OBRA DE ARTE DA SEMANA: A polêmica ‘Diva’ de Juliana Notari


Juliana Notari, Diva, concreto, resina e tinta náutica, 33 m x 16 m x 6 m, 2020. Parque Artístico Botânico Usina da Arte, Santa Terezinha, Água Preta, Pernambuco, Brasil.

A obra ‘Diva’ da artista pernambucana Juliana Notari causou polêmica nas redes sociais recentemente, tendo até repercussão internacional, por se parecer com uma vagina gigante no meio da paisagem do Parque Artístico Botânico Usina da Arte – parque com obras de arte ao ar livre, com proposta parecida com a do Inhotim, de Minas Gerais -, em Pernambuco. 

A polêmica land art – tipo de obra na qual o artista interfere na paisagem – foi o resultado de uma residência artística na Usina da Arte, em parceria com o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, de Recife, e demorou onze meses para ser concluída – devido à pandemia e à estação das chuvas -, contando com a ajuda de uma empresa de engenharia civil e diversos trabalhadores. Uma grande fenda de seis metros de profundidade foi escavada usando pás, pois o terreno e as formas que a criadora desejava conferir ao trabalho final não permitiam o uso de uma máquina. Depois, a fenda foi coberta com concreto, criando o relevo que a faz parecer com uma vulva, e pintada com tinta náutica, para aguentar as intempéries, tomando, por fim, a superfície de 33 por 16 metros. 

A ideia da artista era, sim, que a obra parecesse com uma vulva, mas não somente uma, abrindo caminho para múltiplas interpretações, como veremos mais à frente. A imagem do órgão genital feminino em vermelho – cor do sangue – evoca diversos tabus quanto à sexualidade feminina, que ainda hoje é vista com maus olhos pela nossa sociedade frequentemente ainda patriarcal e misógina. A cor vermelho não deixa de evocar a menstruação, outro tabu ao qual até pouco tempo atrás só se podia fazer referência através de eufemismos, tal como “estou naqueles dias”.

A vagina causa repulsa e desconforto a algumas pessoas, indignação por ser mostrada sem pudores, por outras, e é justamente por isso que a obra causou tanta polêmica. Mas, por que representações de vulvas são tão problemáticas, enquanto que formas fálicas – em formato de pênis – são tão frequentes que não causam nenhum espanto e chegam até mesmo a passar despercebidas? Por que uma vulva vermelha e gigante causa tanto desconforto? Afinal, metade da população possui uma e a outra metade veio ao mundo através de uma. 

A cor vemelha, ou seja, do sangue, também faz referência à violência, e, nesse ponto, podemos pensar nas várias formas de violências praticadas contra os corpos femininos, acredito que desde aquelas voluntárias, tanto para se alcançar a tão sonhada beleza, quanto, por exemplo, nas cesarianas forçadas, até o assédio e o estupro. A artista já trabalha há muito tempo com essa temática, como testemunha sua performance Dra. Diva, na qual ela, vestida com roupas de enfermeira, abre um buraco na parede imaculadamente branca e coloca sangue de boi que escorre de seu interior, tal qual uma ferida aberta ou uma vagina. Depois, um espéculo ginecológico é introduzido na abertura. 


Juliana Notari, Dra. Diva, performance, 2003-2008. 


Juliana Notari, Dra. Diva, performance, 2003-2008. 


Juliana Notari, Dra. Diva, performance, 2003-2008. 

Além das interpretações acima, a artista esclarece que Diva é também uma ferida aberta – justamente para propor uma reflexão mais ampla, a representação da vulva não possui os lábios e o clitóris. A obra foi realizada no local onde existia no passado uma usina de álcool e cana de açúcar, ou seja, onde a natureza já havia sido desmatada, representando a violência contra o meio ambiente e sua exploração. O ato de plantar abrindo fissuras – feridas na terra – e fecundá-la através de sementes não deixa de lembrar também a própria fecundação da mulher, que muitas vezes, através da história, acontecia de maneira forçada. E, aqui, podemos pensar na pressão que ainda existe hoje para que as mulheres tenham filhos, como se fossem meras máquinas de reprodução. 

A ferida aberta na terra que sangra também faz alusão à exploração dos trabalhadores. Trabalhadores que no passado eram escravos e, hoje, com frequência não são justamente remunerados. Assim, é possível relacionar a obra a uma série de violências sociais e raciais ligadas ao colonialismo e ao capitalismo. 

A própria artista foi criticada quando postou nas redes sociais uma selfie com os trabalhadores ao fundo – ela, branca, e os trabalhadores, pardos ou negros. Segundo ela, essa imagem é o retrato de nossa sociedade, ou seja, mostra os sintomas sociais da nossa herança colonial; o campo da arte sendo, inclusive, extremamente desigual.

Também houveram críticos que viram a obra como transfóbica ou genitalista, excluindo outras formas de gênero e  sexualidade e reproduzindo a prática machista do emprego das formas fálicas. Entretanto, Juliana Notari deixa claro que a obra – que não tem lábios, nem clitóris – representa diversas feminilidades, além de diferentes questões de gênero, não se atendo unicamente às mulheres cis e à vagina – o corpo humano possui vários outros orifícios que podem ser feridos. 

Em minha opinião, as mais diversas discussões que possam surgir em torno dessa ou de outras obra são bastante válidas, afinal, esse é o papel da arte contemporânea, suscitar questões e reflexões. 

 

Referências:

Material de divulgação enviado pela artista. 

Juliana Notari, [Online]. Consultado em 08/02/2021.
https://www.juliananotari.com/

Clarissa DINIZ, “‘Diva, de Juliana Notari, é uma ferida aberta” in Revista Continente, [Online]. Consultado em 08/02/2021.
http://revistacontinente.com.br/secoes/critica/-diva—de-juliana-notari–e-uma-ferida?fbclid=IwAR3qjBV2kKOiYCVWpwv7xl-6rbFpi_DhSRogb90YFkL7ykmfXyL4IIkSkMI

Luciana VERAS, “Juliana Notari” in Revista Continente, [Online]. Consultado em 08/02/2021.
http://revistacontinente.com.br/edicoes/225/juliana-notari  

 

Fonte das imagens:

Divulgação

 

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