A guerra e o cotidiano no filme ‘West Beyrouth’ de Zaid Doueiri

Divertido, emocionante e apaixonante, West Beyrouth (Fr.: À l’abri les enfants, em livre-tradução, “Crianças Abrigadas”) é uma obra cinematográfica sensível e realista que mantém uma deliciosa sensação do frescor da juventude na tela, mesmo com o cenário de Guerra Civil que ocorre em 1975, em Beirute, hoje capital do Líbano.

A narrativa acompanha o jovem Tarek, de família muçulmana, que frequenta o ensino médio em uma escola francesa e se diverte criando filmes em Super 8 com seu amigo também muçulmano Omar. A guerra civil então eclode de maneira trágica e violenta e aos poucos transforma o cotidiano da cidade completamente conturbado. A escola de Tarek fecha; sua mãe, uma advogada, quer fugir para outro país, seu pai se recusa a abandonar a cidade. Beirute é dividida ao meio: metade cristã, metade muçulmana, e as duas partes em um tenso conflito. Passar de um lado para o outro da cidade é praticamente impossível. As ruas são ocupadas por exércitos.

No meio desse cenário, o jovem Tarek conhece May, uma garota cristã e órfã que se muda para o mesmo prédio em que ele vive. Do lado onde eles estão, claramente os cristãos não são bem-vindos; mas, para Tarek, May é uma nova amiga e companheira a quem ele defende das ofensas do esquentado Omar.

O enredo do filme foca nessas pequenas situações familiares que revelam de quais maneiras a guerra afeta os microcosmos da rotina da população. Há cenas muito duras, tristes, das situações de violência e ódio entre os próprios civis que se transformam por conta do medo, como um desentendimento em uma pequena padaria e as constantes brigas entre uma vizinha do prédio da frente com os outros moradores das redondezas.

As cenas em plano geral que mostram o prédio onde Tarek mora com sua família, aliás, são muito significativas: as janelas e construções um tanto amontoadas em uma vila residencial dão uma sensação de confinamento que vão se tornando cada vez mais claustrofóbicas conforme a guerra se agrava e os conflitos entre vizinhos, parentes e amigos se tornam mais violentos. Mas, o que no começo acontece apenas fora da casa da família do jovem protagonista, de repente toma lugar dentro do ambiente doméstico, enquanto sua mãe passa a rejeitar com crescente veemência a estadia deles em Beirute. Em suma, por mais que alguns dos habitantes tentem ignorar a gravidade da guerra, ela se esgueira em todas as esferas da vida social.

Enquanto isso, Tarek e Omar, muito influenciados pela cultura ocidental com suas referências a filmes e músicas de sucesso durante a década de 70, continuam a desbravar com a força de sua juventude os dias mais tristes. Movidos pela paixão, pela aventura e pela coragem, continuam resistindo em seus mundos de sonhos. O título do filme em francês brinca com essa relação entre crianças, de certa maneira, refugiadas, mas também de algum modo protegidas da realidade mais dolorosa por conta da pouca idade e da capacidade de continuarem a inventar seus próprios mundos, mesmo em meio ao caos, a partir do momento que possuem uns aos outros.

E assim a aventura continua quando Tarek, por coincidência, acaba entrando em um famoso bordel situado em uma zona de guerra da cidade. Com passagens engraçadíssimas de diálogos entre ele, com sua ingenuidade, e as mulheres que trabalham no local, descobrimos que o local pertence à famosa Oum Walid. Assim, Tarek acaba descobrindo um “código de paz” para atravessar a faixa que divide a Beirute Oriental da Ocidental: um sutiã, já que a casa de Madame Walid é uma zona neutra na cidade. O interesse de Tarek, Omar e May em estabelecer um contato com o bordel é a crença de que, já que aquela era uma zona neutra, poderia ser um local onde os conflitos da guerra pudessem ser resolvidos.

A narrativa caminha com o agravamento das situações civis e emocionantes diálogos entre Tarek e seu amigos e família. Aos poucos, todos saem dos seus refúgios de pequenas ilusões e esperanças e abrem seus corações sobre suas maiores preocupações e tristezas. São cenas dolorosas, mas bonitas, de pessoas que tiveram suas vidas até então normais afetadas gravemente por um perigo tão grande, devastador, unindo-se e resistindo para que não perderem as esperanças.

As cenas finais são emocionantes e demonstram a união dos laços familiares e afetivos como forma de resistência diante do medo do porvir. Destaque especial para a atuação de Carmen Lebbos, mãe de Tarek, e de Joseph Bou Bassar, o pai do garoto, com quem os diálogos são intensos e cheios de referências históricas sobre a civilização árabe, um verdadeiro aprendizado por entre as palavras de um homem sensato, que conhece sua história e que possui orgulho de ser quem é.

É importante ressaltar que o nome da família principal do filme é Noueiri, quase idêntico à Doueiri, sobrenome do diretor e roteirista do filme Ziad. Tarek é interpretado por Rami Doueiri, irmão de Ziad. O diretor tem uma história de vida muito parecida, o que faz pensar sobre a veracidade de certas passagens do longa metragem. Ziad deixou o Líbano durante a Guerra Civil para estudar nos Estados Unidos e foi assistente de câmera de Quentin Tarantino em alguns de seus filmes mais famosos, como Cães de Aluguel, Jack Brown e Pulp Fiction.

Muito interessante perceber as referências ao cinema durante do enredo do filme e a paixão de Tarek e Omar pela sétima arte. A mente fértil e imaginativa de um artista em um momento tão delicado de sua vida culminou nessa grande obra, indicada para todas as idades, que mostra verdadeiras cenas do ocorre em uma sociedade quando colocada diante do colapso. Além de muito didático, West Beyrouth é sublime e mostra esses pequenos momentos onde é possível de sublimação no cotidiano de adolescentes expostos aos horrores da guerra com muita sensibilidade e temperança entre momentos trágicos, dramáticos e divertidos, nunca perdendo o bom tom do alívio cômico.

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