O amor no filme ‘Perdas e Danos’ de Louis Malle com Juliette Binoche

Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor”

Caetano Veloso

Andei apaixonada por algumas mulheres ocidentais e que se eu levasse a sério essa coisa de física moderna e causalidade não viveria o amor. É assim, talvez o amor seja alguma coisa que para ser alcançada exige um tanto de distância. Diferente da exigência de proximidade que esse tipo de pensamento exige. Mulheres de tempos outros e que sequer poderiam se encontrar. O amor por elas fez esse milagre. Vamos deixar de poesia. O amor é milagre mesmo né.

Então por ordem de amores, posto que essa ideia de cronologia também é careta demais para falar de amor. Amei ontem mesmo Juliette Binoche. Ela ali dentro do filme “Perdas e Danos” de Louis Malle. Como passar inerte a essa tal de Anna Barton. É o nome da personagem que de uma só vez arrebata filho e pai. Aquele em um romance que assemelhasse a estórias de amor contadas em livros. Não mais real e tampouco menos fantasioso. O pai, Jeremy Irons, no papel de um político inglês conservador, também recebe a maçã de Binoche. Quem não receberia? Dessa maneira a beleza triste de Binoche, sua cor de heroína trágica realmente faz nascer amor e ódio, juntos, a cada vez que olha, a cada vez que ama, ri e mente. A cada vez que vive. O amor é pela viveção que há ali.

Já havia me apaixonado um tempo atrás por outra. Florbela. Também possuía essa cor de heroína. Foi amada, dizem uns, até mesmo pelo irmão. Aliás, característica de Anna. Essas mulheres sabem de sua tragédia. Com racionalidade que sobrepõe a razão dita cartesiana. Ouvem o som do ar. Experimentam o abismo. Amam. Por isso mesmo matam. Amar mulheres abismais pode ser a tônica aqui. Binoche é abismal. Florbela é uma poesia que viveu para que ela pudesse deixar esse tempo de relógios.

Antígona também amava o irmão. Morreu por ele. Anna matou seu irmão ao não amá-lo. Florbela matou o irmão ao poetizá-lo. Aquela escravizada pelo querer foi ao calabouço. Cumpriu sua tragédia. Florbela cumpriu sua poesia, que também é tragédia, senão não o é, amando sempre. E dizendo que queria amar. Ambígua, e por isso mesmo, amável, Binoche parecia uma outra mulher por quem me apaixonei assim que me pus a escrever esse texto. A Tigresa de Caetano fez tantas coisas comigo que quase me esqueço que estou a escrever sobre o filme. Binoche distribuiu ódio e amor dentro de uma família ao encantar pai e filho. Feito Tigresa cortou os laços da família “perfeita”. Quando o filho descobre a relação dela com seu pai, acaba também por morrer – um acidente.

Pois que seria o amor senão um acidente milagroso. Pois que se houver quem diga de onde brota. Quais os adubos para cuidar. Qual a melhor terra, diga-nos. Pois esse texto é sobre amor e física quântica. São amores que vivem juntos. Desde o século V a.C. , passando por um Portugal cheio de histórias. Desaguando em uma Europa desconhecida, só para bater na Bahia e ser arranhado por uma felina.

A mãe de Anna até que, feito Tiresias, alertou que a tragédia ali era o que conduzia. A paixão talvez seja tragédia. Não é o caso de discussões assim por aqui. O irmão de Anna havia suicidado dado o impossível de seu amor. Enquanto o político errava em sua vida em direção de Anna, estava a ser conduzido pelas mãos úmidas da tragédia. Vez amante. Outra morte mesmo. Talvez alcançar um sentido único para o humano seja o grande lance do filme. Ora, estar apaixonado impede essa precisão. Ali, entre estas mulheres todas, todas essas amantes, haveria apenas a precisão delas. Feito uma aranha que mata seu parceiro após o amor. Ali e em Antígona, e com Florbela, e com a Tigresa, o precipício seja o local do êxtase do amor. O abismo talvez seja esse outro lado que é a moeda do amor.

Sei que Caetano tocou seu instrumento para a Tigresa. Jeremy deixou sua vida para carregar o amor que recebeu de Binoche. Antígona, ela própria, alcançou o seu abismo. Florbela escreveu versos. Eu queria apenas declarar que não é possível o amor sem essa ambivalência que nos afoga no mar de Lisboa, nos brinda com um vinho colorido na França, maltrata a pele no sol da Bahia, mas que vale a pena, posto que milagre nasce de olhar, música e até da dor.

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