Entrevista com Natália Nodari, autora de “O Segundo Cu”

Em novembro deste ano, Natália Nodari, a ilustre autora dos textos da página O Segundo Cu, lançou em livro físico e em e-book obra de mesmo título da sua página. No livro encontraremos textos inéditos, além de muitos dos seus textos que tiveram que ser retirados das redes sociais, devido ao teor explícito das narrativas, que acabaram por sofrer censura nas redes (quem conhece a autora há alguns anos deve lembrar dos textos!). Os escritos de Nodari começaram a fazer muito sucesso em seu blog e na página do Facebook: os primeiros deles foram contos eróticos, com temas bastante fortes e marcantes, com descrições intensas e pitadas de críticas sociais. Em seguida, Nodari nos trouxe crônicas tingidas de melancolia e reflexões sobre a durabilidade dos relacionamentos, a natureza do amor e as complexidades das relações humanas, incluindo críticas certeiras ao machismo e à sociedade patriarcal. 

Uma de suas crônicas mais famosas, inclusive, chegou a ser transformada em curta-metragem, além de ter sido compartilhado por milhares de pessoas: basta pesquisar por “O Bolo Mofado” no YouTube e não serão poucos os resultados relacionados ao texto de Nodari. O curta metragem português, produzido por Lorena Brito, pode ser conferido no YouTube.

Em seu Instagram, @osegundocu, além das crônicas, a autora também nos presenteia com textos doces e mais breves, como descrições poéticas dos signos.

Para celebrar o lançamento do livro O Segundo Cu, convidamos a autora para uma entrevista. Confira abaixo as respostas dela e conheça um pouco mais sobre esta escritora incrível, cuja escrita penetra e preenche os buracos da alma de qualquer leitor.

1. Esta é uma pergunta um pouco clichê, mas precisei fazer: como e quando você começou a escrever ficção? Ainda tem guardados os primeiros textos ou se lembra bem de como eles eram?

O primeiro texto ficcional que escrevi se chama A caixa mágica e é uma imitação de mau gosto do primeiro capítulo de A bússola de ouro, do Philip Pullman. Eu tinha nove anos quando escrevi. Na época, não entendia muito bem o conceito de plágio e achei meu próprio texto magnífico. 

Minha mãe guardou a maior parte dos meus textos da escola. Durante muito tempo, achei bobo esse negócio de preservar estes trabalhos infantis. Hoje, adoro. 

2. Quais autores mais te inspiram e por quê?

Aos 23 anos eu li Carrie, A estranha, do Stephen King, e senti tanta inveja que achei que nunca mais fosse ler o autor na minha vida. Carrie não é o melhor livro que já li. Acontece que King tinha 26 anos quando publicou a obra, que pode não ser genial, mas é boa o bastante. E com “boa o bastante” quero dizer que é cativante a ponto de conquistar um grande público.

A partir deste dia, comecei a rivalizar mentalmente com ele.

Às vezes estou fazendo xixi e penso que King pode estar mijando também, e que de certa forma, estamos conectados pela água do mundo. Imagino partículas nossas se encontrando através dos oceanos, moléculas da nossa uretra. Nessas horas, morro de ódio. O que meus átomos diriam para o escritor?

“Olá, senhor, eu ainda não escrevi meu romance. Vou continuar tentando”

Esta cena não me dá motivação: me provoca raiva, o que é melhor ainda. Eu não estou dizendo isso só para fazer grau na entrevista, infelizmente.

Senti algo parecido quando li A Obscena Senhora D, da Hilda Hilst. Acontece que quando eu li a Hilda pela primeira vez eu já tinha 27 anos e ela já tinha morrido, então não pude começar a imaginar ela no vaso sanitário. Quando acabei o livro, além de inveja, senti orgulho em escrever em português. 

3. Se você fosse para uma ilha deserta e só pudesse ler um livro, qual seria?

Eu pensei em dizer A redoma de vidro, da Sylvia Plath. Acontece que este livro não me inspirou coragem: me deu um puta desespero. Eu nunca tinha sentido tanta solidão até ler a Sylvia. Foi horrível e maravilhoso ao mesmo tempo.

Para uma situação de isolamento, prefiro levar comigo A casa dos espíritos, da Isabel Allende. Acho que nestas condições, pensar no sobrenatural me faria mais forte e feliz. 

4. Como você chegou à ideia do blog chamado O Segundo Cu? De onde veio a ideia do nome?

Nos primeiros anos, eu respondia que O Segundo Cu tinha sido inspirado em O Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir. É mentira. Na época, eu nem tinha lido Beauvoir. Mais tarde, cansei dessa justificativa e comecei a dizer que o Segundo Cu é uma espécie de lugar em que eu deposito a sujeira de todos os meus personagens. 

