OBRA DE ARTE DA SEMANA: O ‘Sarcófago dos esposos’, uma obra etrusca


Sarcófago dos esposos
, terracota policroma, 111 x 194 x 69 cm, 520-510 a.C. Conservado no Musée du Louvre, Paris, França.

Apesar da famosa obra arcaica etrusca conservada no Museu do Louvre ser conhecida como Sarcófago dos esposos, é possível que se trate, na verdade, de uma urna funerária destinada às cinzas e não ao corpo, propriamente dito, do defunto, pois essa sociedade tanto cremava, quanto enterrava seus mortos. De qualquer maneira, trata-se de um objeto destinado a recolher os restos mortais de personagens – um ou ambos os esposos – de posição elevada na sociedade da época.

O receptáculo possui a forma de uma kline, uma espécie de cama usada durante banquetes, nos quais as pessoas comiam e bebiam reclinados em almofadas, apoiando os cotovelos, como vemos em muitas cenas gregas. O costume é originário da Ásia Menor e foi assimilado tanto pelos gregos, quanto pelos etruscos. Banquetear era um símbolo distintivo econômico e social, e também existia no contexto funerário, como testemunham representações desse tipo de cena em tumbas etruscas. Entretanto, na Grécia os banquetes eram reservados aos homens, enquanto, na Etruria, as mulheres possuíam maior importância na sociedade e participavam desses eventos como iguais aos homens. Assim, vemos sobre a tampa, um casal representado do mesmo tamanho, em pé de igualdade. Apesar da rigidez e pouco realismo das representações da época, podemos perceber que o esposo – com o torso nu, como era o costume em banquetes – está com o braço direito sobre o ombro de sua esposa e eles parecem compartilhar um momento agradável. A esposa parece oferecer algo ao seu marido com a mão direita. Segundo o Museu Archeologico Etrusco de Roma, que possui a única outra peça parecida com essa de tal dimensão que nos é conhecida, – também encontrada pelo marquês Campana na Necrópole de Banditaccia, em Caere, atual Cerveteri, na Itália -, trata-se de um momento de vida e intimidade, como se o casal não estivesse morto. Esse tipo de representação do morto banqueteando como se estivesse vivo é muito comum aos etruscos, que a representaram tanto em pinturas nas paredes de tumbas, quanto nas tampas de um grande número de urnas funerárias de tamanho menor.


Sarcófago dos esposos
, terracota policroma, 140 x 220 cm, 530-520 a.C. Conservado no Museo Nazionale Etrusco, Roma, Itália.


Urna cinerária com esposos na tampa
, terracota policroma, 56 x 58 x 28 cm, 510-500 a.C. Conservado no Musée du Louvre, Paris, França.


Tumba dos leopardos
na Necrópole etrusca de Monterozzi, Tarquinia, Itália, século V a. C.

Acredita-se que originalmente houvesse objetos, hoje perdidos, nas mãos do casal, por exemplo, uma taça de vinho, um recipiente com perfume e um objeto circular, talvez uma romã, que simbolizava imortalidade. Tanto o vinho – típico dos banquetes -, quanto o perfume, faziam parte dos rituais funerários.

É provável que a mulher também usasse brincos, como indicam os furos que restaram em suas orelhas. É importante ressaltar que os mortos eram enterrados com seus objetos mais preciosos, tanto para que pudessem usufruir destes na vida após a morte, quanto para indicar sua posição elevada na sociedade. Além desse acessório, ela também tem sobre sua cabeça o chamado tutulus, espécie de chapéu característico etrusco; e sapatos com as pontas curvadas em direção ao alto, conhecidos como calcei repandi, uma moda de inspiração oriental.

Quanto ao estilo, existe uma grande influência da arte grega do período – muitos gregos do leste, em particular jônios, emigraram devido à ameaça persa -, por exemplo, nos lábios sorridentes que formam o característico sorriso arcaico. Outras grandes obras-primas da arte etrusca, tal como as pinturas murais nas paredes das tumbas de Tarquinia também foram influenciadas pelos artesãos gregos.

Além disso, como é possível perceber se olharmos atentamente a obra, veremos que esta é policroma, ou seja, pintada em diversas cores. A tinta branca que vemos hoje nos braços da esposa – a brancura sendo um símbolo das mulheres de classe social elevada -, é em parte original, em parte oriunda de uma restauração do século XIX. Entretanto, as análises já realizadas nessa escultura provam que a terracota – material mais frequente na elaboração de decorações arquiteturais e funerárias, pois não havia muita rocha disponível para ser esculpida na região – foi realmente pintada na época em que a obra foi criada, como era comum a outros objetos do mesmo material no período.

Bibliografia:

Marie-Bénédicte ASTIER, “Sarcophage des époux de Cerveteri” in Louvre, [Online]. Consultado em 02/11/2020.
https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/sarcophage-des-epoux-de-cerveteri

Marie-Bénédicte ASTIER, “Urne cinéraire avec des époux sur le couvercle” in Louvre, [Online]. Consultado em 03/11/2020.

Luca BACHECHI, Emanuele CASTELLANI, Francesca CURTI, Les chefs-d’oeuvre du Musée du Louvre, Paris, Place des Victoires, 2009, p. 82-87.

https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/urne-cineraire-avec-des-epoux-sur-le-couvercle

“Sarcofago degli Sposi” in Museo Nazionale Etrusco, [Online]. Consultado em 02/11/2020.
https://www.museoetru.it/opere/sarcofago-degli-sposi

“Sarcofago degli Sposi” in Capolavori – Museo Nazionale Etrusco, [Online]. Consultado em 03/11/2020.
https://www.museoetru.it/capolavori/sarcofago-degli-sposi

Fonte das imagens:

https://fr.wikipedia.org/wiki/Sarcophage_des_%C3%89poux_(Louvre)

https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/sarcophage-des-epoux-de-cerveteri

https://www.museoetru.it/opere/sarcofago-degli-sposi

https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/urne-cineraire-avec-des-epoux-sur-le-couvercle

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