O problema do lixo no documentário ‘Aterro’

Aterro. Nome do documentário acerca do qual iremos conversar. Como sói acontecer, estamos e somos na linguagem, portanto, não poderia me furtar a ela, isso seria já impossível, logo, irei deter-me em duas palavras. Aterro, denota exatamente aquilo que está junto da terra, mas ao mesmo tempo, sem a própria terra, ora, o “a” é partícula de negação, portanto, a-terro seria sem a terra. Contudo, quando jogamos terra sobre algum lugar, quando preenchemos algum local com terra, estamos também a aterrar. Os portugueses dizem que quando o avião toca o solo está a aterrar. Esse emaranhado de significações que as palavras tomam em acordo com sua inserção textual podem nos ajudar na reflexão que gostaria de propor.

Quando me lancei ao documentário Aterro, possuía já minhas pré-compreensões, e exatamente por isso aquilo que fora ali retratado já estava de alguma maneira antecipado em mim. Essa fala foi colocada apenas para informar que não há nada no humano que seja natural e imutável, somos história e nos formamos dentro dos textos aos quais estamos incluídos. Nossa realidade hoje nos lança à cara toda nossa desproporção enquanto consumidores, e exatamente por isso é possível imaginarmos qual o assunto desse documento.  Mas não seria essa a faceta que gostaria de lhes propor hoje a discussão, em verdade, como dirá Humberto Gessinger, “somos que podemos ser”, estamos no mundo e somos por ele construídos enquanto exatamente lavoramos em sua construção. Daí que esse documentário nos dá a pensar sobre essa questão do aterro de maneira um pouco menos óbvia, sugiro aqui uma reflexão ética e uma reflexão de estrutura social.

Iniciemos pela ideia com a qual o documentário é encerrado. Ele é dedicado às zonas que recebem o lixo. Isso é já elucidador do problema. Ora, parece-me que deveríamos pensar se de fato, há mesmo condição de nos mantermos em uma maneira de viver em que é considerado “normal” um certo número de pessoas criar o lixo e outra parcela “receber”/suportar esse lixo. Essa seria então a mesma estrutura que sustenta nossa sociedade, que é construída por pessoas com história e outras não.

Assim, nos salta aos olhos pensar que em um momento em que falamos tanto do ambiente, de reutilização e criação de novas energias, ainda nos mantenhamos alicerçados em uma construção social que divide-se no mesmo modelo de “Casa Grande e Senzala”. A casa grande produz o lixo e a senzala recebe. Essa questão não é encerrada apenas na questão do local, ora, já temos legislações que sustentam o fim dos catadores nos lixões, mas essas mesma legislação não nos obriga à uma coleta selecionada do lixo. Essa afirmação apenas corrobora com o ideário que sustenta uma sociedade de consumidores que não participa daquela parcela que outrora foi chamada senzala. O lixo hoje são os restos da sinhá que chegavam à senzala.

Na sociedade de consumo, apenas uma visão do horizonte é percebido, ou seja, está aqui, portanto, a necessidade de discussões como esta – dar a dimensão total da cadeia àqueles que consomem de maneira voraz. Esse ao nosso entendimento seria o cenário social a ser observado quando pensamos em questões como esta. A estrutura social formada por uma subjetividade individualista nascida na modernidade emperra, entulha, aterra essa visão horizontal da cadeia de consumo. Já afirmamos acima, “somos que podemos ser”. Nada mais atinente à estas questões. Nada mais desafiador à nossa humanidade. Ao menos o que resta dela.

Há um aterro social em que estamos inseridos. Não o aterro que já reciclava vidas e lixos. Mas o aterro em que o excesso, não de terra, mas de consumos, impede a percepção da necessidade de mudança de subjetividade. Não há renovação que se sustente enquanto essa estrutura não for tocada. A senzala não pode mais continuar a ser muda. Esse documentário serve, portanto, para dar história às pessoas que são confundidas com o lixo e por isso ignoradas pela casa grande. Já diria um tango traduzido e cantado por Raul Seixas:

Século XX cambalache, problemático e febril (…) Que o mundo foi e será uma porcaria eu já sei / Em 506 e em 2000 também / Que sempre houve ladrões, maquiavélicos e safados / Contentes e frustrados, valores, confusão /  Mas que o século xx é uma praga de maldade e lixo / Já não há quem negue / Vivemos atolados na lameira /  E no mesmo lodo todos manuseados. (GARDEL)

Nesse sentido podemos pensar que essa realidade na qual estamos inseridos de um consumo desenfreado, impede uma relação ética e isso necessariamente vai desembocar na problemática do documentário. Ora, quando falamos que a casa grande envia o lixo para a senzala que o recebe como forma de sobreviver, estamos a dizer que o outro que é diferente do consumidor sequer é reconhecido como igual. Por isso, o outro lado da educação para o consumo chama-se ética. Quando o outro torna-se aquele que nos constitui, a cadeia de consumo começa a ser percebida de maneira mais ampla. A cadeia a que nos referimos é esse outro que não é visto fora de nossas mônadas: carros, casas e smartphones. Assim, a ausência de relação com o outro é também ausência de percepção do tempo, que agora também é objeto de consumo.

Pensamos que o documentário “Aterro” presta mesmo o papel a seu nome aduz, ou seja, é um documento. Registra memórias e estórias individuais. Dá cor, som, tom e cheiro às pessoas que viviam sem o próprio cheiro, o próprio tom e a própria determinação, uma vez que a chegada do próximo caminhão era quem ditava o tempo ali. Nesse sentido, é interessante perceber que quando voltamos os olhares para essa condição, a nossa relação com o que chamamos lixo também acaba por se transformar, e é exatamente neste ponto que gostaríamos de chegar.

Pensamos que o problema ali retratado não deve apenas ser observado de maneira sistemática ou em relação a modelos x ou y. Quando refletimos acerca de direito e energias renováveis, estamos necessariamente no campo da invenção, e isso se alia ao que falamos ao início dessa prosa. A dimensão da existência humana não está encerrada. Não há natureza humana e tampouco determinações de estados que não irão se transformar. As peças ao se moverem desenterram história e ideias, ao mesmo tempo em que se lançam ao outro enquanto obra de si e do mundo. Logo, falar hoje da relação do direito com energias renováveis, é, se não erramos, inventar uma nova subjetividade. Não trata-se de uma discussão lato sensu, mas da construção de uma subjetividade cosmológica e ética que faça o humano se criar pelo outro e assim perceber que essa cadeia iniciada no consumo, em suas diversas dimensões, não é encerrada ali no descarte. O lixo, como dito, por uma das personagens, nem sempre é lixo. O outro, que recebe o lixo, deve ser percebido como aquele que nos permite a existência, que retira-nos de nossa aterrada individualidade, que renova, portanto, nossa energia para a invenção de um tempo porvir, que se nos mostre menos lixo e mais duradouro. Essas sugestões se aliam à ideia de duração em Freud, que nos foi furtada pelo fim do tempo com o advento da internet. No entanto, é prosa pra outro encontro. Importa notar que se percebemos o lixo como uma extensão de nosso tempo, sem dúvida nos inscreveremos na existência de maneira diferente, mais ocupada com o outro, que dura e assim, nos faz durar.

 

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