Algumas representações do amor na literatura russa

“Em resumo, o ser humano nunca está satisfeito com o que tem. ”

Da novela Três anos, de Antón Tchekhov

Ivan Turguêniev e o Primeiro amor (1860)

No verão do ano de 1833, Vladimir Petróvitch, o protagonista da novela, conhece Zinaída Zassékina, a jovem filha de uma mulher que apesar do título de nobreza, passa por dificuldades financeiras. Zinaída e sua mãe viviam numa casa alugada que ficava ao lado da datcha onde o garoto e sua família passavam as férias de verão.  Assim que o jovem Vladimir, então com dezesseis anos, conhece Zinaída, uma bela mulher de vinte e dois anos, ele sente uma grande atração. Embora Vladimir perceba o quanto ela é cortejada por outros homens da região, o rapaz aproxima-se dela, e tem início uma amizade que esconde uma intensa e conflituosa paixão.

O relacionamento entre os dois intercala elementos que remetem ao amor cortês das novelas de cavalaria, onde o cavalheiro é totalmente submisso à dama, e momentos em que o jovem desconfia do caráter daquela a quem ama.

“Ela se divertia com a minha paixão, brincava comigo, me mimava e me torturava. É doce ser a única fonte, a causa arbitrária e irresponsável das maiores alegrias e do mais profundo sofrimento para o outro- e eu, nas mãos de Zinaída era como uma cera mole. ” (TURGUÊNIEV, 2010, p.43-44)

Passos rápidos, leves, mas cautelosos, soavam nítidos no jardim. Eles se aproximavam de mim… Ei-lo! É ele, afinal.

(…)

Os passos se dirigiam direto para mim- eu me curvava, me esforçava ao seu encontro…. Apareceu um homem… Meu Deus! Era meu pai! ” (TURGUÊNIEV, 2010, p.82)

Acima, temos o momento em que Vladimir descobre que um dos amantes de Zinaída é o seu próprio pai. O jovem sem forças para lutar contra o escândalo que tomaria proporções bem maiores do que sua paixão adolescente, retornou com seus pais para sua cidade natal ao fim do verão.

Anos mais tarde, após a morte do pai e de sua formatura na universidade, Vladimir reencontra um dos frequentadores da casa das Zassékinas, que lhe revela o paradeiro de Zinaída. Quando Vladimir finalmente decide ir ao encontro de seu primeiro amor, ele descobre que era tarde demais.

“Eu me prometi visitar já no dia seguinte minha antiga grande paixão. Mas surgiram certos negócios, passou uma semana, outra, e quando por fim fui até o hotel Demut e perguntei pela senhora Dolskaia, fiquei sabendo que ela morrera havia quatro dias, repentinamente, de parto. (TURGUÊNIEV, 2010, p.99)

Em Primeiro Amor, encontramos algumas das principais marcas da obra de Turguêniev. No pai Vladmir temos o homem supérfluo, hipocrisia nas relações familiares, sendo que nos dois núcleos familiares, tanto o de Vladmir, quanto no círculo familiar de Zinaída, podemos perceber a hipocrisia que permeava as relações familiares na aristocracia russa, na época do autor.

Fiódor Dostoiévski e A dócil

Publicada por Dostoiévski em seu famoso “Diário de um escritor”, a novela nos conta o drama de um homem de meia idade às voltas do caixão onde o corpo de sua jovem esposa aguarda pelo sepultamento. O autor buscou inspiração para a história nas notícias frequentes de suicídio que assombravam a São Petersburgo de sua época.

“… pois enquanto ela ainda está aqui – tudo bem: me aproximo e olho a cada instante; só que amanhã vão levar embora e – como é que vou ficar sozinho? Ela agora está na sala sobre a mesa, juntaram duas mesas de jogo, e o caixão vai ser amanhã, branco… (DOSTOIÉVSKI, 2009, p.19)

Aos poucos, o leitor vai percebendo que a novela se trata do relato de um viúvo atormentado pela culpa pelo suicídio da esposa após uma série de eventos malogrados durante o período do matrimônio.

Esse caráter de disputa que ele estabelece logo nos primeiros encontros com a jovem perdurará até a morte da moça. É sempre a sua vontade de homem, mais velho e mais seguro financeiramente que prevalecerá. (VEECK, 2016, p.14)

Durante todo o período em que os dois estiveram casados, o marido buscava sempre colocar a esposa numa situação de inferioridade, baseada na precária condição financeira da jovem. Então, o marido admite que viveu um jogo cruel que culminou com o desequilíbrio mental da esposa e com sua morte prematura.

