As cenas de sexo no cinema

Outro dia li um texto que trazia para o debate a construção e filmagem de cenas de sexo no cinema por diretores homens, e da violência derivada dessa posição de poder. A reclamação era da atriz Keira Knightley, a Elizabeth Swann de Piratas do Caribe. Ela disse que, quando contracenou sob a direção de uma mulher, e com o auxílio da uma preparadora de atores – também mulher – se sentiu muito mais confortável para atuar na cena de sexo. Contou, revendo sua trajetória, que muitas vezes se sentiu violentada por diretores homens nesse tipo de cena.

Hoje em dia esse debate está posto, uma coisa que tem a ver com ética e que interfere diretamente na estética, interfere na forma do filme que veremos na tela. Olhando de hoje para o passado do cinema, veremos cenas de diferentes tipos e podemos pensar como seriam tais filmes se já houvesse esse tipo de discussão. O debate e a luta das mulheres contra a opressão machista hoje em dia teve força para denunciar vários cineastas, os mais famosos certamente Roman Polanski e Woody Allen, mas também Von Trier e outros. As cenas de sexo a partir de agora serão diferentes?

Polanski e Allen talvez não sejam os melhores exemplos a tratar, mas todo mundo se lembra de O último tango em Paris (1972), cuja cena com Marlon Brando é repleta de polêmicas e denúncias sobre violência sexual. Mais recentemente, dois nomes chamam a atenção por reincidência em “filmes pornográficos travestidos de cult”, na brilhante síntese de um colega de discussão no grupo “Cinetoscópio” no Facebook, o Nilmar. Ele se referia a Love” (2015), de Gaspar Noé, um argentino radicado na França que faz filme excêntricos e gratuitamente violentos. É verdade que Irreversível é interessante em alguns aspectos, mas nunca uma estética que enquadra sem cortar um estupro por uns 7 minutos se justificará. “Love” é um filme sobre um triângulo amoroso, cujo único objetivo é mostrar cenas de sexo explícito, dessa vez mais que em irreversível (2002) ou Enter the void (2009). Filmes como esses banalizam as cenas de sexo no cinema, reforçando – e por isso representativo – a violência machista estruturante das sociedades.

O outro caso atual é Abdellatif Kechiche, diretor do bom mas pornográfico Azul é a cor mais quente (2013). As atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, que pela primeira vez ganharam a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes, até então sempre dado somente à direção, reclamaram muito da postura do diretor nas cenas de sexo. Exaustivas e invasivas, as cenas, que no material editado para o longa deve totalizar uns 30min, portanto foram mais horas gravadas, expunha tal como filmes pornôs as duas atrizes. Elas contaram, salvo engano, que em seu primeiro encontro tiveram que ficar peladas frente a frente. Kechiche voltou a causar polêmicas – para os desavisados, claro – com sua trilogia Mektoub, que só pela sinopse e trailer mostra a que veio: filme pornô travestido de cult.

Há milhares de exemplos, infelizmente, porque estamos falando de uma opressão histórica, impregnada nas instituições e estruturas de poder da sociedade. No entanto, vivemos um período em que essa discussão bateu com o pé na porta e não sairá tão cedo. Keira Knightley, e o autor/a do texto que referia a Knightley, sugerem que cenas de sexo dirigidas por mulheres são verdadeiramente eróticas, sugerindo ao invés de mostrar pornograficamente, indicando sutilmente o amor, o tesão, da cena. Resta ver que mudanças profundas esta onda de protestos e reivindicações causará na história do cinema, do ponto de vista social e estético.

Rodrigo Mendes

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