A influência da perspectiva do narrador

Qual é a importância que você atribui à perspectiva do narrador? Faz diferença se o texto for narrado em primeira ou em terceira pessoa? Se o narrador constitui parte da história, há interesse próprio em jogo que leva a se considerar com reserva o seu relato? Mais importa quem conta ou como se conta?

Até que ponto o relato do narrador é confiável? Você já parou para pensar a respeito da influência exercida pela perspectiva do narrador? Imagine que você está lendo um livro. Pode tomar como exemplo a sua leitura do momento. A forma com a qual a narrativa está construída foi determinante para você acreditar naquilo que está ali sendo contado? Desconfiou em algum momento de algo que leu?

Falo aqui no contexto da escrita ficcional. Pode ser um conto ou um romance. Na história contada numa ficção, há sempre alguém a narrando. Em que pese seja o autor o responsável pela construção narrativa, o narrador também é alguém que faz parte do universo ficcional ali construído. Assim, pode se dizer que em toda história há o narrador-autor e o narrador-que-narra-dentro-da-história, sendo esse a parte do autor que é representado por pessoa ficcional interposta (um personagem da história) ou ainda por uma representação de si próprio (um outro-de-si que ali está presente – dentro e fora do texto), e aquele o escritor responsável pela criação da história ficcional ali narrada.

O narrador-que-narra-dentro-da-história pode ser, portanto, um terceiro (que acaba por levar a um relato em primeira pessoa quando se trata de um personagem da narrativa, ou podendo ainda ensejar num relato em terceira pessoa quando um narrador é criado ficcionalmente como o propósito de contar a história), ou o próprio autor representado como narrador. É a depender dessa posição ocupada pelo narrador que a influência no convencimento do relato pode implicar em aceitação ou não por parte do leitor.

Quando a narrativa é construída em primeira pessoa, há de se observar quem é que está contando a história. É um personagem que interage com os demais, ou é um observador invisível que relata tudo aqui que percebe e vê? E quando essa construção é feita em terceira pessoa, o narrador é um ser imparcial que apenas conta a história, ou é alguém que participou da própria história outrora e agora narra as suas lembranças numa tentativa de parecer neutro?

Ainda: o narrador pretende convencer o leitor, ou a crença no relato fica por conta desse? E mais: o leitor possui direito a essa margem de desconfiança? Cabe a quem lê acreditar ou deixar de acreditar naquilo que a história lhe conta?

Quaisquer sejam as respostas possíveis, o fato é que, em determinadas circunstâncias, a perspectiva do narrador por influenciar na forma como o leitor recebe e interpreta a história toda.

Tome como exemplo a forma como “Dom Casmurro” é contada ao leitor: o protagonista é personagem e narrador. Narrativa em primeira pessoa. Bentinho relata tudo aquilo que vê, que sente, que imagina, que crê. A conclusão que chega foi estabelecida pela sua desconfiança com base naquilo que imaginou – e tudo isso é compartilhado com o leitor. Assim sendo, tem-se estabelecido um dos maiores imbróglios existentes na literatura: Capitu o traiu ou não? Por se tratar o narrador do próprio personagem envolvido na trama toda, sua crença acaba sendo contestada por muitos. Vale lembrar que em momento algum Bentinho vê Capitu o traindo. Ainda assim, o narrador-que-narra-dentro-da-história apresenta ao leitor vários indicativos de que a traição teria acontecido. Nesse caso, o que realmente aconteceu ou deixou de acontecer? Ou a questão permanece com um mistério insolúvel, ou um posicionamento acaba sendo adotado pelo leitor: Capitu traiu X Capitu não traiu. Creio que um dos possíveis fatores que leva aos que arriscam uma resposta a assumirem essa posição interpretativa seja justamente a que aqui se expõe, ou seja, é pelo dar mais ou menos crédito à perspectiva do narrador (Bentinho como narrador que faz parte da própria história que conta) que o leitor acaba acreditando ou desconfiando daquilo que pensa e conclui aquele que conta a história. Se assim for, até que ponto é válido acreditar no relato do narrador-que-narra-dentro-da-história? Existiria algum limite a ser observado (inclusive a própria possibilidade de se questionar o narrador)?

Quando o narrador-que-narra-dentro-da-história é alguém que não faz parte história-em-si, é mais difícil pôr em dúvida o seu relato. Nunca vi ninguém defendendo que estariam certos aqueles que negaram alimento, trabalho e repouso à Jean Valjean, em “Os Miseráveis”, quando saiu da prisão, uma vez que a visão que esses personagens tinham a respeito de Jean Valjean confronta diretamente aquela que é construída e transmitida pelo narrador-que-narra-dentro-da-história ao leitor. Nesse caso, o narrador-que-narra-dentro-da-história não é alguém que faz parte da história-em-si, uma vez que em “Os Miseráveis” temos um narrador que narra “de fora” os fatos relatados, não possuindo qualquer interesse direto em qualquer questão que diga respeito à história ali contada. É um narrador que narra em terceira pessoa e se trata de um ser imparcial. Aqui caberia algum tipo de desconfiança, ou a posição distante ocupada pelo narrador (sua perspectiva) é suficiente para afastar qualquer possibilidade de contestação pelo leitor?

Imagino que a teoria literária possua respostas para as questões aqui brevemente expostas – ou ainda problematizações muito mais profundas. A ideia do presente texto, porém, é apenas a de apresentar o fato de que, mesmo no campo da ficção, a perspectiva do narrador pode influenciar, e muito, a forma com a qual o leitor recebe e interpreta a história.

Fonte da imagem:

https://s1.static.brasilescola.uol.com.br/artigos/o-narrador-responsavel-por-contar-os-fatos-seu-desenvolvimento-56004bed0f839.jpg?i=https://brasilescola.uol.com.br/upload/conteudo/images/o-narrador-responsavel-por-contar-os-fatos-seu-desenvolvimento-56004bed0f839.jpg&w=600&h=350&c=FFFFFF&t=1

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