G. G. Márquez e a passagem do tempo

* o resumo da obra na qual o texto se apoia, A Revoada [o enterro do diabo], se encontra logo após o texto;

 

Agora o verão se foi
E poderia não ter vindo
No sol está quente,
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos.
Como uma folha de cinco pontas
Mas tem de haver mais.

Nada de mau se perdeu,
Nada de bom foi em vão…
Uma luz clara ilumina tudo
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu,
À segurança de suas asas.
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia…
Mas tem de haver mais.

(de Stalker, Tarkovsky)

 

 

Gabriel García Márquez é um dos meus escritores favoritos. Não sei o que me encanta exatamente, talvez seja a lenta e verdadeira passagem do tempo, contada de maneira exata, dia após dia, como em Amor nos tempos do cólera; ou pelos sentimentos e manias tipicamente humanos, como as que vemos no Coronel em Ninguém escreve ao coronel; ou ainda pode ser o jeito de narrar, indo e voltando a todo instante, como em Crônica de uma morte anunciada, que Tarantino deve ter como base para a montagem e o roteiro de alguns de seus filmes.

Este, A revoada (o enterro do diabo), no entanto, fiquei sem reação ao terminá-lo. Me pareceu estranhíssimo, do início ao fim. Todo o livro, em qualquer ponto, fazia me vir à cabeça a imagem de folhas sendo arrastadas violentamente pelo vento. Folhas que seguiam seu rumo, seu curso natural. Era algo mais ou menos como uma cena de As harmonias de Werckmeister, de Béla Tarr, em que o vento arrasta tudo o que vê pela frente e quase arrasta o personagem, que caminha solitário na rua.

A revoada, ou hojarasca em espanhol (folharada), me parece guiar o livro em um sentido único, ao caminho do vento, algo quase profético (o coronel menciona esta palavra – profecia – em um momento do livro). O doutor chega à cidade porque devia chegar. A Companhia bananeira chega à cidade porque devia chegar. Aliás, aqui temos um ponto que é interessante: o doutor funciona como personificação da Cia bananeira. Ambos são ligados ao capital e ambos fazem mal à cidade, seja destruindo a natureza em prol de um progresso que na verdade não chega, ou negando auxílio a vítimas que necessitam de apoio médico. Nesse sentido, seria possível fazer uma alusão ao doutor como o diabo, seguindo o que sugere o título em português. Entretanto, me parece uma análise pueril da personagem, embora tenha onde se apoiar (pelo mal que faz à cidade, pela insinuação de ele parecer irmão do padre, criando o maniqueísmo e assim por diante).

Gabriel García Márquez coloca o enredo sob a ótica de três narradores: o coronel, sua filha e seu neto. É interessante ver as situações se repetirem e termos a opinião de cada um de acordo com suas especificidades. No entanto, não é por acaso que não vemos através dos olhos do doutor, figura enigmática e ponto chave da história. É como se com ele viesse a desgraça, carregada em suas costas. Ele menciona, em determinado momento, que “tudo isto passará quando se acostumarem com a hojarasca”. É a passagem do tempo, o devir, o caminho, natural ou não, que todos estão sujeitos.

O livro traz consigo, de maneira muito forte, a lembrança. O espelho que o menino olha quando está no velório do doutor, e questiona a razão de lá estar, parece nos indicar o tom que a narrativa terá: de intensa reflexão acerca do passado. Mais uma vez a revoada, a hojarasca, estão presentes, mostrando o fluxo da vida através da memória das personagens, através de seus sentimentos, de suas emoções.

Através da epígrafe, tirada de Antígona, percebemos também um lado que a história subsequente seguirá: o de oposição, neste caso de uma família ao seu povoado e vice-versa. Claro que isso se intensifica a partir do momento em que o doutor passa a viver na casa do coronel como um agregado. Piora quando este nega à população o auxílio médico. No entanto, será que o doutor foi parar naquela casa à toa, levando uma carta que possivelmente era forjada? Há antecedentes na família, como casos de incestos, que depõem contra ela. Sabemos através de um pensamento da filha do coronel. A partir disto, será que o repudio da sociedade àquela casa e àquela família se dá apenas por sustentarem e darem abrigo a um usurpador que nega ajuda aos necessitados?

