Muito além dos czares: Breve história da literatura russa e seus clássicos irretocáveis

A Rússia é conhecida principalmente pela “era dos czares”, na qual, durante a monarquia russa, o imperador recebia o título de “czar –  origem do termo czar se dá tal como ocorre com o “kaiser”, em alemão, sendo originário da palavra em latim “Caesar”; notória referência a Júlio Cesar – general militar e político que teve um papel crucial na passagem da República para o Império na Roma Antiga. E, consequentemente, não apenas o imperador recebia tal título, sendo a imperatriz chamada de czarina; o príncipe de czaréviche, e a princesa de czarevna.

Assim, muitos de nós conhecemos a Rússia tão somente por algumas de suas principais temáticas, dentre elas, a União Soviética, os czares, o inverno rigoroso, as táticas militares. No entanto, muitos padecem de conhecimento sobre a literatura russa.

A literatura russa, por sua vez, se refere a todos os autores russos já existentes, em todos os seus territórios já incorporados ao longo da história. Foi introduzida no ocidente a partir da segunda metade do século XIX através dos ímpares autores Tolstói, Dostoiévski, Pushkin, e Leskov. Inclusive, imperioso frisar o fato de que o presente texto, por sua vez, estará recheado de características típicas da literatura em questão, como por exemplo, a repetição de termos em um único parágrafo, tal como Tolstói o fazia.

Em sua cabal realidade, a literatura russa passou a ser disseminada a partir das obras de Alexander Pushkin, tendo sido ele considerado como o pai da literatura russa contemporânea. Todavia, o que não causa nenhum espanto, ou até mesmo incômodo, é o fato de que quem, de fato, trouxe toda a robustez do reconhecimento literário, foram os autores Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski.

A literatura russa é composta por períodos cronológicos, que facilitam seu estudo e compreensão.

O primeiro, chamado de Período de Kiev, no qual houve o início do contexto literário russo em meados do século IX, se deu quando os missionários e eruditos bizantinos produziram obras no dialeto eslavo macedônio, que, posteriormente, recebeu a nomenclatura de eslavo litúrgico. Aqui, os próprios monges produziam suas literaturas e temos como exemplos, aProfissão de Fé, de Hilarion, e o Cantar das Hostes de Igor, também de HIlarion.

Como consequência da expulsão dos invasores tártaros, logo no século XV, Moscou passou a ser tida como a mais nova capital da Rússia, no lugar de Kiev. O que fez com que o conceito renascentista chegasse ao país, o que, por si só, refletiu nas obras literárias do arcebispo Avvakum.

Já sob o comando do Czar Pedro I, a capital da Rússia foi transferida para San Petersburgo, e, por graças, o isolamento cultural da Rússia foi encerrado. Imperioso destacar que, nesta época, os escritores russos passaram a ter em suas obras influências do ocidente, por exemplo, o neoclassicismo francês. Temos como principais influências desta época Gavriil Romanovich Derzhavin, Denis Fonvizin, Nikolai Ivanovich Novikov e Alexander Nikolaievich Radischev.

Nessa toada, em virtude do lapso temporal percorrido, chegamos à dita Era Dourada, que é justamente quando é introduzido o romantismo na literatura russa. E há uma longa esteira a ser percorrida desde o realismo até o drama. Temos como principais autores Nikolai Gogol, Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, e Ivan Turguêniev. Curioso o fato, de que esta era é marcada, em específico, pelo patriotismo da época – patriotismo este relatado em Guerra e Paz de Tolstói.  Note-se que todo esse sentimento em relação à pátria é percebido em conjunto com o estilo musical existente à época. Há especulações de que a abertura de Tchaikovski em 1812, é uma parte da versão musical de Guerra e Paz.

Assim, não menos importante, temos um dos genitores da literatura russa, o principal escritor da Era Dourada: Dostoiévski, que, por sua vez, se consagrou com sua obra Irmãos Karamazov.

Durante este período, o romance, o conto e o teatro foram as formas de texto mais utilizadas pelos russos. O que não impediu que alguns poucos escritores seguissem pela via de movimentos mais complexos, onde havia a ínfima recusa dos valores estéticos literários e da prática literária da época anterior; o que, por sua vez, inspirou o ressurgimento do sentimentalismo romântico e do simbolismo francês pela Europa.

Logo ao término da Era Dourada, temos dita a Era de Prata entre o final do século XIX e início do século XX, quando os estilos literários começaram a se variegar, ou seja, se diversificar, como, por exemplo, na poesia.

Temos como grande exemplo o poeta e romancista Dimistri Sergeievich Merezhkovski, que além de redigir seus poemas, também produzia estudos históricos. Durante este período, inúmeros escritores produziam suas obras de modo independente, em razão da ausência de apoio financeiro.

Maksim Gorki, ganhou reconhecimento em razão da produção e uma síntese literária pessoal através de suas vivências durante a era socialista denominada de Realismo Socialista.

