A questão de o que é a fidelidade no filme ‘Canon: Fidelidad ao límite’

Canon. É importante que esse nome seja dito antes de adentrarmos ao restante da película a ser desnudada. Canon: Fidelidad ao límite. O filme do diretor  Mauricio Walerstein traz ingredientes quentes. Ademais, é ambientado no México. Um local que traduz bem a sensualidade da vida. Assim como a personagem Mariana (Mariana Seoane), uma interessante arquiteta que junto de seu marido, Julian (Plutarco Haza), e seus dois filhos formariam um estereótipo de família feliz.

O verbo foi empregado no futuro do pretérito, pois, por mais que exista o cânone que assegure a forma, ou seja, uma maneira quase platônica de perceber as coisas, o humano, esse emaranhado de existições, não se prende às teias. Ele as cria. Ele mesmo as destrói. Por vezes, destruindo-se a si mesmo.

Há uma medida para amar? Gessinger ensinaria: “amar sem medidas”. Contudo, o filme nos conduz a algumas interrogações que são conduzidas pelo gingado caliente do sorriso de Mariana. Nesse caminho há algumas questões outras que se vão juntando ao quarto sempre aceso do casal. Há um limite para a fidelidade? Ou seja, há uma maior ou uma menor traição? A traição se dá apenas quando rola transa? E os amores platônicos, são eles traição? Fantasiar é trair? E quando a fantasia do seu companheiro é que você esteja com outros homens? Quem é traído: a mulher que se curva ao querer do marido e transa com outros homens? O homem que pede isso à mulher seria ele a trair o amor dos dois? A mulher, quando não entra na fantasia do companheiro, está a traí-lo? Amar seria, ao fim das contas, realizar a fantasia do outro? Deixar-se ir em seu infinito? Lévinas poderia ajudar-nos aqui com sua ética da alteridade? Dentro dessa dimensão, a mulher que tem outros homens para satisfazer a fantasia do companheiro seria ética? A traição tem alguma dimensão ética? O que viria a ser a traição?

Existem questões imensas dentro dessa trama. Uma delas seria também perguntar se o filme não estaria a reproduzir um estereótipo machista. Ora, por que a mulher teria que submeter-se a essa fantasia? Ela não poderia querer o seu companheiro com outras mulheres? Ou ainda é considerada frágil pra isso? O filme nos questiona se haveria esse modelo de felicidade. Se em verdade, nossos moldes cristianizados são aqueles que permitem a felicidade. No limite questiona se a fidelidade tem uma relação necessária com a harmonia de uma vida a dois. E ainda: o amor é fiel? Estaria o poetinha correto ao dizer que “Para viver um grande amor, mister É ser um homem de uma só mulher Pois ser de muitas – poxa! – é pra quem quer Nem tem nenhum valor…” Esse dizer de Vinicius seria uma clausura espiritual ou também corporal? Sexo é traição? Ou a traição está aliada a ser fiel em relação aos sentimentos? Não há sentimentos no sexo? E ainda, esse amor que reclama fidelidade é um amor cristão e burguês? Afeito à posse? De novo: haveria uma fórmula para o relacionar humano? A palavra cânon tem uma conotação cristã muito forte. Seria aquele conjunto de preceitos pelos quais o homem e a mulher deveriam se abalizar. Devemos descobrir o que há para além do cânon? O amor subverte? Subverter hoje seria optar pela fidelidade quando o contrário parece reclamar espaço cada vez maior? Se amamos filhos, pais e avós, por que não poderíamos amar mais de uma companheiro? E o poliamor não é uma realidade? Há um cânon nas relações? Platão seria o filósofo a ser atendido, ou seja, há um arquétipo de relacionamento e somos meras sombras dele? Adão e Eva? Mariana ao se deitar com outro, traiu? Realizou a fantasia de Julian? Amou ou apenas gozou?

Julian é um fotógrafo de guerra. Ele viaja para apreender com sua lente os momentos mais bárbaros do humano.  Mariana é arquiteta. Ornamenta ambientes. Ele se confunde com seus ambientes e encerra as vidas com suas fotos. Mariana produz locais onde as pessoas transitam. Deitam-se. Vivem e amam. De tanto paralisar a vida em flashes Julian se confundiu em suas fantasias. De tanto criar ambientes. Mariana precisou reinventar o seu. O casamento balançou. Há uma amiga que narra um pouco a história. Voyeur como Julian. Voyeur como todos os humanos que imaginam existir um cânon a ser seguido. Enquanto seguem-no, o amor se perde. Sem inspiração entre almas fieis e infiéis, “misturadamente”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s