Uma sociedade distópica sem emoções e sem cores no filme ‘O doador de memórias’

O filme “O doador de memórias”, de Phillip Noyce, baseado no romance de Lois Lowry, é um filme que no título já podemos ver o recado. Há duas palavras que ao mesmo tempo em que se complementam, também são decisivamente opostas. Ora, a ideia de doação, se entendida de maneira apartada da questão financeira, ganha uma dimensão maior de alteridade, na qual, necessariamente o eu apenas se realiza a partir dessa doação de mundo que é a face infinita do outro. De outro lado, a palavra memória, que no filme atua como libertação, também possui um componente extremante perigoso de aprisionamento ideológico. Refiro-me à ideia de que quando o humano se mantém preso à memória, e aqui falamos da tradição, ele ao mesmo tempo em que garante sua perpetuação por e através de sua tradição, também se limita enquanto ser inovador e que pode prometer, como nos ensina Nietzsche. Essa característica de ser incompleto, logo, fica problematizada se nos ativermos à prisão da memória que nos impele à lembrança, privando-nos da criação, do não lugar, ou seja, da arte.

O filme é bem simples e de uma narrativa realmente fácil. Há um local supostamente apartado do mundo que chamamos real, no qual as diferenças foram limadas para que ao mesmo tempo as pessoas pudessem fruir a existência sem os solavancos das dissidências e também pudesse viver em harmonia, garantia que era controlada com o uso de injeções diárias. Assim, no início o filme em tom preto e branco, passa uma imagem bastante parecida com aquilo que é oferecido como oásis por indústrias farmacêuticas e fórmulas prontas para o amor, nesse caso, não amor.

Assim, é interessante perceber a evidenciação da prisão ideológica que pode ser determinada sob várias perspectivas e o filme deixa isso bem claro. Quero aqui falar de uma prisão que em verdade é necessária para delinear todas as demais. A prisão da linguagem. O filme mostra diálogos nos quais os interlocutores em verdade estão desde sempre determinados, ou seja, as palavras que são ditas em desconexão aos comandos dos anciãos devem ser precisadas. Quanto maior a precisão ali, mas distante da possibilidade de humano. Estamos aqui a dizer que enquanto ser por vir, toda humanidade estaria guardada naquele que vem. Assim, se o outro que nos inventa resta preso em uma localização funcional dentro da teia social, se a ele não é dada a chance de reinvenção, quedamos impossibilitados mesmo de existir.

Quando há a revelação do aprisionamento, paradoxalmente por aquele que era o guardião das memórias, percebemos as cores. Os tons e os cheiros. Isso significa que é libertada uma dimensão que estava adormecida pela construção ideológica. Essa leitura nos parece extremamente importante, ora, em momentos em que se discute física quântica, a questão da sensibilidade para a diferença e aqui, o outro, precisa mesmo ser narrada. Portanto, não se trata apenas de um novo “1984”, de Orwell; revela-se nessa película uma imperativa abertura ao outro. Esse infinito que nos abala fora exatamente o que permitiu a libertação dentro do filme.

O tempo da precisão versus um tempo da indeterminação. Contudo, resta claro ensinamento de Pessoa quando nos diz da imprecisão que é a caravela da vida, e que precisão requer a navegação, que tem mapas e bússolas. Essa questão que perpassa o filme torna-se clara quando a dimensão da linguagem é aberta ao novo guardião das memórias do local. Esse momento é importante, pois, como dissemos, há nessa ideia de doação um reclame ético que nos parece importante na narrativa. A ética vista sob o prisma de Lévinas seria o próprio modus de constituição do outro. Sua libertação enquanto construção livre e amparada pela dimensão inalcançável do rosto.

Assim, a linguagem da música, das cores, do tato, blindada pela ideologia da ordem e da organização, da sempre esbatida uniformização moderna, aparece exatamente na face apaixonada de Jonas e Fiona, refletida na necessidade do conflito entre o nascimento do novo e memória que aprisiona, mas que ali, seria a saída. Essa mais uma face interessante do filme revela as possibilidades do traço dentro do texto. Quando Jonas leva a criança que seria morta para fora daquela ideologia, ele ao mesmo tempo entrega o novo mundo para os seus pares. O que virá de aí em diante não se sabe, pois o que é do humano, paradoxo maior que pensa, sabe-se só depois de sentir – que garante pra sempre nosso infinito e indefinição, multicor.

 

Compre o livro de Lois Lowry, no qual se inspira o filme, aqui.

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