O filme ‘Relatos Selvagens’ de Damián Szifron

“Relatos Selvagens”. Sim. Esse é o título do filme dirigido por Damián Szifron. Porém, poderíamos perguntar: qual relato humano não seria selvagem? Essa dimensão de discussões poder-nos-ia levar desde a psicanálise e pensarmos acerca do id que fica tão claro ali, que ao mesmo tempo quando se mostra no filme, em plena atuação, revela um superego que de tão violento, acaba por suscitar o oposto de suas pretensões de limites. Ou seja, uma sua ausência.  Até quando o filme nos permite refletir acerca de uma possibilidade de acesso ao real. Ora, sabemos que o humano sempre é um existente simbólico, carece destes para dar conta de si e do outro. Assim, um relato selvagem seria um relato do real retirados os símbolos? Ou sempre que nos lançamos a uma relação estamos já inseridos nestes jogos de linguagem simbólicos?

Outro mote dentro do qual poderíamos pensar esse filme seria aquele que admite uma natureza para o humano. Desde já, podemos citar Hobbes e Rousseau, cada qual a pensar em uma natureza distinta para o humano. Aquele imagina o homem como lobo do próprio homem; este pensa que há no homem uma bondade inata. Se nos colocarmos a pensar acerca da natureza do homem, talvez conceberemos tantas distintas que essa miríade de possibilidades nos informaria mesmo que não há essa natureza. Somos seres históricos e essa dimensão histórico-cultural que nos inscreve e forma o tempo talvez seja nossa natureza. “O ser é tempo”. Assim, essa reflexão nos encaminha para pensarmos na dimensão de que natural ao humano é não possuir natureza. Dada sua condição finita, histórica, inacabada e frágil. Somos seres frágeis. Isso o filme nos mostra. Somos ao mesmo tempo riso e choro. Misturados: violência e amor. A mistura e o momento de encontro entre extremos também marca o filme. Esse encontro talvez diga bastante do humano. Talvez o filme quase se achegue a uma tragédia grega. Falaremos disso…

Desde o primeiro conto até o último há ali um fio condutor que permeia todas as histórias. Talvez o diretor quisesse mostrar as estruturas ideológicas dentro das quais habitam os humanos. O quão frágeis e ao mesmo tempo o quão violentas são estas estruturas. Não seremos lineares ao dizer dos contos. O filme não é. Nem o tempo. O homem, logo… Assim, há uma moço, “vítima” da namorada que o trai. Ele ao mesmo tempo foi execrado por um crítico de música que também estava no avião. Há também uma ex-professora, um ex-psiquiatra. O ex não nos deixa. Todos com relatos ruins acerca de Gabriel Pasternak. Supostamente ele estaria a se vingar de todos fazendo com que estivessem no mesmo voo. O avião irá cair.  Seria apenas uma mostra de vingança ou ali no filme estaria uma mostra de um problema social no qual as pessoas não aceitam receber não? Na qual ou há o sucesso ou não? Lembro-me aqui da canção “O vencedor” da banda Los Hermanos. Em outro conto nos deparamos com uma ex-presidiária que trabalha em um restaurante com uma jovem. Ali entra um cliente que havia sido o causador da morte do pai da jovem. Ela tem a chance de se vingar dele envenenando-o. A ex-presidiária recomenda fortemente essa ação. A moça hesita. A amiga envenena a comida. O homem não morre. A ex-presidiária dá jeito de matá-lo. A moça, mais uma vez, vítima de um sistema no qual os negócios levaram a vida do pai. O cliente morto simbolizaria essa luta do humano para sobreviver na ideologia do mercado? A moça não se vinga. A cozinheira mostra que as estruturas que querem organizar a sociedade falham quando de frente para o abismo. Somos tragédia? De novo a luta pelo ar que falta quando somos sufocados. Outro relato mostra uma ultrapassagem na estrada. Um homem bem vestido em um carro novo, no outro, um homem com um carro velho e com maquinário de trabalho no bagageiro. Negro. Pobre. O homem quer ultrapassar. O negro não permite. Ele o destrata. À frente seu carro estraga. O negro chega. O ameaça e ultraja sua “dignidade”. O homem do carro novo não contente em empurrar o carro do homem para o rio, retorna para matá-lo. Na cena podemos ler a estrutura preconceituosa que enreda a sociedade. Ela também sufoca. Os dois morrem juntos. Um relato muito interessante no qual participa Darín é bem simples. Um cidadão comum que tem seu carro guinchado várias vezes e é multado. Ele explode parte do pátio que recebia os carros. É preso. Recebe na prisão o clamor dos presos. Esse tema mostra de fato a burocracia que nos enovela dia a dia. Nos sufoca. Até explodirmos. Darin seria a antítese? A revolução? Há revolução sem explosões? Somos revolução?  E os poemas de Bukowsky, são explosões? Quando o filho de uma família rica mata uma grávida, o pai, para “salvá-lo”, junto com o advogado, arma para incriminar o funcionário da casa em troca de dinheiro. Esse é o próximo conto. O engodo dos tribunais. O fim da questão ética. O metal como mote que conduz o humano. O funcionário da casa é assassinado na porta da mansão antes de ir preso. O pai da criança se vinga. Morre o funcionário. A ideologia que oprime os funcionários se mantém. Esse filho não conhece limites. Ele será o próximo advogado a cobrar honorários ilícitos. Quem sabe esse filho não seria o próprio noivo do conto posterior, que trai a noiva. Convida a amante para o casamento. A noiva descobre. Ele chora feito um menino mimado. Não pelo fim do casamento. Perfeito. Só que não. A noiva traída resolve destruir a festa. Transa com o cozinheiro. Quase mata a amante. Ri e chora. Indistintamente. Ao fim o noivo a beija entre os destroços do casamento. Sexo. Explícito. Enfim. As cortinas caem. Esse filme fala da coxia. Do local sem maquilagem. Do suor e do mal cheiro. Do “cheiro do ralo” de Selton Melo.  Luz demais ofusca. Perfeição não é coisa de humano. A tragédia se cumpre. Não perdoa. É inevitável. Ela mata. Vinga. Trai. Mente. Perdoa. Ama. Trai. Se vinga…

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