A questão da morte no filme ‘A partida’, de Yojiro Takita

“Morte: a mortalidade exigida pela duração do tempo”, nos ensina Levinas em uma de suas reflexões acerca da morte. Isso nos dá uma exata dimensão da existência, ou seja, o caminhar humano medra-se pelo encontro com o precipício inarredável, a morte. Nesse encontro o tempo faz sentido. Faz-se sentir. No filme “A partida” de Yojiro Takita a questão da morte conduz a trama. Interessante perceber que a temática da morte é ambígua, pois se é quase um clichê quando tomado em uma percepção imediata, de outro lado, assombra o humano com sua decisão desconhecida desde o nascimento até um seu encontro final, inevitável, preciso e não.

A dimensão que gostaríamos de pensar a partir desta película esta aliada ao próprio título do filme, ora, em verdade, quando lemos “a partida” podemos pensar em diversas maneiras de compreensão que também nos permitem outro número de possibilidades para buscar o entendimento sobre a morte. Assim, “a partida” pode ser entendida em sua literalidade, como o ato de partir, de sair de um local para outro, sem contar que o sair e o chegar confundem-se em uma e mesma coisa quando estamos, por exemplo, em uma estação. Também nos dá a compreensão de partir algo, ou seja, nos dá a ideia de cisão. “A-partida” também denota, se quisermos, algo sem partes, essa acepção só nos mostra possível interpretando a partícula negativa “a” antes da ideia de partir. Há ainda a condição de pensarmos “partida” como uma disputa, em nosso caso, uma guerra entre o ontem e o hoje, e mais próximo da morte, o que virá.

Quando a morte vem – e com ela a ideia da luta – entre o fim de algo conhecido e o início de uma impossibilidade. O tempo dito por Levinas aqui pode ser compreendido na disputa entre pretérito e futuro – mas em que tempo vivem os mortos? Há tempo para a morte? Morrer é o fim do tempo? Início de outro? Nessa senda, a morte também pode ser entendida como esse sentimento de sair de um local e ir para outro, mesmo que desconhecido. Assim como para sair de um local há uma espécie de corte, ruptura, a morte como ruptura de um continuum que marca exatamente a noção de tempo. Ao mesmo tempo, quando pensamos na morte como algo relativo ao nada, estamos a equivaler à ideia de um lugar inócuo, sem partes definidas, homogêneo, talvez como o branco dos cegos do ensaio de José Saramago.

Quando Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) vê ser dissolvida a orquestra em que atuava como violoncelista, ocorre a primeira partida, que culmina em seu retorno para o interior em que vivia. Ao chegar inicia um trabalho como uma pessoa que cuida dos corpos aquando da morte. Essa é uma prática tradicional no Japão, e que mostra um conflito temporal: o tempo dos antigos versus o tempo dos modernos. Ora, cuidar do corpo é uma maneira de enxergar a vida de outra maneira, menos servil e capital, com mais plenitude de tempo, com menos “liquidez”. O tempo de um Japão tradicional – que é um tempo próprio – é confrontado com um tempo moderno em que determinados esmeros se perdem na espuma pesada e leve do tempo.

A despedida da vida. O brinde com a morte. Em uma espécie de atuação como o velho Caronte, Daigo e seu chefe transformam em arte aquilo que por vezes assombra. Realizam diante dos familiares a recomposição de uma beleza que ao mesmo tempo, não tem vida e celebra a vida. A beleza torna-se infinita nas lembranças bonitas que se constituirão a partir desse novo tempo, dessa passagem, uma travessia abonitada pelas mãos cuidadosas desse novo tempo. Longe da fluidez que encara a morte como ruptura e tão somente, a película nos transporta para um local em que a morte é inauguração de uma relação de alteridade que se realiza em sua totalidade. O outro, como nos diz Levinas, ao se mostrar pelo rosto do morto, nos responsabiliza por ele, por toda a sua existência. A quietude do rosto que se expressa na morte causa uma inquietude que se converte na responsabilidade ética que assumimos desde nosso primeiro encontro com o outro, que nos concebe, por meio do qual nossa vida acontece. A morte então é a responsabilidade final e inicial. Inaugura o eu pela face do outro, e essa dimensão do não saber cria um tempo do imaginar, da fé, da esperança e como dissemos, da responsabilidade infinita que essa face sem vida nos constitui. A beleza criada pelos artesãos do post mortem alenta aquilo que é característico da morte: sua tragédia, seu inevitável e seu desconhecimento. Morrer pelas mãos de Daigo ressoava como um passo ao infinito, igual ao tempo que se percebe pela morte e que é um tempo infinito que é o da música que nunca deixou de tocar enquanto Daigo tocou o mundo, sem fim.

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