Em certo ponto do livro, o coronel pensa ter desvendado um dos segredos do doutor: o ateísmo. Este não afirma isto, também não nega. A verdade é que o doutor quase sempre fala em rodeios e é difícil entendê-lo. O ponto interessante nisso é que Deus seria um obstáculo ou a resolução da hojarasca. O vento que guia as folhas seria Deus, e nós, as folhas, seguiríamos esse caminho pré-estabelecido. No entanto, prefiro seguir a interpretação de que é o acaso, a sorte, que é simbolizada pelo vento, bem como nos mostra Woody Allen em Match Point. Senão, até para os cristão seria complicado sustentar isso, já que a desgraça do povo de Macondo também é uma consequência da hojarasca.

Em uma nota-prefácio-carta, temos a informação da destruição do povoado por um aluvião causado pela Companhia bananeira. Aluvião é outra forma, até mais interessante a meu ver, de representar a revoada, a hojarasca, ou simplesmente o curso da vida. A água tem muitas significações, dentre elas a de caminho, percurso. No cinema é amplamente usada desse modo. Me recordo do filme Sonhos, de Akira Kurosawa, em que vemos a água e sua correnteza também com essa significação.

A cena inicial me marcou. Aquela atmosfera densa, que pode ser cortada com uma “lâmina de aço” é extremamente concreta e tocante, e tem sua correspondente na cena final, que embora seja no mesmo espaço temporal (o enterro do diabo, digo, do doutor) é contada ao final do livro. Quando os homens do coronel abrem a porta e um feixe de luz invade a sala, é a libertação, o fim de um ciclo, de uma hojarasca. Fim do martírio do menino que se sente mal naquele ambiente; fim da espera da cidade, que há muito se via ansiosa por esse momento; fim dos cuidados a que o coronel se obrigou com aquele homem. Mas a sururinas começarão a cantar, e a hojarasca segue; o livro acaba e ela segue, pois ela sempre seguirá.

Já que mencionei o final do livro, literalmente, é preciso voltar um pouco. A algumas páginas do fim, a filha do coronel fala em vento final. É o último sopro, a última vontade do acaso. Para ela, é impossível que eles sigam seus caminhos, pois estão atados ao chão de Macondo. A revoada chega a todos, mas nem sempre os leva à frente.

O vento final aconteceu há muito tempo para Macondo. A Companhia bananeira já semeou a desgraça e sugou todas as riquezas daquele povoado. E então foi embora, seguindo seu caminho, com a revoada, e deixou Macondo inerte no passado, em meio ao aluvião. Deve ser uma sensação horrível. Modernidade às avessas.

Todos nós temos nossa própria hojarasca. Aqui no Brasil, parecidíssimo com o que vemos no livro, percebemos na nossa vida real. Temos nosso Macondo e nossa Cia. Bananeira. Chamam-se Mariana e Samarco, respectivamente. A revoada, ou melhor, o aluvião, lá foi fatal para pessoas e animais. A Samarco seguiu a conveniente hojarasca da justiça capitalista brasileira e Mariana ficou lá, parada no tempo, esperando o ressarcimento que não virá e que jamais seria à altura. E assim segue a vida, como uma folharada, como uma nuvem de poeira, como a correnteza de um rio.

 

*resumo: O enredo se passa em Macondo, cidade fictícia que aparecerá novamente na obra do autor no célebre Cem anos de solidão. Aqui, um médico enigmático chega a cidade e se instala, como agregado, na casa de um coronel famoso da cidade. A partir de então, a atmosfera da casa e da cidade sofrerão mudanças.

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