OBRA DE ARTE DA SEMANA: Vitral da ‘Árvore de Jessé’ da Catedral de Chartres


A árvore de Jessé
, vitral (vidro, óxidos metálicos e chumbo), 1150. Conservado na Catedral Notre-Dame, Chartres, França.

O tema da árvore de Jessé é bastante comum em diversos tipos de representações na Idade Média e mostra a ascendência do Cristo – sua árvore genealógica – desde Jessé, passando por vários reis de Judá, com o Cristo no topo da árvore, seguindo a profecia de Isaías, no Antigo Testamento, assim como o Evangelho de Mateus e o Apocalipse.

Na arte do vitral, o tema foi representado pela primeira vez na Catedral de Saint-Denis, em 1144, assim, é possível que a janela de Chartres, nossa obra estudada hoje, datada de 1150 e de estilo bastante próximo, tenha sido realizada pelo mesmo atelier.

“Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará.

E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor.”

Isaías 11:1-2

Nas imagens da árvore de Jessé vemos a representação literal do trecho acima, com um tronco saindo do personagem adormecido, pois ele teria sonhado com seus descendentes que culminariam no Cristo.

No capítulo 1 do Evangelho de Mateus são descritas as 14 gerações que separam Jessé e o Cristo, dentre eles, figuras muito famosas do Antigo Testamento, tais como Davi e Salomão, entretanto, vemos no vitral estudado somente quatro reis genéricos, representando o todo, entre Jessé e a Virgem Maria. Temos, então, de baixo para cima, Jessé, quatro reis, a Virgem Maria e o Cristo. Se Jessé é o início do tronco e os personagens que seguem são sua continuidade, Maria é a flor, simbolicamente, e o Cristo, o fruto. Ou seja, são mostradas sete figuras santas, sendo o número sete aquele da perfeição da criação.


Virgem Maria

A rica simbologia, motivo provável pelo qual o tema foi tão representado, continua quando percebemos os personagens mostrados abaixo do Cristo, seus ancestrais carnais, estão dentro de quadrados, sendo que essa forma geométrica simboliza a terra, assim como o número quatro, enquanto que, ao lado destes, temos em meios círculos os profetas que anunciaram a vinda do Cristo segurando filactérios com seus nomes, sendo assim seus ancestrais espirituais, e o círculo, que não tem começo nem fim, simbolizando Deus e o espírito. Além disso, os profetas são quatorze, dois em cada lado dos sete quadrados, e sendo um múltiplo do número sete também representa a perfeição da criação. Ainda, envolvendo o Cristo, podemos ver sete colombas, representando os sete dons do espírito santo, novamente o número da perfeição da criação.

Também existe um possível significado político envolvendo esse vitral. A dinastia dos capetíngios tentava afirmar o caráter hereditário da monarquia e reforça-la, e, assim, ungia os filhos, futuros reis, antes da morte do rei-pai. Dessa maneira, é possível que a imagem da árvore genealógica do Cristo pela primeira vez na Catedral de Saint-Denis, na qual ocorria a coroação dos reis pela igreja, mostre essa intenção de continuidade dinástica.

A cor dominante da composição, presente principalmente no fundo, o famoso azul de Chartres é específico ao período. Esse tom foi justamente o escolhido pelos reis da França no século XII, seu emblema tornando-se a flor de lis sobre um fundo azul.

Quanto à técnica usada, trata-se do vitral criado através de vidro e chumbo. Desenhos eram pintados em pedaços de vidro usando óxidos metálicos, e, depois de assarem em um forno, eram unidos através de barras finas de chumbo em formato de H, formando belíssimas janelas coloridas que se tornaram possíveis na arquitetura gótica graças às abóbadas em arestas que seguravam o peso da construção sem a necessidade paredes massivas com pequenas aberturas.

Bibliografia:

Laurence CUZANGE, « Le métier de verrier et de peintre-verrier » in Dossier de l’art, Paris, Faton, No. 152 (Maio 2008), p. 52-55.

Sophie LAGABRIELLE, « Le vitrail : quatre siécles d’évolution » in Dossier de l’art, Paris, Faton, No. 152 (Maio 2008), p. 52-55.

Links:

“Arbre de Jessé” in La Cathédrale de Chartres, [Online]. Consultado em 18/02/2019.http://www.cathedrale-chartres.fr/vitraux/49_vitrail_arbre_jesse/index.htm

“Arbre de Jessé – Pour em savoir plus” in La Cathédrale de Chartres, [Online]. Consultado em 18/02/2019.
https://www.vitraux-chartres.fr/vitraux/49_vitrail_arbre_jesse/annex.htm

Stuart WHATLING, “The Tree of Jesse” in The Corpus of Medieval Narrative Art, [Online]. Consultado em 18/02/2019.
http://www.medievalart.org.uk/Chartres/049_pages/Chartres_Bay049_key.htm

“Isaias 11:1-2” in Bíblia Online, [Online]. Consultado em 18/02/2019.
https://www.bibliaonline.com.br/acf/is/11/1,2

“Mateus 1:1-25” in Bíblia Online, [Online]. Consultado em 18/02/2019.
https://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/1

Fonte das imagens:

Fotografias da autora.

https://fr.wikipedia.org/wiki/Arbre_de_Jess%C3%A9_de_Chartres

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