Racionais, literatura e sociedade

“minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição”

 

O Racionais MC’s é talvez o grupo de rap de maior alcance no Brasil. Há uma foto bizarra em que Luciano Huck aparece em seu carro com discos do Racionais ao seu lado. Me parece que a cultura dita popular, a que o grupo de rap certamente pertence, alcança não só seus interlocutores principais, digamos assim (me refiro a seus iguais: negros, pobres, de periferia), mas também um tipo clássico de burguês da elite nacional, que não por acaso são os primeiros inimigos em suas letras.

Pretendo, ao longo desse texto, abordar elementos como função e valor, transitividade da literatura e como esta se modifica ao longo do tempo, causando modificações na forma e no conteúdo, tendo o Racionais MC’s como ponto de chegada (e partida). Dessa forma, trabalharei canção como literatura.

função e valor O Brasil, ao longo dos anos, foi criando abismos entre classes sociais e, de certa forma, o Racionais é produto disso. A população negra, eternamente assassinada e silenciada, ganha voz (ou melhor, conquista) dentre outros meios, no rap. Como Mano Brown diz no início de “Capítulo 4, Versículo 3”, a palavra é sua arma e ele tem muitas delas. Aqui, as canções do grupo cumprem um papel fundamental: o de denúncia. A luta diária agora ganha corpo estético com a função de sobrevivência.

Em um ensaio muito interessante, Maria Rita Kehl aponta para a fratria do rap, uma comunidade na qual o grupo se insere e funciona como representantes dela. A literatura, para eles, é além de tudo uma forma de integração, de aceitação diante de seu igual. Pulando o ponto de vista estético, há um valor simbólico muito grande em compartilhar práticas e o ambiente para essas pessoas. Um valor que jamais será compreendido pela elite que se acha dona da verdade para dizer o que é Literatura.

Há uma tensão interessante em analisar o público receptor das obras do Racionais. Volto ao que disse acima sobre o Luciano Huck: seria isso uma aceitação, uma concordância com o grande valor do grupo, dessa vez vindo da elite? Aquela elite xingada até a morte nas canções agora escuta aquele som que vem da periferia. Mas isso passa, sim, por certo fetiche, por estar na moda, já que o grupo superou a barreira de classe e de raça para dar o seu recado.

transitividade A discografia do Racionais é muito rica e talvez seja possível apontar diversos caminhos em que sua literatura (aqui trabalho com o termo sendo uma abstração) se materializa.

Em “Diário de um detento”, canção de Mano Brown e Jocenir, a literatura se apoia na História e num fato específico – o massacre no Carandiru – para ganhar força. A partir da canção é possível esboçar uma interpretação história de formação da população carcerária no país; sobre o papel do Estado e da polícia como uso da violência institucional. E claro, seguimos vendo que o papel da canção é claro: denunciar tal violência e tais abusos por parte do Estado, além de convocar resistência, dessa vez entre os que estão presos.

“Estilo Cachorro” representa a face mais comercial e de entretenimento do grupo. Os traços são claros. Há certa vontade de mostrar empoderamento do negro frente ao branco em relação à mulher. Aqui, o pensamento patriarcal arraigado na sociedade se reflete bem em uma das músicas mais machistas do grupo (algo que infelizmente não é contrário às vendas) por isso também por isso se apoia no Mercado.

Há um elemento dessa transitividade que creio ser o mais interessante: quando a literatura passa a ser arma política. Falei um pouco acima e agora desenvolvo mais. Em quase todas canções do Racionais há um tom de liderança, chamando a comunidade a resistir e a lutar. O combate às opressões de classe e raça se dá no simbólico depois do cotidiano. Através de sua literatura que há essa síntese e a partir disso (apoiada no mundo real de desigualdades e violências) funciona como política.

Mudando um pouco a interpretação do conceito de transitividade (agora não mais o trazer da literatura –abstrato- para o empírico –material) mas pensando em uma comunidade de leitores (nesse caso ouvintes) e de uma aceitação comum (de novo, a fratria), tem-se outra chave para tentar compreender o grupo. As canções juntam elementos comuns e opiniões consensuais de certas comunidades e isso gera a aceitação da arte produzida. O Racionais só é Racionais porque há ali uma dor compartilhada, mais uma vez sintetizada pela literatura.

mudança história As sociedades vão mudando ao longo do tempo e a literatura, assim como as práticas de leitura, por conseguinte, também se alteram. Aqui no Brasil, em meados do século XIX, com o romantismo, houve um movimento de fazer literatura com o propósito de formação de um Estado-nação para justificar a alternativa liberal.

