristo composto das letras gregas ΧΡ, chi e rho, as duas primeiras letras de Χριστός, Kristós. Vemos também escrito o nome “Maximianus” no alto do lado direito da composição, indicando o homem de túnica dourada que segura uma cruz, o arcebispo Maximianus. Era bastante comum em mosaicos da época a inscrição de nomes explicando quem eram os personagens representados. Entre Maximianus e o imperador, vemos a figura de Iulianus Argentarius, o banqueiro que financiou a construção da igreja. À direita do imperador, temos o general Belisário, responsável pela conquista da cidade de Ravenna, que foi anexada ao império, após algum tempo nas mãos dos bárbaros, e se tornou capital do exarcado que representava Bizâncio no ocidente. Ao fundo, há somente duas colunas, ladeando os personagens, que sugerem a arquitetura, havendo uma total ausência de perspectiva. O fundo é dourado, tal como em quase todas as composições da época, refletindo a luz divina e representando um espaço atemporal.


General Belisário.

É importante notar que durante o reinado de Justiniano (527-565), a arquitetura e a arte floresceram, com a consolidação da arte bizantina, mesclando a herança greco-romana às influências orientais e cristãs.


Mestre de San Vitale de Ravenna (desconhecido), Mosaico de Teodora, mosaico, século VI.

O outro mosaico mostra a esposa de Justiniano, a imperatriz Teodora, junto a dignitários e suas damas. Logo à sua esquerda (à direita da composição), figuram a esposa do general Belisário, Antônia, e sua filha, Joana.  A imperatriz oferece um cálice de ouro decorado e veste uma clâmide – tipo de manto usado desde a Grécia Antiga – púrpura, cor extremamente cara reservada aos imperadores, com um barrado em ouro representando os três reis magos. Ao fundo, vemos a arquitetura sugerida através de uma porta com uma cortina e um nicho com a parte superior em forma de concha, com Teodora bem ao centro, destacando sua figura em meio à composição. Boa parte do fundo, também é dourado, como no mosaico do imperador.

Além da ausência de perspectiva, sugestão da arquitetura e fundo dourado, podemos notar outros aspectos que não levam em conta a representação do real como o mais importante: a ausência de movimento, a frontalidade dos personagens – somente os personagens negativos ou menos importantes eram representados de perfil -, seu caráter hierático e o pouco volume, que se tornará ainda mais acentuado nos exemplos bizantinos posteriores. O mais relevante era criar uma imagem que passasse uma mensagem através de símbolos, ao invés de representar fielmente a realidade. A mensagem, nesse caso, é a glorificação do imperador e sua esposa, representados, inclusive, com nimbos em suas cabeças, sinal de santidade, além da conquista de Ravenna, sobre a qual o seu poder se estende, através da figura do general; e a relação do imperador com a igreja, ressaltando sua devoção através dos presentes em ouro.

Apesar da figuração do real não ser o foco, real este que é transfigurado, os personagens importantes possuem rostos individualizados e reconhecíveis, e o cuidado com os detalhes não é negligenciado, sendo impressionante em ambos os mosaicos. Podemos ver esse gosto pelo detalhe no rosto dos personagens, nos brocados das roupas e nas joias, que são compostos de minúsculos pedacinhos de pedra, chamados tésseras, sendo o dourado conseguido através de folhas de ouro entre pedaços de vidro.


Imperador Justiniano.


Imperatriz Teodora.

Bibliografia:

Jean-Claude CHEYNET, Histoire de Byzance, Paris, Presses Universitaires de France, 2005.

Jean LASSUS, O mundo da arte: Cristandade clássica e bizantina, Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1979. Trad. Álvaro Cabal, Áurea Weissenberg, Donaldson Garschagen, Henrique Benevides, Lélia Contijo Soares, Sílvia Jambeiro e Vera N. Pedroso.

Tania VELMANS, L’image byzantine ou la transfiguration du réel, Paris, Hazan, 2009.

Fontes das imagens:

Por © José Luiz Bernardes Ribeiro /, CC BY-SA 4.0, commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=52512244

Por © José Luiz Bernardes Ribeiro /, CC BY-SA 4.0, commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=52512238

https://ca.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_Sant_Vidal_de_Ravenna

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