Algumas velhas considerações sobre Drummond

Sendo Drummond possivelmente o principal poeta brasileiro e tendo críticos de peso como Antônio Cândido já escrito sobre, pretendo nesse texto elaborar uma síntese curta sobre alguns apontamentos deste e de outros críticos sobre vasta obra do poeta mineiro. O texto pretende suscitar perguntas, não responde-las.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), mineiro de Itabira, em 1930 lança seu primeiro livro, Alguma poesia. Desde o primeiro trabalho, percebe-se uma poesia inquieta e violenta do poeta que foi um grande intérprete do Brasil. O eu lírico de Drummond está em constante tensão com o mundo em que vive, muitas vezes sentindo uma inadequação com a vida, uma dificuldade de aderi-la.

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

No poema acima (“No meio do caminho”, Alguma Poesia), vemos um eu lírico incapaz de resolver seus problemas, incapaz de seguir em frente. A pedra, possível alegoria de todos nossos problemas de formação[1], se coloca bem, sempre como algo que nos impede da resolução. A repetição do vocábulo também nos remete a uma circularidade, além de enfatizar o impedimento.

Ainda no livro inicial, “Quadrilha” e “Papai Noel às avessas” dão o tom do que Cândido chamou de mundo caduco. A poesia de Drummond se assenta em uma sociedade caduca, avessa, cheia de iniqüidades e tensões. “Poema de sete faces começa” começa com: “quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra (…)”. ‘Torto’ e ‘sombra’ não remetem à figura habitual de um ser angelical, justamente porque o lugar de onde esse eu lírico fala não é estável, muito menos elevado.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

“Quadrilha”, super moderno, além do verso livre conquistado pelos modernistas, traz à tona esse ar industrial, serial de produção. As relações são mecânicas, não há vida. Pelo contrário, alguém decidiu que não valia a pena viver e se matou, mas lemos o penúltimo verso em uma velocidade absurda que silenciamos a violência.

A tensão entre o eu e o mundo aumenta entre 1940 e 1942, quando lança, respectivamente, Sentimento do mundo (poesia social) e José (poesia subjetiva). Nessas duas obras, a poética de Drummond parece se cobrar, ora para ser subjetiva, quando é social, e ora para ser social, quando é subjetiva. O eu lírico nivela esta instabilidade ao processar o fato (matéria que vem da sociedade) com o objeto poético (poema). (Cândido fala ainda sobre a inquietude do fazer poético, no qual há vários poemas em que o eu lírico se mostra em tensão com a escrita.)

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Tanto na poesia social quanto na subjetiva, é possível perceber uma sufocação do ser, nos termos do Cândido, justamente por essa inadequação em aderir à vida. Aqui em “Confidência do Itabirano”[2] de Sentimento do mundo, essa sufocação aparece em forma de medo, paralisia: “A vontade de amar, que me paralisa o trabalho” (grifo meu).

Alexandre Pilati, em A nação drummondiana, aponta para um eu lírico reflexivo[3], ou seja, seu interlocutor é um espelho, ele mesmo. Aqui, quem teve ouro, gado e fazenda, em uma interpretação biográfica, seria o próprio poeta. No final, Itabira, sua cidade natal, é apenas uma fotografia na parede. Drummond-eu lírico parece se cobrar por ter sido cordial, nos termos de Sérgio Buarque de Hollanda, e confronta a si mesmo no poema.

Em José, a poética subjetiva cresce, mas nunca esquecendo totalmente do social. Aquela sufocação que falamos acima reaparece, mas de outra forma: se lá em Sentimento do mundo ela se realiza materialmente no poema em forma de medo, paralisia, aqui aparecerá através da violência física, decepando a mão, que alegoriza o mau, o sujo.

Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.

A princípio oculta
no bolso da calça,
quem o saberia?
Gente me chamava
na ponta do gesto.
Eu seguia, duro.
A mão escondida
no corpo espalhava
seu escuro rastro.

E vi que era igual
usá-la ou guardá-la.
O nojo era um só.

(…)

Eu era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
– o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.

