Conheça a literatura pop do escritor paulistano Felipe Perazza

A literatura pop pode parecer não ser tão levada a sério pela crítica, mas esse gênero tem muito a dizer especialmente no que se diz respeito ao estilo de vida contemporâneo. Surgida no Reino Unido e Estados Unidos, esse gênero traz muito sobre a cultura de consumo, indústria cultural e as influências do modelo liberalista nas artes. Criticando ou exaltando a sociedade atual, muito pode ser entendido do mundo em que vivemos hoje quando entramos em contato com esse gênero, deixando cada vez mais clara sua relação direta com a cultura urbana e industrial.

Podem ser citados como exemplos os livros “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, que virou filme estrelado por Jack Black, ou “Trainspotting”, de Irine Welsh, que também chegou às telas de cinema no começo dos anos 1990. Esses dois autores, ambos do Reino Unido, caracterizam muito bem a vida dos jovens das últimas décadas que encontram como saída para uma sociedade capitalista louca a vida no meio das subculturas urbanas. Dessa forma, os heróis procuram uma maneira de se sentirem mais vivos e de encontrar o seu eu interior, dedicando-se, cada qual à sua maneira, a experienciar uma realidade paralela: um por meio de drogas pesadas, outro por meio da música pop, na época do rock. Mais anteriormente, Jack Kerouac já havia eternizado esse aspecto da juventude em seu famoso “On the Road”, assim como em suas outras obras que caracterizam o universo beatnik e o jazz. A narrativa em primeira pessoa, que geralmente segue um fluxo mais livre de consciência com linguagem informal, reflete as transformações psicológicas que se dão pelo contato desse novo protagonismo com o mundo externo, que cada vez muda mais rapidamente. O Brasil é caracterizadamente um país que consome cultura norte-americana, e, dentro disso, é compreensível que muito de nossa arte pop tenha relação direta com o universo capitalista.

O autor paulistano Felipe Perazza, 29, como exemplo, trata de temas muito semelhantes aos já citados em seus livros Herois e Anônimos e Meditando no Banheiro. O primeiro título, lançado em 2015, conta a história de Fernando, um cara comum que tem uma vida aparentemente banal, mas que tem a graça de superar sempre o olhar que tem diante dos acontecimentos da vida.

Capa-HeroiseAnonimos

Dessa vez, o herói é uma pessoa comum, um cidadão como qualquer outro que, usando de sua subjetividade e de certa filosofia espiritual, consegue transformar o mundo naquilo que deseja ser o ideal. Esse elemento pode ser visto como uma lição que remete a uma filosofia hippie, sessentista e existencialista, da busca da felicidade por meio da mudança de suas próprias ações diante do mundo.

 Seu segundo título, Meditando no Banheiro, lançado em maio de 2017, possui um humor mais ácido, mas mantém a perspectiva espiritual da vida. No enredo, o protagonista Roberto, quando garoto, escapa até a praia e passa algumas horas contemplando o mar. Nesse momento, quando vive uma espécie de transe, Faísca, um vira-lata, aparece e deita aos seus pés. Roberto sente uma conexão com a vida causada pela serena sensação estabelecida pelo encontro casual. Da mesma maneira que surge repentinamente, o cachorro se levanta e vai embora. E Roberto continua a procurar, de alguma maneira, aquele cão por todo seu trajeto de vida. A busca por um sentido maior, por essência e motivação o levam a buscar sua guia espiritual e o direciona a uma incrível viagem que mescla lembranças de acontecimentos e viagens que já viveu, ao mesmo tempo em que usa como referência ídolos e músicas da cultura rock’n’roll. Brinca, assim, com a linguagem cinematográfica da trilha sonora enquanto forma as cenas descritas pela narrativa.

A busca por uma filosofia de vida e pelo preenchimento do vazio existencial é uma corrente que permanece na literatura atual. A maneira com que as personagens encaram seu papel em um mundo cada vez mais automotizado e artificial mostra como tem evoluído a civilização ocidental e a cultura de massas. A obra Meditando no Banheiro, de Perazza, tem em comum com o livro “Alta Fidelidade”, de Hornby, o fato dos protagonistas elevarem as obras provenientes da cultura pop rock’n’roll a nível de exaltação quase religiosa, icônica, que revela certo tipo de necessidade de alienação por conta do vazio do dia a dia.

Metidando-no-banheiro

A inserção de ícones pop e as músicas citadas como que trilhas sonoras casam também com o meio cinematográfico, que também revelam a relação com o contemporâneo e com a revolução dos meios e mídias.   No fim das contas, a literatura pop, como um todo, vem como agente e produto das transformações nas condutas sociais e morais, na atitude e negação e revolução diante de acontecimentos e do cenário mundial e nas extremas mudanças sociais realizadas pela geração pós-guerra. Da mesma maneira, relata as experiências e transformações a âmbito individual que se fazem necessárias para a adaptação a um novo padrão social que trouxe a tendência do vazio emocional, da revolta e incompreensão e da luta pela existência mais do que da sobrevivência. E é por isso que as personagens de Perazza passam, cada uma de seu jeito, cada uma um recorte de uma postura diante desse lugar social ao quão estão embutidas.

Enfim, é ótimo saber que a cultura pop encontra um novo e promissor expoente em terras brasileiras. Aqui fica o convite para acompanhar de perto mais sobre esse universo. Acompanhe o autor em seu Instagram: @https://www.instagram.com/f.andarilho/.

Imagem de capa: Marcio Baraldi.

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