Um pouco mais para frente, e tendo Machado como exemplo já que pisou nos dois lados, há uma quebra com o romantismo e entramos no realismo (uso esses nomes para melhor explicar, não para tentar enquadrar os autores em períodos literários como caixas de sapato). Agora é necessário, de alguma maneira, de narrar a realidade e não mais as fantasias dos românticos. Memórias póstumas de Brás Cubas é um perfeito exemplo: só é possível esse tipo de literatura pois a realidade por trás dela é de uma sociedade escravocrata e totalmente racista e violenta. De certa maneira foi a “modernidade” mercadológica e o pensamento escravista vigentes que forneceram ao Machado elementos para a base de seu romance. É a História e sociedade influenciando diretamente a obra escrita.

Pouco mais de um século depois, e uma sociedade ainda muito violenta e racista, emerge o Racionais MC’s. O mesmo movimento acontece agora: uma dicção como a deles só poderia aparecer em um momento em que a sociedade completa seu ciclo de modernidades às avessas e segue aumentando a diferença de classe. O grupo está assentado no racismo institucional e estrutural da sociedade brasileira.

Goody, em um texto chamado “Literatura oral” aponta para as diferenças entre as classes sociais ao se diferenciar literatura escrita e oral. Lembro dessa passagem pois o rap, talvez como o samba de roda, vem de uma tradição oral muito forte (e ambos surgem com os de baixo). É impossível falar sobre rap sem lembrar das batalhas de rimas, sempre improvisadas e, mais uma vez, sempre em grupo. Esses traços permanecem e muito na trajetória do Racionais, seja nos shows, quando há, no mínimo, 50 pessoas no palco, seja nas letras, evocando um espaço comum às vizinhas e vizinhos da periferia.

O rap do Racionais é indissociável da sociedade moderna brasileira. Não é a única, mas é uma chave importante para falar sobre o grupo. Assim, penso ter sido possível enxergar como a literatura muda acompanhando a sociedade, seja na forma (dicção agressiva nas canções do Racionais demarcando opinião frente às desigualdades e à violência), seja no conteúdo (denunciando mortes, cobrando direitos). E o rap, como uma forma de literatura, seguirá cobrando enquanto nossa sociedade cultivar o racismo, a desigualdade e toda opressão de cima para baixo.

Rodrigo Mendes

 

Referências

RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no Inferno. 1997.

KEHL, Maria Rita. “Radicais, raciais, racionais: a grande fratria do rap na periferia de São Paulo”. In.: São Paulo em Perspectiva, 13(3). 1999.

GOODY, Jack. “Literatura” oral. In: O mito, o ritual e o oral. Tradução de Vera Joscelyne. Petrópolis: Vozes, 2012.

GARCIA, Walter. “Ouvindo Racionais MC’s”. In: Teresa revista de Literatura Brasileira [4|5]; São Paulo, p. 166-180, 2004.

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3 comentários sobre “Racionais, literatura e sociedade

  1. Entendo o que você quer dizer com esse texto e a comparação à burguesia e ao racismo. Mas não devemos generalizar, afinal o Luciano Huck só é “burguês” porque o rotularam assim, talvez ele defenda a ideia do grupo Racionais também. Não sabemos o que se passa na cabeça dele como pessoa, afinal ele ajuda muitos desfavorecidos com seu dinheiro de burguês. Ele explora seus recursos para ajudar os menos favorecidos que ele, por audiência é claro e cada vez mais dinheiro para ele próprio, mas ajuda, muda a vida das pessoas. Sabe quem não faz isso? Políticos. É claro que ainda existem os racistas e aqueles que não se importam nem um pouco com o próximo, mas isso não deve ser generalizado pela classe social ou financeira do indivíduo. Felizmente esta realidade está mudando. Essa geração têm uma capacidade maior de resiliência e assim se criam seres humanos melhores. Parabéns pelo texto! Aguardo os próximos…

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    1. Obrigado pelo comentário e pelo elogio ao texto, Bianca. Quanto ao teu comentário, tem alguns elementos que gostaria de trazer. A generalização, querendo ou não, está na obra do Racionais. Pra eles, ou tu é mano ou tu é playboy. Minha opinião não importa muito, e considerando lugar de fala não direi se estão certos ou errados, apenas que esta é a postura assumida pelo grupo. Não concordo que Luciano Huck seja burguês somente porque alguém o rotulou assim. Ele é burguês porque ele é milionário, porque ele tem um programa na maior emissora do país. E por ele ser milionário, é necessário que milhares de pessoas sejam pobres. Afinal, o capitalismo se beneficia dessas disparidades. Discordo também que ele ajuda os desfavorecidos: aquilo me parece mais um uso indevido da imagem dos de baixo a fim de ganhar audiência. Concordo, claro, que os políticos não ajudam em nada a não ser para a manutenção da máquina pública em detrimento da retirada de direitos dos e das de baixo. Também questiono a aparente melhora da sociedade que tu aludiu. E acho que o caso do Rafael Braga pode ser usado com um exemplo cabal dessa perpetuação do racismo estrutural no país. Enfim, obrigado por comentar, Bianca.

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