“O fato é que ela não tinha o direito de sair do apartamento. Sem mim não se vai a lugar nenhum, esse havia sido o acordo ainda quando ela era noiva. Ao anoitecer ela voltou; e eu, nenhuma palavra. (DOSTOIÉVSKI, 2009, p.48)

O silêncio estratégico do narrador, porém, transformou-se gradativamente em uma guerra entre o casal. O marido atribui constantemente à mulher uma atitude de zombaria diante de seus problemas. O homem a acusa de condená-lo devido à natureza de seu trabalho, o que fazia com que ele se sentisse desprezado pela jovem. A primeira grande briga entre o casal ocorreu após. (VEECK, 2016, p.21)

A novela termina com o marido ainda na presença do corpo da esposa, às duas da madrugada, se perguntado “O que vai ser de mim? ”, como quem não acredita no próprio passado, e, muito menos, no próprio futuro. Em A dócil, temos um aprofundamento psicológico dos personagens, principalmente do narrador, que nos permite conhecer a mente do narrador, ainda que ele se esforce para nos convencer de suas boas intenções.

O diabo (1889), de Tosltói

O autor de romances como “Anna Karenina”, em “O diabo”, mais uma vez retoma a temática do adultério, tão presente em sua obra. O diabo é a trajetória do jovem Evguêni, que vivia em São Petersburgo e que após a morte do pai é forçado a mudar-se para uma das propriedades da família, a fim de salvá-la do endividamento. Porém, nesta mesma propriedade vive Stepanida, uma jovem camponesa casada com um homem que trabalha em Moscou. Stepanida, cuja fama de ser infiel ao marido é conhecida em toda aldeia, é apresentada ao patrão por um de seus funcionários, quando Evguêni reclama a este que necessita de um encontro, como aqueles que matinha em sua cidade, e que segundo o próprio Evguêni, eram necessários para manter a saúde física e mental de um homem.

“Com um avental branco bordado caindo sobre a saia rústica castanho-avermelhada, um lenço vermelho vivo na cabeça, descalça, jovem, forte, bonita, ela estava ali, de pé, e sorria timidamente. Ele se aproximou e, olhando em volta, tocou-a. Após quinze minutos eles se separaram.

(…) Ele estava satisfeito. Ficara encabulado somente no princípio, depois passou. E tudo tinha saído bem. O mais importante era que agora se sentia leve, calmo e bem-disposto. Quanto à moça, nem tinha reparado direito nela. (TOLSTÓI, 2008, p.131-132)

São sempre assim os encontros entre Evguêni e Stepanida. O jovem não mantém qualquer expectativa ou interesse pela camponesa, muito menos, qualquer preocupação relacionada ao fato de que a amante se trata de uma mulher casada. Porém, após o casamento de Evguêni com Liza, noiva que ele próprio escolhe por amor, sua consciência passa a perturbá-lo, em princípio pelo temor de que o antigo caso (a essa altura eles já não se encontravam mais) seja descoberto, e num segundo momento, pela obsessão que ele passa a nutrir pela camponesa. Evguêni, então passa a acreditar que a antiga amante o perseguia, criando situações para que eles se encontrassem.

Sem ter coragem para admitir para si mesmo a intenção de trair a esposa, Evguêni se desequilibra a tal ponto que passa a acreditar que Stepanida tem poderes sobrenaturais e que, por isso, exerce sobre ele tamanha atração.

“Ela é o diabo. É o próprio diabo. Pois ela se apossou de mim contra minha própria vontade. ” (TOLSTÓI, 2008, p.177)

“Matá-la? Sim. Só há duas saídas: ou matar minha esposa, ou matá-la. Porque é impossível viver dessa maneira. É impossível. É preciso pensar bem e prever: se permaneço assim, como estou agora, o que pode acontecer. ” (TOLSTÓI, 2008, p.177)

Esse pensamento de Evguêni seria a resolução do impasse diante do qual se encontrava. A partir desse momento, temos o desfecho trágico e imprevisível dessa história repleta de desejo e obsessão, em que o sexo apesar de implícito, move toda a ação. Essa trama fascinante conta também com um final alternativo, tão instigante e trágico quanto o original. Em O diabo, Tostói, o maior de todos os narradores, segundo Virgínia Woolf, mais uma vez, recorre ao efeito nefasto do adultério nas relações.

Anton Tchékhov em Três anos (1895)

Aleksei Láptiev é filho de um comerciante rico e autoritário de Moscou que se muda para uma pequena cidade. Em carta a um amigo ele revela sua descrença no amor, opinião essa que se que se transforma quando ele conhece Iulia Belavina, uma amiga que visita sua irmã doente. Os dois se casam e, no período de três anos, Aleksei presencia a morte gradativa do amor romântico.

