O Brasil no cinema de hoje a ontem: de Bolsonaro a Sganzerla

Qual a característica de nossa sociedade contemporânea? Ao menos um dos elementos que caracteriza nosso período histórico elucida alguma obra de arte produzida aqui hoje ou há alguns anos? Vou tentar argumentar que sim, e penso na obra O bandido da luz vermelha de Rogério Sganzerla, de 1968, anos do AI-5.

Uma coisa “engraçada” que acontece atualmente e que carrega a violência e a periculosidade da história brasileira é a posição do presidente da república Jair Bolsonaro. Essa figura ascendeu ao poder após nosso mais recente golpe de estado, embora tenha sido totalmente institucional o impeachment de Dilma expôs as contradições e os limites da democracia representativa em um país cujo colonialismo escravocrata só parece ter saído de cena. O conservadorismo e autoritarismo voltaram bruscamente à cena principal e pública do establishment político, cuja postura tem sido mais intransigente que nos últimos anos em relação ao povo.

Bolsonaro é um manequim patético que foi eleito a partir do ódio ao PT e pela decisão das elites internacionais de que era hora de voltar a explorar o país sem a transigência malandra de Lula e do PT, mesmo diminuindo com a Dilma. O movimento nesse elemento é parecido ao de quando, em 1890, a Inglaterra deu o famoso “ultimatum” nos portugueses para que explorassem mais e de acordo com o esperado pelo mercado internacional as suas colônias em África e, caso contrário, os ingleses interviriam. Bolsonaro foi o eleito e pautas econômicas neoliberais como a Reforma da Previdência vão sendo aprovadas enquanto o conservadorismo se faz presente principalmente no que tange às mulheres e à educação.

Último elemento antes de passarmos ao filme é a polifonia do governo Bolsonaro. Há um tempo sua estratégia de governo era dizer algo desagradável, problemático, canalha, etc., pela manhã e desmentir após repercussão negativa à noite em seu meio de comunicação preferido, o Twitter. Só aí já temos duas vozes ecoando sem que muita gente consiga se situar. O jogo das fake news como tática política chegou ao ápice nas eleições de 2018 no Brasil e o governo segue fazendo uso. Essa polifonia (muitas vozes circulando) também se via presente nas falas desconexas e contraditórias entre membros do governo, um falava o contrário do outro sobre diversos temas (e as diferenças ocorreram inclusive entre presidente e vice), gerando uma confusão às proposital, às vezes parecia que não, mas o fato era que a estrutura sempre ficava opaca, nunca explícita para os cidadãos. Esse problema quase foi resolvido quando nomearam alguém para ser o porta-voz oficial, mas como o Twitter do presidente gerido pelos filhos nunca para, as contradições seguem.

Muito bem, essa loucura institucional (certamente por outras razões que cabe analisar com cuidado, aqui só indico uma possível comparação) está presente em O bandido da luz vermelha, em especial essa polifonia. A sequência inicial é genial, com presença forte do rádio, cujo locutor faz a denúncia dos crimes do bandido da luz vermelha, discurso que é reforçado pelo painel digital que justapõe essas informações a dados reais da produção do filme, como direção, etc. Segue-se a narração do próprio protagonista e há ainda a câmera errante e montagem rápida, remetendo à edição de jornal ou algo assim, porém de forma caótica, um sobrepondo o outro, várias vozes falando. Para além do fato de que este caos estético dizer respeito à sociedade brasileira durante a ditadura militar (e o filme é do ano do AI-5, como dito), o longa apresenta essa variedade de vozes de uma maneira muito interessante.

Talvez não tenha cabimento a comparação, ou talvez tenha. A idéia é que pensemos mais nessa relação das obras com nosso contexto histórico, além de nunca descuidar da história como uma fonte importante de conhecimento do presente social e estético.

Rodrigo Mendes

 

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