O que é a Matrix? Uma análise da realidade na literatura, no cinema e em nossas vidas

A realidade apresentava um cowboy ciberespacial, o que hoje seria considerado um daqueles indivíduos que invadem sistemas computacionais complexos, os chamados hackers. O panorama de fundo era um cenário pós-terceira guerra mundial, pós-apocalíptico, com drogas e contaminação por toda parte. Havia também uma inteligência superior e artificial. O mundo acontecia e se movia pelo ciberespaço, pela Matrix. O que é a Matrix? Assim definiu a Inteligência Artificial:

Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças aprendendo altos conceitos matemáticos… Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz abrangendo o não-espaço da mente; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como marés de luzes de cidade…

A introdução acima, seguida da respectiva citação, foi extraída do livro Neuromancer, de William Gibson. A obra é uma das precursoras do subgênero de ficção científica intitulado cyberpunk, que nos apresenta a máxima da “alta tecnologia, baixo nível de vida” (high tech, low life). Foi uma das grandes influências tanto na literatura do gênero quanto no cinema, sendo o maior exemplo, a trilogia de filmes Matrix (1999), das irmãs Wachowski, que utilizaram de várias referências da obra de Gibson.

A obra foi apresentada justamente por nos mostrar uma realidade, ainda que similar em alguns pontos, distinta da nossa. E é justamente essa a pergunta que permeia este escrito: o que é a realidade ou como se cria ou vive uma determinada realidade? Antes de nos propormos a pelo menos tentar responder a essas questões, deveríamos antes compreendermos alguns pontos peculiares. O primeiro deles seria a noção dos elementos que constroem essa realidade.

Em O que é realidade?, o autor retoma uma concepção bíblica que nos diz que “no princípio era a palavra”. Metáforas à parte, a palavra se tornou a preocupação de vários filósofos ao longo dos séculos. E um dos mais antigos e importantes registros podem ser encontrados em Sócrates, por meio de Platão, no Crátilo. As palavras, segundo Sócrates, eram dadas a priori. Ou seja, as coisas eram nomeadas antes de sua existência, partindo da ideia de mundo inteligível que nós conhecemos a partir do mito da caverna, n’A República. Na contramão de Sócrates, figuras como Heidegger e Wittgenstein, a partir de uma perspectiva fenomenológica, atribuem a palavra uma espécie de criação do homem para os objetos que produz, para a realidade que vive. Portanto, como elemento responsável pela construção da realidade, temos a linguagem humana.

Para o segundo exemplo, recorrerei ao filme Being There (1979). No filme, conhecemos Chance, um homem que trabalhou toda a sua vida em um jardim e que se comunica apenas com aqueles que vivem ali junto dele e a televisão que ele sempre assiste. Quando o patrão de Chance morre, ele acaba sendo obrigado a sair do seu lugar. Ao ir para o mundo, ele acaba conhecendo e fazendo amizade acidentalmente com a esposa de um magnata e, ao ser apresentado ao magnata, acaba se tornando amigo do velho homem. Tudo que Chance diz, faz ou até mesmo o seu silêncio, passa a ser interpretado de maneira totalmente diferente do que ele imaginava que estava dizendo. Neste caso, o elemento-chave é o próprio personagem, Chance. Percebam que ele vive em uma realidade, a de jardineiro. Seu mundo, suas concepções, tudo que Chance conhece está associado ao que Chance faz. É o sujeito Chance inserido em uma realidade inteiramente sua. Portanto, a noção desse sujeito, seus saberes, anseios, emoções, etc é que criam essa realidade.

O último elemento que nos interessa aqui está associado aos conceitos Ursprung e Erfindung, utilizado por Nietzsche na Genealogia da Moral. Ursprung refere-se à origem. Enquanto que Erfindung é a invenção. A religião, a poesia, a literatura, o direito, a moral e todos os outros elementos que compõem nossa existência e fazem parte da sociedade, todos eles são Erfindung. A religião foi inventada, assim como a poesia, o direito, a moral… Há uma grande fábrica para se produzir o ideal, para se produzir realidades. O que nos resta? Vivê-las, talvez. Na interpretação de Foucault, todas essas invenções ocorreram por pura relação de poder. Afinal, um belo dia, alguém teve a ideia de utilizar de números, propriedades rítmicas e musicais, para estabelecer uma certa relação de poder de uns sobre os outros. O ponto que quero lhes apresentar é: a realidade foi criada em determinados contextos e é a partir deles que novas realidades podem surgir ou deixarem de surgir.

A realidade é constituída, dessa forma, pela linguagem em primeiro lugar. Ela é capaz de enunciar, nomear as coisas, criar conceitos, estabelecer padrões. E é a partir da linguagem que nós, seres humanos nos inserimos no mundo. E é como seres humanos que nos constituímos como sujeitos dele e ele também nos constitui. Como sujeito, e por meio da linguagem, o mundo que classifica como um homem, professor de Língua Portuguesa (e aí há toda uma gama de atribuições a essa nossa posição), o que seria diferente se eu fosse não somente um homem e professor de Língua Portuguesa, como também um cristão e branco. Essas informações me inserem numa realidade, da mesma forma que me retira de outras. As invenções humanas, o Erfindung, também ajuda nesse processo de criação desse sujeito, na definição de minha realidade.

Por fim, é notório que devido a todos os fatores apresentados passamos a pertencer a realidades diferentes e, por vezes, em uma realidade em comum. O que não devemos fazer é, em hipótese alguma, negarmos a outra realidade ou desmerecê-la por não fazer parte de mim. Enquanto homem, branco, cristão e professor deveria desconsiderar a realidade homem, negro, não-cristão ou mulher e índia, mulher trans e cristã, ou qualquer outra realidade? Hannah Arendt, em seu Responsabilidade pessoal e julgamento, fala da importância de se desenvolver o que Kant chamou de mentalidade alargada. Ao dialogar comigo mesmo (consciência), me coloco no lugar do outro e sou capaz de compreender a outra realidade. Em resumo, a partir da minha singularidade conheço a pluralidade. Afinal, o que é a Matrix?

*Imagem da capa retirada do Deviantart.

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