A comparação que nos mata!

A comparação é uma forma de análise de coisas que pode ser muito útil em vários aspectos. Comparação como método, como forma, como um passo, enfim, como um fenômeno, é algo que pode contribuir, e muito, para que avanços sejam possíveis. Pode ser que, através da comparação, um erro que até então passava despercebido aos olhos, ganhe entornos que o explicitem, fazendo com que uma melhora ocorra.

Isso vale para tudo. Foquemos aqui, porém, naquilo que interessa para a temática da coluna: a comparação nas leituras e na escrita.

Comparar textos pode ser uma coisa boa. Um escrito antigo com um atual, para analisar as mudanças (se perceptíveis, se melhores, se concretas…), podem ser comparados de modo que o resultado da observação realizada enseja numa contribuição salutar para o autor. Do mesmo modo, enquanto leitor, notar que aquele amigo dedica mais tempo à leitura mesmo sendo mais atarefado que você, pode resultar numa sensação incômoda, mas boa, de que uma mudança de postura é necessária: passar a ler mais e reclamar menos quando o culpado pelas poucas leituras é você mesmo.

No entanto, existe um ponto determinado em que a comparação pode ganhar traços assombrosos, arruinando com o espírito do autor ou leitor. Falo daquela comparação que serve apenas para diminuir o próprio observador comparatista. É aquela comparação que não traz resultado proveitoso algum, uma vez que se limita a causar desânimo, angústia e até mesmo raiva.

O leitor nota que enquanto leu um único livro, seu amigo leu pelo menos três (e já está no quarto) no mesmo período. Com isso, passa a achar que lê mal, ou que lê pouco, ou que lê devagar. Ignora assim diversos fatores que explicariam essa diferença. O amigo simplesmente pode gostar de ler mais e dedicar um tempo maior para isso. O leitor pode ter um tempo de leitura mais longo, não necessariamente significando ser mais ou menos atenta essa leitura, o que faz com que um livro leve mais dias para ser lido do que para aquele amigo. Livros mais ou menos complexos, com mais ou menos páginas, também podem auxiliar na explicação da diferença observada. O amigo pode ter mais tempo livre para ler. Qualquer seja a explicação, que diferença isso faz? A discrepância entre números não faz o leitor de um livro menos leitor que aquele que lê três. Aqui a comparação faz apenas mal, não acarretando em qualquer benefício para quem fica comparando números com os outros.

Além disso, tanto na leitura como na escrita, os números importam? Questões quantitativas devem ser avaliadas na mesma sintonia que as qualitativas? Ler três livros num mês é necessariamente melhor do que ler um? Essas questões tormentosas, frutos da comparação que pouco contribui para uma reflexão salutar da coisa toda, apenas evidenciam que muito do que se compara não possui razão justificante para tanto, pois a análise não é edificante, uma vez que uma coisa (ler mais ou menos livros num certo período, por exemplo) não significa necessariamente outra (ler mais livros ser melhor do que ler menos livros num período determinado).

Na escrita, o problema tende a ser pior, pois a comparação criticável acontece em duas vertentes: na quantidade e na qualidade daquilo que se escreve.

Autores que comparam a produção de seus textos em números, sentindo-se mal por isso, devem cessar imediatamente com esse costume nocivo. Produzir mais não significa produzir melhor necessariamente, assim como produzir menos também não se traduz em igual ou inverso sentido. Há escritores que possuem um ritmo de escrita frenético, mantendo a qualidade de suas obras. Stephen King e John Grisham são bons exemplos disso. Também há aqueles que foram eternizados na literatura mesmo tendo escrito pouco, como é o caso de Harper Lee. Comparar números na escrita não aparenta ser uma boa ideia, dada a pressão que o autor pode acabar impondo a si mesmo, gerando resultados ruins – refletidos no próprio escritor ou em sua produção.

Quanto a comparação da qualidade da escrita, essa deve ocorrer apenas naquelas situações mencionadas no início do texto. Comparar um texto seu com o de um colega escritor pode ser um exercício importante se a intenção for a de buscar elementos que possam contribuir para o aperfeiçoamento de sua escrita, ensejando assim na melhora das próximas produções. Mas o autor deve ter em mente que o estilo, por exemplo, é uma característica individual de cada um. A comparação nesse quesito pode ser feita a título de meramente observar as diferenças do próprio jeito de escrever, jamais, porém, concluindo com percepções equivocadas sobre o próprio texto quando o subjetivo for o mote responsável pelas possíveis análises textuais. O seu estilo de escrita pode ser mais poético, o que não significa que seja melhor ou pior que o daquele seu amigo que tende a ser mais técnico nos textos. Não há razão para a comparação se ela apenas fazer o autor se sentir mal.

A comparação não é de todo ruim. Creio que ela seja salutar na maioria dos casos em que é feita. O problema é quando apenas o lado negativo impera, causando mal ao autor ou ao leitor e não trazendo qualquer consequência prática sadia em seus textos ou nas suas leituras. Números pouco importam, pois não significam necessariamente qualidade. Eles têm o seu espaço, claro, mas não se pode generalizar ou ver uma coisa como sendo ou significando sempre a outra.

Tanto na leitura como na escrita, ficar comparando com outros o que leio, o quanto leio, de que modo leio, onde leio, o que leio, ou ainda o quanto escrevo, o que escrevo, como escrevo, onde escrevo, mata!

Comparemos somente quando necessário!


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