Na época da fundação da URSS, a literatura desta época ficou marcada pelo do Realismo Socialista, e, foi caracterizada pela enorme dificuldade enfrentada pelos autores em descrever, com detalhes, a revolução e a guerra civil enfrentada pela população. Dimitri Furmanov ganhou destaque nesta época, em razão de sua obra Chapaiev.

Após a Segunda Guerra, com a morte de Josef Stalin, como reflexo do questionamento existente na própria sociedade, as obras desta época foram marcadas pelas dúvidas acerca da URSS. Merece destaque a obra de Ievgueni Aleksandrovitch Ievtuchenko, que passou a trabalhar com aquela paixão moribunda pela tradição poética. Curioso o fato de que o clássico Doutor Jivago de Boris Pasternak, não pôde ser lido em russo até 1987, por causa do regime vivido no país.

Deu-se, então, início ao Período Pós-Stalinista, quando foi utilizado o termo “samizdat”, ou seja, “literatura ilegal”, incansáveis vezes para qualificar as obras de Mikail Bulgakov e Joseph Brodsky.

Assim, logo no início do século XXI, os russos demonstraram um grande interesse pelas literaturas locais. Temos como grande exemplo a escritora Nina Gorlanova, que narra em suas obras o dia a dia das populações locais, relatando seus afazeres, suas agonias, suas dificuldades. Atualmente, temos como um dos estilos mais influentes, o policial; com ênfase para a escritora Darya Donstova, que possui mais de 50 obras do gênero já publicadas.

Ou seja, é possível afirmar com todas as letras que a literatura russa é tida como uma das mais importantes do mundo. Sendo ela revestida com toda sua objetividade, seus romances trágicos com pitadas de redenção, traição, religião, críticas políticas, com personagens sempre profundos, com alguns até de difícil compreensão. Em suma, na realidade, a literatura russa somente é capaz de descrever, com todos os detalhes ínfimos o dia a dia do homem, o enfrentar crises políticas, crises em relacionamentos, a dificuldade em se construir um ambiente familiar harmonioso.  Tanto é que Tolstói em suas obras sempre construiu seus personagens em cima de pessoas de seu próprio convívio, o que acaba, por si só, trazendo uma maior vivacidade à obra.

No entanto, muitos se questionam ou até mesmo ficam deslocados em por onde começar a ler obras russas, ou então, qual dos autores é tido como “o melhor” ou de “mais fácil compreensão”. Para tanto, segue abaixo alguns clássicos russos que servirão como ponto inicial para a introdução ao universo gélido e dramático criado pelos russos:

  1. Anna Kariênina, Liev Tosltói:

Este romance se passa na Rússia, em meados do século XIX, e relata a vida de Anna, uma aristocrata que vive uma relação extraconjugal com um oficial do exército, Conde Vronsky.

  • Guerra e Paz, Liev Tolstói:

Esta obra é tida como uma das maiores obras literárias já escritas. O romance discorre acerca da história de famílias aristocratas russas durante a era das guerras napoleônicas.

  • Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski:

Publicada em 1866, a obra relata a história de um jovem estudante que comete o crime de assassinato com base em motivos de ordem moral, no entanto, ao decorrer da obra, o jovem passa a ter sentimentos de culpa, medo, remorso, o que o leva a confessar o crime cometido, trazendo à tona a guerra interna entre redenção através do amor e aceitação.

  • Coração de Cachorro, Mikhail Bulgakov:

É um romance que possui como principal objetivo questionar a sociedade soviética. Mikhail conta a história de um médico que decide fazer um corriqueiro experimento: transplantar o cérebro de um cachorro para o corpo de um homem. Todavia, como já era de se esperar, o resultado é desastroso.

  • Um dia na vida de Ivan Denisovich, Alekansandr Soljenístin:

Trata-se do relato de um homem médio que é obrigado ao trabalho forçado na URSS, enquanto cumpre uma sentença de 10 anos em um gulag soviético. A obra possui como principal objetivo demonstrar o dia a dia enfrentando pelas pessoas à época, bem como, relatar a resiliência do homem em face a opressão.

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Essa frase de Liev Tolstói é apenas uma das inúmeras passagens profundas que podemos retirar da literatura clássica russa.

Referências bibliográficas:

https://www.uff.br/?q=tags/literatura-russa

https://periodicos.fclar.unesp.br/entrelinguas/article/view/17355

folha.uol.com.br/ilustrada/2021/04/entenda-por-que-a-russia-gerou-tantos-escritores-fundamentais-no-seculo-19.shtml

O Início da História: Os pioneiros da Literatura Russa moderna

Fonte da imagem:

https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/10-livros-para-conhecer-a-Russia

Comprando qualquer produto na Amazon através desse link, você ajuda a manter o Artrianon e não paga nada a mais por isso.

Deixe um comentário