A hora da estrela e o fazer-se obra de arte

A hora da estrela, escrita por Clarice Lispector em 1977, é uma composição em metalinguagem. Trata-se, assim, de uma obra falando sobre outra obra. Quais seriam essas obras? A primeira é o próprio livro e a segunda está personificada em Macabéa. O que isto significa? A obra livro fala da obra Macabéa. Sobre esta última, a personagem central está implicada no seu escritor, Rodrigo S.M., afinal, eles são um só.

Assim, A hora da estrela é sobre como o seu autor (Rodrigo) se fez Macabéa (isto é, uma verdadeira obra de arte). Explico: desde o começo do livro, o seu autor se compara com Macabéa e declara seu amor a ela. Mais do que isso, ele não sabe, tal qual sua vida, o que vai acontecer dali em diante. A narração não é sobre um passado ou um futuro, mas ela funciona como um acontecimento presente. Rodrigo e Macabéa nos convidam a (re)pensar a escrita como arte, como um devir-viver.

Freud, em seu texto Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico (1911), apresenta sua tese sobre a perda da realidade. Assim, o sujeito se configura entre duas instâncias: prazer e realidade. É preciso, segundo o autor, um acordo entre os dois. Se a educação representa a superação do princípio do prazer pelo princípio da realidade, será na arte que encontraremos a conciliação. Eis, portanto, a grande função da arte: transgredir as nuances da realidade e atender às demandas do prazer.

Freud realizou diversos estudos psicanalíticos a partir da análise de obras literárias/pinturas/esculturas

Voltemos a Rodrigo e Macabéa. A escrita e a presença constante da personagem são formas que Rodrigo encontrou de transgredir a si mesmo. É, conforme disse Anaïs Nin: é preciso transformar “a nossa própria vida em obra de arte”. Para isso, é preciso estabelecer linhas de fuga. Deleuze e Guattari explicam que as linhas de fuga se opõem às linhas duras. Sobre as últimas, elas se referem aos padrões estratificados da sociedade (educadora/o, mãe/pai, filha/filho etc) e que as linhas de fuga nos possibilitam escapar da dor e do sofrimento da realidade.

Spinoza fala em uma ética. Para o filósofo, a ética está ligada às experimentações. Isso quer dizer que é preciso pensar em uma ética no lugar de uma moral. A moral é, no sentido spinozista, a lei. Na psicanálise, a moral está associada ao supereu, isto é, as heranças familiares que trazem consigo a opressão dos padrões sociais (os dizeres “é preciso ser alguém na vida” traz consigo uma série de determinações pré-definidas sobre o que seria exatamente esse “alguém”). Assim, a escritora Anaïs Nin se liberta da moral pela arte. Rodrigo e Macabéa também.

Em Frankenstein ou o prometeu acorrentado (Mary Shelley), o monstro criado por Victor Frankenstein foi criado a partir de pedaços de corpos distintos e não possui sequer um nome (o nome Frankenstein é herdado de seu “pai” cientista). Entretanto, ao ter o seu próprio ser retalhado, ele reconstrói sua existência. Ele pede pela experimentação, exige um devir-viver. Macabéa foi retalhada por toda a sua vida com as opressões da tia, do chefe, do namorado, mas, ao fim, ela passa a se amar. Por fim, acredito que a analogia sobre o roubo da Mona Lisa pode nos ajudar a compreender o que Macabéa se tornou. A fins de recordação, antes do roubo, a obra máxima de Leonardo da Vinci era só mais uma obra no Louvre. Medéia, diante das opressões, ou seja, dos roubos que a realidade lhe impôs, também era só mais uma obra. Mas, em sua morte, ela se encontra e, como a Mona Lisa, se torna uma verdadeira obra de arte

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