Hoje, costumo dizer que eu tive hemorroidas em 2015 e que o desconforto era tanto que em um cu só não poderia caber tanta dor.

5. Como foi começar a escrever contos eróticos? E o processo de partir destes para contos/crônicas mais focadas em reflexões sociais/emocionais?

Até meus sete anos eu era totalmente obcecada por enfiar o dedo no nariz. Eu gostava de sentir as casquinhas que o ranho formava, puxar elas devagar até a borda da narina para que elas saíssem exatamente do formato que estavam dentro de mim. Depois, eu analisava o formato, a cor, a textura desse ranho, formava uma bolinha e tocava longe.

Quando virei uma espécie de especialista em caquinha e nada oferecia novidade, comecei a me perguntar até onde conseguia enfiar meu dedo. Comecei pelo indicador, logo descobri que o dedinho ia mais longe e logo fiquei fascinada com a ideia de encostar no meu próprio cérebro.

Claro que não é possível tocar nos miolos enfiando o dedo no nariz, mas é possível irritar os tecidos nasais até ver a ponta dos dedos se encher de sangue. 

Para mim, escrever contos eróticos é a mesma coisa. Eu sempre me pergunto qual é o pior cenário possível de qualquer situação, seja ela hipotética ou real. Qual a pior forma de morrer? Qual é a forma mais absurda de se machucar? Qual é a coisa mais esquisita que um homem de 38 anos já fez com o próprio pau? Se um ovo pode ser chocado debaixo do corpo de uma galinha, ele também pode fazer o mesmo dentro de uma vagina?

Os contos eróticos apareceram como consequência deste tipo de pensamento. Acho que é minha forma adulta de cutucar o nariz. 

A verdade é que eu nunca tinha pensado em fazer outro tipo de literatura até meus textos serem censurados nas redes sociais. Frequentemente, os contos com uma temática mais pesada eram denunciados no Facebook até que minha própria página saísse do ar. Mais tarde, o Instagram impedia a circulação dos textos que possuíam qualquer tipo de palavrão, o que era uma puta dor de cabeça. Tentei burlar o sistema? Tentei, é claro. Mas com o passar do tempo, as ferramentas foram ficando mais inteligentes e eu percebi que não valia a pena ficar escrevendo b*ceta ou s3xo. Me parecia uma coisa puritana, ou adolescente.

Em vez de tentar cutucar meu cérebro através da narina, comecei a cutucar meus sentimentos, coisa que não tinha feito antes.

Foi assim que aquele texto do Bolo Mofado surgiu. Com o sucesso dele, comecei a enfiar minha mão cada vez mais fundo nessas temáticas. Acho que deu certo. Hoje em dia, é o meu tipo de texto mais consumido pelo público.

6. Como você encontrou a sua voz? Pois os seus textos, desde os mais eróticos até os mais melancólicos e sociais, sempre têm uma voz autoral marcante, por mais que mudem os narradores, o que é uma característica forte da sua escrita.

Eu me escuto. Sei que parece algo bobo de se responder, mas não é. A verdade é que as pessoas não ouvem as teclas do próprio piano, como diria Maria Bethânia.

Os mais velhos se entopem com o barulho da televisão. Os mais novos, com vídeos do Instagram e do TikTok. Resultado? No final do dia, a criatura não ouviu a própria cabeça o dia inteiro. 

Uma vez, tive uma colega de trabalho que era um personagem do The Sims. Eu queria estar exagerando, mas não estou. Era impressionante, dava para prever qualquer opinião ou movimento que ela fosse fazer durante o dia inteiro. Eu chegava a apostar comigo as suas respostas: 

Fulana, o que você quer almoçar? Um restaurante da moda.

Fulana, qual seu objetivo atual? Ser magra como a blogueira fitness fulaninha.

Fulana, onde você vai passar o final do ano? Em uma praia em que o ex bbb fulano vai estar

Sinceramente? Eu duvido que metade destas atividades divertissem minha colega. Acontece que ela não estava acostumada a procurar as respostas dentro da própria cabeça. Ela aprendeu a medir a própria vida através da régua dos outros. 

Sempre me pergunto como uma pessoa do tipo goza. Será que ela procura no XVideos o melhor gemido para imitar? Será que ela tem uma posição preferida ou aprendeu que se der de quatro vai esconder a gordura localizada que odeia em função dos outros?

Para alguém escrever com uma voz própria, é preciso ter uma vida própria. Com isso, quero dizer que é preciso ter uma vida baseada nos próprios parâmetros, sejam eles quais forem. A pessoa que olha para fora de si para decidir o que é prazer e alegria vai sempre viver uma imitação mal feita da existência do outro.

Ter uma voz autoral é fácil: difícil é viver uma vida autoral. 

