E experiência no cinema e a regressão do público

Certa vez li um texto em que um professor da área de comunicação falava da experiência do telespectador dentro da sala de cinema. Comentava, trazendo as ideias do crítico literário e filósofo francês Roland Barthes, que ali dentro da sala ocorria uma espécie de ritual, em que todos comungavam em comum o filme sendo transmitido na tela, o barulho do projetor, etc. Uma experiência artística compartilhada. Hoje, com o aparente arrefecimento da pandemia do novo coronavírus, as pessoas estão voltando aos cinemas – e dá ainda mais gosto quando é um cinema de rua, de calçada, como se dizia, e não de shopping.

Pois bem, esses dias fomos eu e minha companheira Eve no Capitólio, um lindo cinema de rua que o povo portoalegrense conhece desde o final da década de 1930, para ver uma sessão especial do aniversário de 250 anos da cidade. Eu tinha um preconceito, hoje felizmente não tenho mais, que era pensar que determinados cinemas e determinados filmes promovem públicos melhores ou piores, isso em relação ao ato de assistir o filme, sem conversar, sem ligar o celular, enfim. Por exemplo, qual público será melhor pra ti, leitor e leitora, segundo esses critérios: o de um filme de super herói visto no shopping Iguatemi, ou o de um filme do Tarkovski numa mostra realizada no Capitólio, um cinema de rua que passa mostras de filmes temáticas, filmes raros, e alguns comerciais?

Certamente o leitor e a leitora pensaram no segundo caso. Mas infelizmente, o baixo nível do público é generalizado e atinge todos os cinemas e todos os tipos de filmes, sem exceção. O uso do celular no cinema prejudica demais as pessoas ao redor. Num ambiente escuro, qualquer meia-luz atrapalha e automaticamente retira o telespectador daquele ritual em que está imerso ao assistir um filme no cinema. Prejudica a experiência cinematográfica! Falar com o amigo do lado é a mesma coisa, desconcentra, tira a atenção e também faz com que se perca o prazer da fruição do filme.

(Uma vez tive que pedir pra um casal parar de falar, porque falaram durante todo o filme, e ainda me responderam como se não estivessem fazendo nada de errado. Meu pai tem uma tese que acho sensacional para explicar esse fenômeno de regressão do público, que já vem certamente há algumas décadas: o surgimento do VHS. Isso  fez com que o cinema fosse visto de casa e que, uma vez na sala de cinema, o sujeito pense inconscientemente que está na sala de casa, portanto, fala, gesticula, liga o celular à vontade sem pensar – ou pense, vai saber – que está prejudicando os outros.)

Regressão é um termo usado pelo sociólogo e crítico literário Theodor Adorno num ensaio interessantíssimo sobre música e o público de música, em que diz que na sua atualidade, anos 1950, o público está regredindo a uma condição infantil na sua relação com a música. Seus argumentos não importam aqui, só o termo que nos serve: o público parece crianças no cinema, que falam, riem, tocam pipoca nos outros (rs) sem constrangimento. Mas para elas se justifica por muitas razões. Para o público adulto regredido, não.

Rodrigo Mendes

Link da imagem: https://www.google.com/search?q=usar+celular+no+cinema&hl=pt_BR&sxsrf=APq-WBtO6e4-0gcgKm3rdf6FLLt76VMKmg:1648732638189&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwjYgurZt_D2AhXbJkQIHcAxCsUQ_AUoAXoECAEQAw&biw=1366&bih=625#imgrc=LScIEi_TMrc5UM&imgdii=i9E5r7XtYkZk1M

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