OBRA DE ARTE DA SEMANA: A Vênus de Milo


Afrodite, dita Vênus de Milo
, mármore de Paros, 202 cm de altura, cerca de 100 a.C. Conservada no Museu do Louvre, Paris, França.

Junto à Mona Lisa e a Vitória de Samotrácia, a estátua de uma deusa encontrada próxima ao teatro antigo da ilha de Milo – Mélos, em Grego Antigo –, no arquipélago das Cíclades, conhecida como Vênus de Milo, é uma das mais famosas do Museu do Louvre.

Entretanto, apesar do nome sob o qual é mais célebre indicar que se trata de uma representação de Afrodite ou Vênus, a deusa do amor e da beleza greco-romana, não se tem certeza de que a escultura seja verdadeiramente uma imagem dessa personagem. Geralmente, a maior parte das deusas eram representadas sob belos traços femininos que seguem o ideal de beleza grego – podemos atestar, inclusive, o desejado perfil grego, no qual a testa e o nariz formam uma linha contínua -, vestes drapeadas e cabelos presos segundo o costume daquela época.

Apesar de marcas que indicam que a estátua era ornada de joias de metal – um bracelete, brincos e uma faixa na cabeça – esses elementos são bastante comuns e não são suficientes para identificar uma divindade específica. Assim, sem outros atributos que permitam constatar de qual deusa se trata, é possível fazer somente especulações. Supõe-se que a escultura represente a deusa do amor e da beleza por seu torso estar nu, assim como em outras estátuas da personagem, por exemplo, a dita Afrodite de Cápua. Mas não se pode descartar a possibilidade de que fosse uma imagem da deusa do mar Anfitrite, esposa de Poseidon, que era venerada na região na qual a estátua foi encontrada, ou ainda alguma outra deusa do panteão grego.


Afrodite de Cápua
, mármore, século IV a.C. Conservada no Museo Archeologico Nazionale, Nápoles, Itália.

A escultura foi encontrada sem os braços e o pé esquerdo, que poderiam nos dar mais pistas sobre sua identificação. Já houveram suposições de que ela estivesse apoiada sobre uma coluna ou encostada em Ares/Marte, deus da guerra e amante de Afrodite/Vênus; ou que segurasse uma coroa, um espelho ou um escudo no qual se admirasse – uma imagem comum da deusa da beleza – ou ainda uma maçã nas mãos, fazendo alusão ao episódio do julgamento de Páris, que deu origem a guerra de Troia, no qual o jovem mortal deveria determinar qual deusa era a mais bela, e este escolheu Afrodite, com a promessa de sua proteção e de possuir a mulher mais bela do mundo, Helena.

Quanto a composição da obra, que foi realizada em diversas partes separadas – busto, pernas, braços e pé  – como o costume da época, para facilitar a criação e o transporte,  é interessante notar que ela foi possivelmente criada para ser admirada de três quartos, ângulo que valoriza a torção de seu corpo, uma inovação do período helenístico, ao qual pertence. Apesar de as feições do rosto serem severas, a posição de seu corpo faz parecer que o tecido drapeado acabou de cair de seus ombros e a deusa levanta o joelho esquerdo para evitar que este escorregue ainda mais.

Nesse ponto do tecido que escorrega revelando um torso nu, podemos comparar a composição à diversas outras mais antigas representando Afrodite/Vênus. É possível, inclusive, que uma das inspirações para a obra tenha sido a Afrodite de Cápua, já mencionada acima, que tem uma pose parecida, entretanto, sem o mesmo movimento, e as mesmas feições altivas, impassíveis e harmônicas. Os cabelos e a maneira como a carnação foi esculpida também podem indicar uma inspiração de Praxiteles, grande escultor grego do século IV.

Também, é possível que como outras esculturas de mármore da Antiguidade Clássica, como, por exemplo, a Vitória de Samotrácia, sua companheira de museu, a Vênus de Milo fosse policroma, ou seja, pintada em cores vivas. Entretanto, não existem vestígios de pigmentos que o comprovem.

Por fim, ainda é interessante a história de como a estátua chegou ao Museu do Louvre, em uma disputa entre a França e a Grécia. Como foi mencionado no início do texto, a estátua foi encontrada em duas partes por um camponês, junto a outros vestígios antigos, próximo ao teatro da cidade de Milo, no arquipélago das Cíclades, no mar Egeu, atual Grécia, em 1820. Entretanto, naquela época a Grécia era dominada pelo Império Otomano, e o embaixador francês em Constantinopla, capital do império, foi avisado da descoberta. A obra já estava em um navio grego, quando pela diplomacia ou pelas ameaças dos canhões de um navio, os franceses conseguiram se apoderar dela e levá-la a Paris, onde foi oferecida ao rei Luís XVIII como um presente pelo marquês de Rivière, embaixador em Constantinopla. No ano seguinte, o monarca a doou ao Louvre, onde, desde então, se tornou uma de suas celebridades.

 

Bibliografia:

Marie-Bénédicte ASTIER, « Aphrodite, dite Vénus de Milo, in Musée du Louvre, [Online]. Consultado em 07/09/2020.
https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/aphrodite-dite-venus-de-milo

Luca BACHECHI, Emanuele CASTELLANI, Francesca CURTI, Les chefs-d’oeuvre du Musée du Louvre, Paris, Place des Victoires, 2009, p. 78-81.

Pierre GRIMAL, Dicionário de mitologia grega e romana, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 10-11, 29.

Fonte das imagens:

Por Bérangère Segura
https://www.flickr.com/photos/56964324@N06/8578953313

https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/aphrodite-dite-venus-de-milo

http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=14200&langue=fr

http://www.ancientcapua.com/wordpress/wp-content/uploads/2013/04/afroditecapuamuseonapolyd3.png

 

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