Quem vive uma vida padronizada pelo Instagram nunca é visto como inadequado ou bizarro. Viver com a fita métrica alheia é mais confortável e mais seguro. Faz com que a pessoa não passe vergonha, mas também faz com que nunca se destaque.

Eu poderia citar nesta entrevista o nome desta colega de trabalho, ou mesmo de pessoas com quem convivi no passado que se comportavam da mesma forma. Acontece que, mesmo que eu escrevesse o nome destas pessoas centenas de vezes, ninguém lembraria delas. Afinal, há milhares de pessoas vivendo vidas extremamente parecidas. 

Encontrei minha voz ao viver uma vida com a minha régua. Esta régua pode ser tosca e feia se eu comparar com a de outros escritores melhores, mas é minha.

7. Você tem um texto favorito de todos que já escreveu? Qual? (Pode citar mais de um)

Eu gosto mesmo é de Jogo do Biscoito, que é um conto sobre um bando de caras que se masturbam em volta de uma bolacha Trakinas que está aberta.

Foi um dos primeiros textos que eu publiquei.

Gosto desse conto porque ele fez com que várias pessoas pensassem que eu era um homem. Na época em que escrevi Jogo do Biscoito, o cu era apenas um blog anônimo hospedado no WordPress.

“Cara, que nojento” – foi um dos primeiros comentários que recebi.

“Esse escritor deve ser doente” – outros diziam. 

Eventualmente, pessoas começaram a achar que eu era um cara gay e me mandavam convites para sair. Faziam propostas semelhantes ao que acontecia no conto. Eu interpretei esses comentários como elogios. Afinal, ali estavam dezenas de leitores que concluíam que apenas um homem poderia ter escrito uma experiência daquelas. 

Para muitos, era difícil de acreditar que aquele texto saiu de uma moça de 22 anos que morava com os pais. Acho que consegui captar algo muito diferente do que é ser eu em Jogo do Biscoito. Me orgulho disso até hoje.

8. Você tem um ritual para escrever? Uma rotina para escrever todos os dias ou buscar inspiração? O que mais te inspira a escrever?

Em épocas boas, escrevo todas as manhãs, antes de ir para o trabalho. Como sou uma copywriter, acordo para escrever ficção antes de exercer minha função como escritora publicitária.
Isso faz com que eu acorde bastante cedo, lá pelas cinco e meia da matina. Se dependesse de mim, as manhãs seriam enormes e as tardes e noites, minúsculas. Não sou o tipo de pessoa que passa a noite ou madrugada escrevendo e que depois acorda e vai tomar café enquanto fuma um Marlboro Vermelho.

 Eu nem sequer fumo, e só tomo bebidas com cafeína para espantar o sono.

Acordo cedo, tomo café da manhã e depois me sento para escrever. Começo minha escrita em caderninhos e finalizo os textos no word. Tento fazer com que todos os meus dias sejam assim, quase monótonos para quem for observar de fora. Por dentro, estou sempre gritando.

Encontro inspiração nas coisas que acontecem durante o dia e que me desacomodam de alguma forma. Pode ser algo pequeno e irritante, como uma pessoa que tenha sido grosseira comigo na fila do mercado, por exemplo. Acabo revivendo o momento muitas vezes, da mesma forma com que as pessoas que revidam brigas do passado durante o banho. Mergulho em como aquela pessoa falou comigo, no que motivou a pessoa a agir assim, e principalmente, o que ela me fez sentir.

A partir desta investigação interna, escrevo. Quase nunca coloco na escrita o evento que me irritou. O que vou inserir no texto é a sensação que o ocorrido me provocou. 

Se  for preciso escrever sobre uma mulher que lambe papéis higiênicos sujos de merda para que eu consiga expressar uma sensação específica para o leitor, eu construo esta personagem e faço ela se ajoelhar diante do cesto de lixo do banheiro. Meu foco é fazer sentir. 

O que mais me inspira são eventos cotidianos que me provocam algum tipo de raiva ou tristeza. Neste exato momento, um vizinho meu não para de xingar seu time de futebol. Está tirando a paz de todas as pessoas do prédio, inclusive a minha. Está sendo terrível. 

9. Qual o seu conselho para quem deseja escrever?

Não espere adquirir um “português perfeito” para começar. Não espere um acontecimento catastrófico na sua vida para começar. Não espere uma data, nem uma determinada idade específica para escrever a primeira linha. Você não precisa de nenhuma destas coisas para fazer com que as pessoas queiram ler você.

10. Quais os planos para o futuro de O Segundo Cu? Teremos um volume 2 em livro?

Para ser honesta, eu não tinha pensado no futuro anal até ler esta pergunta. Vou continuar alimentando as redes sociais com alguns textos. Contudo, meu objetivo agora é acabar meu primeiro romance. Neste exato momento, o Stephen King está escrevendo o seu sexagésimo quinto livro. Preciso correr.

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