No início do casamento, Aleksei ama a esposa e sabe não ser correspondido em seus sentimentos. Iulia aceita o pedido do comerciante apenas por temer perder o que talvez fosse a única oportunidade de casar-se. Então como a protagonista Ema de Madame Bovary, a jovem concorda com o matrimônio, buscando nele uma saída para livrar-se do tédio de seus dias. O excerto abaixo se refere ao momento em que ela constata que apenas a maternidade foi capaz de despertar nela o sentimento do amor.

– Diga-me, a propósito – Perguntou Iártsiev -, quem você ama mais: o marido ou a filha?

– Não sei – disse ela. – Eu nunca amei o meu marido com paixão, e Olia é, basicamente, o meu primeiro amor. Sabem, não foi por amor que eu me casei com Aleksei. Antes eu era estúpida, sofria, o tempo todo pensava que tinha acabado com a vida dele e com a minha própria, mas agora vejo que não precisamos de amor nenhum, é tudo bobagem. (TCHÉKHOV, 2013, p. 99)

Além da consciência da não-reciprocidade de seus sentimentos, um outro fator que contribuiu para a infelicidade conjugal de Aleksei Láptiev foi o relacionamento mal resolvido com Polina Nikolaiévna Rassúdina, uma professora de música que vive em péssimas condições financeiras, porém é bastante determinada e independente. Ao abandonar Polina, Aleksei pretende esquecer o passado, e recomeçar a vida com Iúlia. Ao longo da narrativa não ficam claros os motivos que o levaram a deixar Polina, porém de acordo com as cartas que escreve aos amigos e com as impressões de Láptiev sobre a antiga companheira, podemos concluir que ele a deixou devido à Polina não ser bonita, tampouco submissa, ou seja, ao contrário de Iúlia, Polina não se encaixava no perfil de heroína romântica que ele buscava para cumprir o papel de esposa.

Porém, ao reencontrar-se com Polina Rassúdina, e ter de confrontar-se com seu passado, Aleksei arrepende-se de ter abandonado a primeira companheira, assim como se arrepende de ter se casado com Iúlia. Nos excertos abaixo temos alguns momentos que registram as impressões de Láptiev quanto ao seu destino.

“Ela usava um chapéu preto, como de luto, com acabamento de crepe, e um casaco muito curto e batido, de bolsos salientes. O seu nariz parecia mais comprido do que era antes, e seu rosto estava lívido, apesar do frio. Láptiev achava agradável ir atrás dela, obedecer-lhe e ouvir os seus resmungos. Caminhava e pensava nela: qual não havia de ser a força interior dessa mulher, que, sendo tão feia, angulosa, irrequieta, incapaz de vestir-se direito, sempre penteada com desmazelo e sempre tão desengonçada, ainda assim era fascinante”. (TCHÉKHOV, 2013, p.109)

“… enquanto Láptiev, sentando no gabinete, depois de fechar os olhos, tentava entender por que Rassúdina tinha se juntado com Iártsiev. Depois ele mergulhou completamente na tristeza, porque não havia laços sólidos e constantes, que lástima Polina Nikolaiévna ter se juntado com Iártsiev, e que lástima ele não sentir pela esposa absolutamente mais nada do que sentia antes”. (TCHÉKHOV, 2013, p. 113)

O desfecho da narrativa se assemelha aos finais de muitas outras obras de Tchékhov. Não há nenhuma tragédia ou situação drástica que transforme a vida dos protagonistas, como ocorre nas demais novelas observadas, porém o protagonista toma consciência da morte do amor, assim como da perspectiva de ausência de felicidade que se anuncia em seu futuro. Em Três anos, o cotidiano é o elemento de maior destaque da narrativa, sendo assim, os acontecimentos importantes são mencionados brevemente.

Referências Bibliográficas:

AGUIAR, Josélia. Sete Clássicos Russos. Ediouro Duetto Editorial: São Paulo, 2010.

DOSTOIÉVSKI, F. A dócil. Tradução: Vadim Nikitin. Editora 34: São Paulo, 2009.

FERREIRA, Aurélio B.D.H. Minidicionário da Língua Portuguesa. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1993.

PÚCHKIN, Aleksandr. Poesias escolhidas. Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 1992.

TCHEKHOV, A. Três anos. Tradução: Denise Sales. Editora 34: São Paulo, 2013.

TOLSTÓI, L. O diabo. Tradução: Maria Aparecida Botelho. L&PM: Porto Alegre, 2008.

TURGUÊNIEV, Ivan. Primeiro Amor.   Tradução: Tatiana Belinky. L&PM: Porto Alegre, 2010.

VEECK, F. As relações de poder representadas no casamento em A Dócil, de Fiódor Dostoiévski e em Amy Foster, de Joseph Conrad. https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/157778/001019259.pdf?sequence=1

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