O filme ‘O arco’, de Kim Ki-Duk

Quando atira-se uma flecha, além do atrito dela com o ar que rompe para sua passagem, ela carrega um rastro do flecheiro. Junto de toda a parábola que sua estória traz. Quando a flecha encontra o alvo, ela inventa um novo tempo. Abre um buraco na roda do tempo. Fá-lo girar. Mas como nos ensina Gessinger: “cada vez que gira, o ponteiro gira”.  E assim o tempo em nós, amolda, é amoldado, cria e é criado. Nesse sentido, uma flecha atirada é também um novo rastro. Um novo tempo. Quem atira vai-se um pouco na flecha. Quem a recebe também. O arco, parábola de meia lua, canta e também é local de saída da flecha. O som também é flecha na medida que nos toca. É tocado. É cria e criador.

No filme “O Arco”, de Kim Ki-Duk, há sempre essa dimensão do tempo que fica e que vai. Uma criança encontrada e mantida em um barco que não se comunica com a terra. Nisso já reside uma série de questões. O mesmo barco que dá morada também é prisão.Há o mar. A hermenêutica da menina que está ali abrigada limita-se ao infinito que é o mar. Há limites para a imaginação? Qual seria o finito do infinito nessa visão? O barco ilhado restaria como que a tragédia da menina. O senhor que cuida dela seria, portanto, seu limite? O outro enquanto mar é fecundação e ao mesmo tempo morte. Somos no outro, por ele e a partir dele. O idoso que prepara a moça para se casar a concebe ou fere de morte seus sonhos além do mar? Podemos sonhar com o que não conhecemos? Por certo que sim. Ora, o sonho se dá na medida do que não é, ou em melhores palavras, do que ainda não foi. Mas o sonho não é uma construção da linguagem em nós? Como acessar uma linguagem na qual não temos notícia da existência? Não seria logocêntrico propor que apenas podemos sonhar com aquilo que de alguma maneira conseguimos falar ou pensar? Qual a medida dessa construção?

Quando o velho e a garota recebem a visita dos pescadores no barco, parece que podemos enxergar uma questão interessante: ora, pelo mar os colonizadores chegaram à África e às Américas. No entanto, o velho, longe de uma hospitalidade, deixava claro com suas flechas que a relação não seria amistosa. Os índios usavam flechas. A menina se enamorou de um estrangeiro que lhe deu acesso a uma parte do mundo através de seu walkman. O estrangeiro é aquele que recebemos, que hospedamos. Mas que em palavras de Derrida, também nos aprisiona. Somos ao fim, seus próprios prisioneiros. A palavra hóspede, etimologicamente pensada, desemboca em hostil. O chegante, aquele que vem, nos abre o mundo, e ao mesmo tempo, nos encerra nele. Mesmo que em um abrigo infinito. Assim, o jovem que chega habita a moça. O habitar o outro fá-lo transcender de si. O encontro com o que vem se dá  na medida do outro. Há um conflito entre a clausura do ontem, simbolizado pela maneira como o velho vivia com a moça, e o tempo que vem da terra firme. Colocado nos acordes tocados pelo walkman. A menina só conhecia o som do arco. Ela estava à meio da travessia. O arco é uma meia lua. Não completa o movimento.

Mas o velho, por meio de uma prática de atirar flechas enquanto a menina balançava em um banco pendurado no barco, fazia a leitura do futuro daqueles que visitavam seu barco para praticar a pesca. As flechas do velho cortavam o tempo da moça. Ali a roda do mundo. O ontem e o hoje travando uma batalha. Enquanto ontem o velho se atirava ao amanhã que era a moça. Eles não se chocavam. No barco, crivado de flechas, restara o tempo. No olhar do velho, o  sonho de casar-se com a menina. Uma espécie de conflito edipiano às avessas. A menina seguia sua tragédia. O garoto que vem da terra firme. O estrangeiro dá a ela outro sentido para a existência. Ela passa a não aceitar com tanta passividade o destino marítimo de seus dias. O revés do estrangeiro. Ele que vem. Abala. Instaura tempo. Feito evento.

As flechas do tempo levaram a garota. O velho quis se matar. Ela não permitiu. Regressou. Casou-se com ele. O estrangeiro observava toda a trama. Como que vendo atravessá-lo a flecha da tradição. Ao fim, o velho atira sua última flecha. Ela se perde no ar, cai sobre o vestido da moça em uma cena épica. Ela sangra. Ele morre. Ela deixa de ser virgem. O velho se afoga no mar. Cada um com sua tragédia: a do velho foi resignar-se e morrer. A da menina foi a de se entregar ao seu destino de casar-se com ele. O estrangeiro afunda o barco do velho. Ele cria um novo tempo. Descoloniza e liberta a menina. O mar, esse pharmakon, todo possibilidade e ao mesmo tempo todo limitação. Ela terá novos sonhos. O velho virou mar. A garota um novo continente. A parábola da vida se realiza quando a flecha afunda no coração. Não haverá saída. A flecha é filha do arco com o olhar do atirador. A menina se lança para um novo tempo. Ninguém sabe onde a flecha vai cair.

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