A contracultura e o polêmico movimento underground dos quadrinhos

Nos anos 60 e 70, vimos emergir uma diversidade de movimentos que, por meio da transgressão dos padrões sociais estabelecidos, reivindicaram mudanças do papel da mulher na sociedade, direitos básicos para os negros, liberdade sexual, o fim da guerra do Vietnã, entre tantas outras pautas.

Construídas principalmente por jovens de classe média que repudiavam o American Way of Life e buscavam novos modos de viver ética e politicamente, as ideias contraculturais se manifestaram também nas artes, como a literatura, o teatro, o cinema, a música e também as histórias em quadrinhos (HQ’s).

E é justamente sobre estas as HQ’s surgidas em meio a efervescência contracultural que falarei neste texto. Contudo, para entender melhor a emergência deste movimento, é importante compreender a censura pela qual os quadrinhos passavam naquele momento.

Desde a década de 1940, os quadrinhos foram alvo de críticas que vinham de todas as direções, tanto de autoridades conservadoras quanto de intelectuais de esquerda, que, no período, teciam duras críticas à transformação da arte em mercadoria e aos produtos culturais consumidos pelas massas.

Em meio a estas críticas, um psiquiatra chamado Fredrik Wertham se destacou ao associar os quadrinhos aos índices de delinquência juvenil que cresciam nas estatísticas do país. Por meio do livro A Sedução dos Inocentes, de 1954, a cruzada de Wertham contra os quadrinhos ganhou a mídia, conquistando a atenção do público, especialmente as famílias de classe média.

Com a repercussão, as grandes editoras de quadrinhos se juntaram e, por meio dos Syndicates  (órgão que regula a distribuição de material impresso nos EUA) e da Associação das Revistas em Quadrinhos da América, estabeleceram uma espécie de autocensura que foi chamada de Comics-Code Authority. Um tipo de censura que definia quais conteúdos poderiam ser publicados ou não.

Algumas entre as diversas regras do código previam que o casamento e os valores familiares e domésticos fossem enaltecidos, enquanto o divórcio, quando mencionado, deveria ser sempre depreciado; os personagens considerados do bem deveriam sempre vencer e ser recompensados, enquanto o vilões deveriam ser sempre derrotados e punidos.

A partir de então, antes de serem publicadas, todas as revistas teriam de se adaptar às novas diretrizes para receber o “selo de aprovação” que indicava que aquela era uma publicação “limpa”.

Em decorrência disso, durante mais de uma década após o início da regulamentação, os quadrinhos foram considerados uma arte destinada apenas às crianças, até que, em meados dos anos 1960, alguns artistas decidiram reagir.

Em meio aos diversos movimentos contraculturais, muitos quadrinistas começaram a produzir e distribuir, por conta própria, histórias com uma linguagem que transgredia a toda censura imposta pelos Syndicates, dando início ao que ficou conhecido como o “movimento underground dos quadrinhos”.

Num momento em que a maioria dos quadrinhos comerciais contava histórias de super-heróis invencíveis e famílias perfeitas,  as revistas deste movimento –  que foram denominadas comix –  traziam personagens falhos e cheios de vícios em histórias extravagantes sobre sexo, drogas, violência e outros tabus censurados.

Estas revistas de caráter marginal visaram um público adulto e foram vendidas principalmente nas headshops, lojas que comercializavam livros e produtos relacionados à cultura hippie. Na ocasião, muitas editoras que produziam pôsteres psicodélicos, um produto que estava em alta no momento, começaram a incluir algumas revistas em seus catálogos, fazendo com que os comix circulassem cada vez mais entre universitários e hippies, principalmente na Califórnia.

Não é possível mapear com exatidão quais foram as primeiras HQ’s desta vertente mas, segundo alguns pesquisadores, o reconhecimento do underground como um movimento só aconteceu a partir de 1968, com o surgimento da revista Zap Comics, produzida por Robert Crumb. A partir do sucesso da Zap, muitos outros artistas – como Justin Green e Art Spiegelman –  passaram a produzir obras que traziam em suas páginas histórias sobre LSD, pornografia e desobediência civil.

Fragmento de uma história de Whiteman, personagem criado por Robert Crumb. Disponível em América, coletânea de obras de Crumb publicada no Brasil pela Conrad editora.

A edição nº 04 da Zap Comics, por exemplo, apresentava o personagem Jow Blow, um jovem do subúrbio, que numa história alegre e com tom [quase] ingênuo, se envolve numa relação sexual incestuosa com sua irmã (e com umas cenas bem escandalosas). As autoridades não reagiram bem à publicação e envolveram a justiça. Como resultado, em Nova York, um dono de banca e um empregado foram julgados pela venda da revista.

Contudo, o movimento também trouxe certas controvérsias entre muitos outros sujeitos inseridos no meio artístico. Em muitas destas HQs, o racismo era explícito na forma como os negros foram retratados e as mulheres apareciam de forma objetificada ou fetichizada em cenas de extrema submissão sexual. principalmente em relação às mulheres, houve certa revolta entre os movimentos feministas que se tornavam mais expressivos no período.

O próprio movimento era pouco acessível às quadrinistas do sexo feminino e, na ocasião, muitas artistas se uniram e começaram a produzir suas próprias revistas de modo a construir uma via ainda mais alternativa para o movimento underground.