(“A mão suja”, José)

Em 1945, talvez o livro síntese da obra drummondiana, Rosa do povo, vem a público. É a obra mais engajada de Drummond e surge em um contexto de fim da 2ª Grande Guerra e fim da ditadura de Vargas, na qual o poeta se beneficiou com a estabilidade de um emprego público. No entanto, sempre que falamos em engajamento, é preciso ter o cuidado para duas coisas: a) segundo Adorno, ver se o objeto estético não prega para convertidos, em uma espécie de transitividade literária em um circuito fechado que, naturalmente, não serve para mudar muita coisa; b) engajado para qual classe social? Certamente a obra de Drummond não é (tão) acessível às classes baixas, o que, para mim, dificulta a alcunha de engajado, pelo menos em parte.

De toda maneira, é certamente o mais político de Drummond até então. O famoso poema “A flor e a náusea” explicita certos pontos desse engajamento, além de recuperar a sempre presente tensão do eu lírico x mundo.

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso sem armas revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

O poema começa com a tal incapacidade de aderir à vida. O eu lírico está preso à sua classe (social, provavelmente, mas ainda seria possível pensar na classe humana, em uma interpretação então mais existencial). Aqui já temos dois elementos importantes. ‘Preso’ diz respeito a ele enquanto indivíduo (subjetivo). Mas está preso a uma ‘classe’, que fala sobre uma parte da sociedade (social).

 Há, no último verso, a flor, que embora feia, é forte o suficiente para furar o asfalto (símbolo de modernidade). O desafio socialista. Ficam algumas perguntas: com quem ele fala? a quem ele cobra? De novo o eu lírico reflexivo pede certo cuidado. Seria novamente o seu próprio interlocutor ele mesmo, cobrando-se pela passividade política, então chamando-o à luta? Drummond, como é sofisticado, requer alguma atenção.

Em Rosa do povo, as mazelas sociais causam o conflito que vira objeto poético, como nos outros livros, mas aqui, no entanto, o sentimento de culpa é justificado pelas assimetrias próprias da sociedade. O peso sobre as costas do eu lírico é aliviado, talvez trocado pelo engajamento.

Drummond social ou subjetivo, político e engajado, consolidou-se como um dos principais, senão o principal poeta do século 20. Sendo um intérprete do país assim como foram outros grandes da literatura brasileira, a poética drummondiana absorve a violência típica do Brasil e nos convoca à reflexão de nossos mais elementares problemas.

Rodrigo Mendes

Referências

CÂNDIDO, Antonio. “Inquietudes da poesia de Drummond” In.: Vários Escritos.

PILATI, Alexandre. A nação drummondiana: quatro estudos sobre a presença do Brasil na poesia de Carlos Drummond de Andrade.  Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.

ARRIGUCCI JR., Davi. “Humor e sentimento” In.: Coração partido. São Paulo: Cosaf Naify, 2002.

TEIXEIRA, Jeronimo. Palestra “Drummond cordial” In.: Festival de inverno (9ª edição, 2017).

ADORNO, Theodor. “Engagement” In.: Notas de literatura. Tempo brasileiro: Rio de Janeiro, 1991 (2ª edição).

 

[1] Pelo menos desde Machado, a partir da interpretação de Roberto Schwarz, é possível perceber que a literatura brasileira está assentada em contradições formativas. À época de Machado, idéias liberais e escravidão não se repeliam, mas conviviam juntas. No início do século 20, os modernistas apontaram para a contradição entre a rápida modernização de São Paulo e os arcaísmos de parte daquela sociedade que não estava integrada à modernização. Também os romancistas de 30 abordaram essa tensão, mas somando-a às contradições próprias do ambiente rural em relação à cidade. Acontecerá o mesmo com o tropicalismo nos anos 60.

[2] (Alguns escritores, como Drummond e Guimarães Rosa, escreveram em cima de uma dicção própria de suas regiões. É interessante escutar o poeta recitando este e outros poemas: percebe-se o acento peculiar, a maneira de recitar, o sentimento do poeta.)

[3] Caso alguém se interesse, Walter Garcia aponta para o mesmo mecanismo em João Gilberto.

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