OBRA DE ARTE DA SEMANA: Coroa da princesa Branca

Coroa da princesa Branca, dita também Coroa de uma rainha inglesa, Coroa boêmia ou Coroa palatina, ouro, esmalte, safiras, rubis, esmeraldas, diamantes e pérolas, 18 cm de altura e 18 cm de diâmetro, cerca de 1370-1380. Conservada na Câmara do Tesouro da Residência de Munique, Alemanha.

Dentre as muitas peças de ourivesaria medieval sobre as quais discutimos aqui no Artrianon, nenhuma evoca tanto a atmosfera de contos de fadas quanto a coroa da princesa Branca, de estilo gótico, também chamada de coroa de uma rainha inglesa, coroa boêmia ou ainda coroa palatina, composta de ouro, esmalte, safiras, rubis, esmeraldas, diamantes e pérolas.

Seus diversos nomes nos revelam um pouco de sua história. A joia aparece pela primeira vez em um inventário dos bens do rei Ricardo II da Inglaterra feito em 1399 – é, inclusive, a única coroa das onze dessa lista que certamente ainda existe até os dias de hoje, sendo assim a coroa inglesa mais antiga de que se tem notícia – e acredita-se que tenha sido parte do tesouro de Eduardo III ou do dote da primeira esposa de Ricardo II, Ana da Boêmia. Entretanto, segundo o que foi relatado nesta data, ela estaria desmontada e inapta para o uso, pois das doze hastes com decorações florais que a compõe, havia somente onze. Em 1402, um ourives foi pago para restaurá-la – é possível notar a diferença entre as hastes devido à qualidade inferior desse trabalho em relação ao restante da peça que teria sido realizada provavelmente na França – e, no mesmo ano, a coroa foi enviada junto com a princesa Branca, filha de Henrique IV, o sucessor de Ricardo II, como parte de seu dote no casamento com o Duque Luís III, que se tornaria Eleitor Palatino após a morte de Branca. Somente em 1782, a peça passou a fazer parte do tesouro de Munique – ao qual pertence até hoje, podendo ser admirada pelos visitantes da Câmara do Tesouro da Residência de Munique – junto a outros tesouros desse ramo da família de Wittelsbach, que sucedeu ao ramo da Baviera no domínio dessa região, quando da sua extinção por falta de herdeiros.

A delicadeza da peça e as cores das pedras preciosas escolhidas para orná-la não deixam dúvida de que se tratava de uma coroa destinada a uma mulher. Os detalhes vegetais em forma de flor de lis, entretanto, eram muito comuns também em coroas masculinas. Apesar da flor de lis ser ligada a pureza e à Virgem Maria – o lírio aparece com frequência nas representações do episódio da Anunciação -, e, portanto, adequado a jovens aristocratas que se casariam, o símbolo também remete à divindade, fecundidade e graça desde a Antiguidade, tendo sido adotado por reis medievais desde os últimos carolíngios e primeiro capetíngios desde o século IX, no intuito de se identificar com a realizada bíblica (Pinoteau).

Segundo Elizabeth Harper, a joia poderia ter ligação com a cerimônia de casamento – lembremos que esta viajou a Europa duas vezes como dote de moças nobres – na qual era comum que a noiva portasse uma espécie coroa, algumas igrejas possuindo até mesmo um círculo de metal simples para que as mulheres mais pobres que não tinham sua própria joia pudessem usá-la nessa ocasião. A pesquisadora ainda aponta que nesse tempo, possuir tesouros era desejável, pois detê-los era de certa forma participar de sua beleza e preciosidade. Entretanto, ela explica que também era importante presentear, assim como se era presenteado, sendo a dinâmica de troca de objetos uma forma de selar as alianças e relações de vassalagem. Ou seja, a coroa que chegou ao tesouro inglês como dote de Ana da Boêmia não ficou para sempre na Inglaterra, mas voltou ao continente com a princesa Branca.

Por fim, Harper fala ainda da pérola como uma metáfora do valor de uma jovem, pura e única (Evangelho de Mateus, 13:45-46), quando estuda o poema medieval Pearl, de autor desconhecido. Assim, podemos nos perguntas se é possível que as pérolas estejam em uma coroa como essa, que acompanharia princesas quando dos seus casamentos, não somente por sua preciosidade e beleza, mas também por seu significado.

 

Bibliografia/Links:

« Lírio » in Jean CHEVALIER, Alain GHEERBRANT, Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1995, p. 553-554. Trad. Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Agela Melim, Lúcia Melim.

Christine DESCATOIRE, « L’orfèvrerie et l’émaillerie » in Dossier de l’art, Paris, Faton, No. 152 (Maio 2008), p. 246-257.

Elizabeth HARPER, « Pearl in the Context of the Fourteenth-Century Gift Economy» in The Chaucer Review, Vol. 44, No. 4 (2010), p. 421-439.

Sabine HEYM, « Corone i gioielli di Baviera » in G. GUADALUPI, I grandi tesori : I capolavori dell’oreficeria attraverso i secoli, Bergamo/Torino, Edizione White Star, 1998, p. 274-285.

Hervé PINOTEAU, « Lis fleurs de » in Enciclopedia Universalis, [Online]. Consultado em 21/07/2020.
https://www.universalis.fr/encyclopedie/fleurs-de-lis/

« Crowns » in Richard’s II Treasure : The Riches of a Medieval King, Institut of Historical Research and Royal Holloway, University of London, [Online]. Consultado em 20/07/2020.
https://archives.history.ac.uk/richardII/crowns.html

 « Krone eine Englischen Königin » in Bayerisch Verwaltung der staatlicher Schlösser, Gärten und Seen, [Online]. Consultado em 20/07/2020. https://www.residenz-muenchen.de/deutsch/skammer/bild11.htm

 

Fontes das imagens:

https://www.residenz-muenchen.de/englisch/treasury/pic11.htm

By DALIBRI – Own work, CC BY-SA 3.0, commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=38451497



Comprando qualquer produto na Amazon através desse link, você ajuda a manter o Artrianon e não paga nada a mais por isso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s