‘A menina que roubava livros’: Um filme humano e complexo

A morte vive? Qual a cor da morte? O preto é uma cor ou uma ausência? Quando algo é furtado resta ali alguma coisa. Até mesmo o roubo tem uma ambiguidade. Ele deixa o rastro do que era e coloca em seu lugar uma ausência. Seria a morte uma desconstrutora do sentido de existir? Ela mostra novos caminhos para o que antes era uma vida? E a vida post mortem, refere-se aos que ficam ou aos que vão? Pra quem morre depois, ainda há vida ou apenas rastros de lembranças? O passado nos abandona ou abandonamos a ideia de esquecer e vivemos nessa luta entre o que se foi e o que restou?

A Alemanha nazi se foi. Talvez isso seja um fato que podemos afirmar. Os livros de história dizem que acabou o nazismo – estranho imaginar que algo que mudou o curso do mundo possa um dia acabar. Se o nazismo tivesse acabado não haveria o filme “A menina que roubava livros”, de Brian Percival. O filme é baseado no romance homônimo de Marcus Zusak. Assim como não acabou o nazismo, também os roubos não se encerram – ou com a prisão ou com o sucesso do ladrão. Não haveria propriamente um fim nas ações que envolvem humanos. A morte teria fim? Haveria um último ato da morte? Já não seria imenso estranho continuar a dividir o tempo entre ontens e hojes sendo que experimentamos o presente apenas pela possibilidade que o passado nos dá? Depois de ver que o tempo nos engole nesse texto, passemos a duas ou três reflexões interessantes.

O primeiro ponto interessante é que há uma narrativa alheias às cenas do filme. A morte é um terceiro que fala ao mesmo tempo em que a história se desenrola. O enredo, poderia dizer, é simples. Não cometerei esse despropósito. Se fosse simples, não haveria tanto riso e tanto choro. Não seria humano. A dificuldade de explicar fenômenos como a morte nos leva a criar. A dúvida diante do fim. A pureza e a sujeira da morte. Ambiguidades que me impelem a dizer: que filme humano e complexo. Humano, pois uma garota apreende o mundo através da linguagem. Seu professor é um professor que toca sanfona. Ela aprende a ler de maneira quase sorrateira. A menina que irá roubar livros aprende a sonhar no porão. Não há por lá luz solar. Debaixo de uma Alemanha dominada pela neve e pelo medo, ressoa o som da sanfona. A imaginação dos livros e o esconderijo de um judeu perseguido. O cenário típico desse tempo alemão. Nos pequenos ruídos moravam os maiores sonhos nesse tempo. O tempo nazi, dito encerrado, possuiu uma cor? Qual a cor da perseguição? E a cor da esperança? Roubar foi a esperança da menina que sonhava. Ela sonhava livros ou roubava livros? A esposa do prefeito ao deixar menina entrar em sua biblioteca, apenas relembrava um ente querido ou abria o portal para um tempo que vem? Uma mulher a deixar outra mulher subverter o sistema. Seria um ponto interessante ver a figura feminina como ladra do segredo dos homens nazistas.

Contudo, o que nos toca por ali é a construção do imaginário da menina. Enquanto ela subverte a lei e rouba os livros na casa do prefeito nazista, sua imaginação subverte o frio e constrói um novo mundo a cada palavra. Quando o judeu escondido no porão fica doente, a menina, que roubava para viver, ressuscita o refugiado com suas palavras. As palavras aquecem a vida. Sem elas o inverno não cessaria. O livro de sua estória começa a ser escrito. Sem as palavras havia apenas o sentimento de reencontrar a mãe. Com as palavras, ela tem acesso à possibilidade de possuir duas mães. Ela escreve para a mãe biológica.

Nas palavras está a possibilidade que nos resta ante nossa finitude. O habitar do humano na linguagem. Assim, quando a menina aprende a ler, acessa um mundo dantes desconhecido. Nesse sentido, percebemos que há uma subversão clara: ela é uma menina em um universo nazista colorido de machismos. O porão, local sujo e sem luz, revela-se o maior palco para suas criações. Os livros queimados pelos nazistas são a prova do medo. A menina, corajosa, rouba livros. Encara de frente o medo nazi. Enquanto o filme se desenrola, ela aprende a escrever. Em verdade, está ali a saída para a opressão. Enquanto lê, cria. Está a se desvencilhar de uma realidade crua. Seu pai adotivo vai e volta da guerra. Enquanto isso ela conta histórias nos esconderijos antibombas. A menina que roubava livros inventava vidas. Ela disse que não sabe como isso começou, apenas que foi em um trem. O trem nos leva a lugares. Os livros e a morte também. Há vidas mais leves e almas mais pesadas. A ambiguidade do humano. Sua possibilidade de surpreender também encanta a morte. Ela continuará por ai. Encantada por si mesma. Os trens também. E também os livros. Os ladrões criam espaços onde pensávamos estar preenchidos. Talvez seja necessário descarrilhar para nascer nova vida. A escrita é jeito de mostrar que o tempo não tem fim. Nem a vida. Tampouco os trens:

vivo filmando trens
aliás
como somos verdadeiros trens
vamos
voltamos
deixamos coisas
levamos outras
mudamos o horário
da vinda
da ida
da vida
por vezes saímos do trilho
apitamos alto na hora de chegar
de sair também
confundimos saída e chegada
como somos trem
oh saudade de minha última descarrilhada
levo bagagens
outras vou deixar na estação
ela cuida disso
coisa de tempo
coisa de trem
amar é desvendar montanhas…

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