Sobre o filme “Três anúncios para um crime” e o machismo

Assunto em voga nos últimos anos, com peso forte nas últimas edições da Academia com protestos frequentes de atrizes reivindicando seu lugar e denunciando abusadores na indústria cinematográfica, o machismo é o centro em 3 anúncios para um crime (2017). O filme de Martin McDonagh se baseia, de longe, num fato real (os outdoors denunciando a falta de empenho/omissão da polícia para resolver um caso de estupro seguido de feminicídio), e de resto é construído originalmente.

O enredo girará em torno da sempre boa Frances McDormand como Mildred – cujo papel faz ecoar, impossível evitar, a Francis da grande atuação de Fargo (1996), dos irmãos Coen, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Oscar da ocasião – e sua luta, através de ações diretas constantes (de divulgação com os outdoors até queimar a delegacia local) em busca de justiça.

O filme tem como pressuposto uma sociedade racista, machista e lgbtfóbica, com o ideal de manutenção e não mudança do sistema vigente, típico a uma cidade do sul dos Estados Unidos (até onde lembro é essa a geografia do filme). A luta das/os negras/os contra o racismo e abuso de poder da polícia são laterais no filme, e portanto me deterei no machismo. Colocando a) uma protagonista mulher, forte, que cuida da família sozinha (filha e filho) diante do abandono do pai, cuja contribuição é uma pensão e b) ser protagonista de um enredo que tem como foco uma situação limite do machismo – estupro seguido de morte, e a cobrança por justiça, colocariam o filme como, digamos, apoiador à luta das mulheres.

Contudo, esse combate se dá no plano da história, do enredo, portanto, estamos falando de seu conteúdo. Em sua forma, na maneira como o filme se estrutura (principalmente no que diz respeito à construção das personagens, que sofre a influência de um princípio estruturante da sociedade patriarcal: o machismo) é possível vê-lo impregnado ali. Pra começo de conversa, a protagonista, pra ser forte do jeito que é, é retratada de maneira “masculinizada” (aqui colocamos todas as aspas possíveis já que me refiro ao olhar comum machista que constrói as identidades de gênero, sendo esse um dos problemas do filme). Outros pontos: a atual namorada do ex marido da Mildred é construída de maneira ridícula, com dúvidas imbecis (“é pólo ou polio o esporte dos cavalos?”), além de posturas infantilizadas o tempo todo, como errar a ortografia de uma palavra etc.; a briga que antecede o gatilho do filme indica como culpada a mãe, Mildred, repetindo então todo processo costumeiro de culpa à mulher.

Nessas ambivalências, que são típicas da sociedade, caminha o filme. Uma última nota sobre o filme: o possível culpado pelo estupro e assassinato da menina é um agente do exército americano, o que leva a uma impossibilidade calculada nas investigações e na sua final irresolução. Traz para o debate, então, a quantidade de crimes cometidos por militares e na sua absolvição. Nem preciso dizer que isso se relaciona facilmente com as estruturas militares ao redor do mundo, principalmente aqui no Brasil, com a quarta maior população carcerária do mundo e com uma polícia que mata à revelia. Com isso, o diretor acerta no final, sugerindo novamente uma ação direta fora do campo da justiça institucional, que busca mudança efetiva na sociedade. Acerta porque não resolve o caso, mantendo fidelidade à realidade de milhares de crimes mal resolvidos; e ao sugerir, evita aquele final feliz catártico, que imobiliza. Um bom filme com uma grande atuação, que deu merecidamente o segundo Oscar pra Frances McDormand.

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