Por meio de revistas como It Ain’t Me, Babe e Wimmen’s Comix, artistas como Trina Robbins, Sharon Rudall e Aline Kominsky redefiniram boa parte do underground, trazendo um novo olhar sobre muitos dos assuntos já abordados e apresentando histórias de cunho feminista cujos assuntos tratavam de traição masculina, assédio sexual, e muitas outras questões.

Capas de It Ain’t me, Babe e Wimmen’s Comix #4. Principais revistas em quadrinhos produzidas por artistas feministas.

Em meados dos anos 1970, a contracultura estadunidense passou a perder força e, com ela, o movimento underground dos quadrinhos. Com o fim das headshops, o principal meio de distribuição, a circulação marginal tornou-se ainda menor. Contudo, muitos destes autores acabaram se inserindo em meios mais comerciais e continuaram a construir obras de temáticas complexas e subjetivas, porém em novos formatos de quadrinhos. Muitas destas obras são publicadas em volume único – ao contrário dos quadrinhos convencionais que são publicados  periodicamente em revistas – e em formato com acabamento mais elaborado, semelhante a um livro – as chamadas graphic novels –, que permitem que sejam vendidas em livrarias.

Um exemplo é a famosa obra Maus: A História de um Sobrevivente, publicada pelo quadrinista Art Spiegelman que, inspirado na história de sua família, construiu uma fábula sobre a trajetória de um grupo de judeus (representados por ratos) sobrevivendo ao holocausto nazista (sendo que os alemães são representados por gatos). Uma obra que chegou a render a seu autor um prêmio Pulitzer, um dos mais importantes do jornalismo.

Apesar de notarmos certas contradições e controvérsias no movimento, compreender a história dos quadrinhos underground nos leva a pensar as maneiras como a arte foi utilizada em determinados momentos da história como uma forma – extravagante, até – de criticar a ordem estabelecida e o status quo.

Algumas coletâneas de obras de artistas vindos do underground:

Zap comics – vários artistas (em portugues): https://www.amazon.com.br/Zap-Comix-R-Crumb/dp/8587193813

The complete Zap Comics – vários artistas (em inglês): https://www.amazon.com.br/Complete-Zap-Comix-Boxed-Set/dp/1606997874/ref=pd_lpo_14_t_2/138-3518931-2545458?_encoding=UTF8&pd_rd_i=1606997874&pd_rd_r=231be25e-e710-436f-a20d-181ed1c5abee&pd_rd_w=6psrV&pd_rd_wg=Oghfq&pf_rd_p=6102dabe-0e19-4db6-8e11-875a53ad30be&pf_rd_r=0X05WK1EK4V3WSPAME06&psc=1&refRID=0X05WK1EK4V3WSPAME06

Mr. Natural – Robert Crumb: https://www.amazon.com.br/Natural-Para-Hosp%C3%ADcio-Outras-Hist%C3%B3rias/dp/857616101X/ref=pd_lpo_14_t_1/138-3518931-2545458?_encoding=UTF8&pd_rd_i=857616101X&pd_rd_r=231be25e-e710-436f-a20d-181ed1c5abee&pd_rd_w=6psrV&pd_rd_wg=Oghfq&pf_rd_p=6102dabe-0e19-4db6-8e11-875a53ad30be&pf_rd_r=0X05WK1EK4V3WSPAME06&psc=1&refRID=0X05WK1EK4V3WSPAME06

Breakdowns: retrato do Artista quando jovem – de Art Spiegelman: https://www.amazon.com.br/Breakdowns-Art-Spiegelman/dp/8535914633/ref=pd_sbs_1?pd_rd_w=EsnAR&pf_rd_p=0b7b5b86-4ae8-4ee9-8222-a387f0fff9c7&pf_rd_r=6DVRGNRRDS30534YTYB5&pd_rd_r=93efc713-9dc7-43cf-8327-c13827fbe4d7&pd_rd_wg=HMfyL&pd_rd_i=8535914633&psc=1

Essa bunch é um amor – Aline Kominsky: https://www.amazon.com.br/Bunche-%C3%89-Um-Amor/dp/8576164779

Binky Brown Meets the Holy Virgin Mary – de Justin Green: https://www.amazon.com.br/Binky-Brown-Meets-Holy-Virgin/dp/193478155X/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&dchild=1&keywords=binky+brown&qid=1614112039&s=books&sr=1-1

Wimmen’s Comix – várias artistas: https://www.amazon.com.br/Complete-Wimmens-Comix-Trina-Robbins/dp/1606998986/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&dchild=1&keywords=womens+comix&qid=1614112089&s=books&sr=1-1

Referências bibliográficas:

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GABILLIET, Jean-Paul. Of Comics and Men: a cultural history of American Comic Books. University Press of Mississippi/Jackson. 2010.
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HATFIELD, Charles. Alternative Comics: An Emerging Literature. Jackson: University Press of Mississipi. 2005.
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ROSENKRANZ, Patrick. Rebel Visions: The Underground Comix Revolution (1963-1975). Seattle: Fantasgraphics Books. 2008.
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ROSZAK, Theodore. A contracultura: reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil. Petrópolis: Vozes. 1972.

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