Vícios na escrita

Eles são tantos. Muitos. Diversos. Numerosos. Tormentosos em algumas situações. Afligem a quase todos. Por mais que se busque fugir, muitas vezes não há escapatória, principalmente quando se leva em conta que o caminho que leva a isso é um costume guiado pelo inconsciente. Está lá, impregnado na mente, no agir, sendo que pode acabar permanecendo desconhecido por aquele que o possui. O vício acaba se externalizando sem que seja percebido. Aparece sem ser notado. Quem o pratica não se dá conta de quando, onde e por quais motivos ele surge. Mas sempre surge. Sempre aparece. Sempre dá as caras. Isso não é muito diferente quando se conhece previamente sua existência, pois livrar-se de vícios é uma empreitada um tanto quanto trabalhosa para qualquer pessoa. A luta para superá-los é árdua. Tem-se todo um trabalho de persistência pela frente quando um vício é descoberto e se opta por sua superação. Por mais que se tome os cuidados devidos, espontaneamente o vício surge numa linha, num parágrafo ou até mesmo no texto todo. Algo que por tanto tempo fez parte de alguém, dificilmente será suprimido após algumas poucas tentativas. Mas é possível a superação. Difícil, mas não impossível. Insistência é o mote após a descoberta da coisa. A ciência do vício é o primeiro passo. Os próximos não precisam seguir necessariamente uma ordem específica, mas devem estar presentes alguns principais que são indispensáveis, como a releitura para buscar o vício ali presente, a atenção prévia ao escrever e a tentativa de compreensão sobre o motivo dele surgir durante o ato da escrita. O exercício de superação deve ser uma prática constante, visando o ‘foi’ no lugar do ‘é’, o ‘tinha’ no lugar do ‘tenho’. De qualquer forma, a percepção, a constatação, o dar-se conta do vício acaba sendo a parte mais difícil, uma vez que deve surgir, por alguma razão qualquer, algo no interior da pessoa que faça com que note aquilo que até então se tratava de coisa normal, não viciada, sem erro. Não que um vício seja necessariamente sempre um erro, pois as vezes ele pode receber contornos de característica, de peculiaridade, de estilo. Mas ainda assim, há de ser percebido para que possa transparecer concretamente, possibilitando sua observação para uma interpretação e possível superação.

Está a se falar sobre os vícios na escrita. Não necessariamente aqueles vícios de linguagem, tais como o pleonasmo, a ambiguidade e o barbarismo. Podem também ser estes entendidos como pertencentes àquilo que aqui se trata, mas os vícios dos quais se diz se situam num nível mais abrangente, mais geral, menos específico. Diz-se daquilo que soa estranho aos olhos de terceiros. Após um texto escrito, por mais que relido por seu autor, os vícios podem não ser aparentes, pois, como já pontuado, tratam-se de parte de algo maior – o costume pertence ao todo que é o autor. Daí que a sensação de estranheza, de que há algo incômodo no texto, acaba muitas vezes passando despercebida quando vista por seu autor. Lembre-se que não está a se falar de um erro aparente como a ausência de uma necessária pontuação em determinada parte do texto ou de uma grafia incorreta. Não que isso muitas vezes também acabe passando sem ser notado, mas nesse tipo de situação, numa (re)leitura mais criteriosa consegue se captar aquilo que se aparenta mais concretamente. Aqui se diz do vício, ou seja, algo que é praticado reiteradamente pelo autor em seu processo de escrita, de modo que por mais que sejam feitas leituras e releituras sobre o próprio texto, a coisa permanece invisível aos olhos de seu responsável. É aí que entra a importância do julgo crivo de um terceiro, quando o imperceptível passa a ser visível, o escondido se aparenta, o ofuscado resplandece. Um leitor, que não o autor, lança novas luzes sobre aquelas linhas escritas. Para além do subjetivismo que enseja numa interpretação e leitura própria sobre os possíveis significados daquela escrita (caso assim se permita), há a análise, intencional ou não, objetiva do conteúdo, estabelecendo-se um olhar livre de vícios – não de todos, pois cada leitor possui seus próprios vícios, mas diferente daquele mesmo do autor. Não que não possa ocorrer uma situação em que o vício do leitor acabe sendo o mesmo do autor, ocasião em que a constatação da peculiaridade daquele hábito poderá não ocorrer, mas é esse um caso com bem menos chances de acontecer do que aquele em que os vícios são diferentes, possibilitando ao leitor a observação daquilo que passou despercebido pelo autor. É na leitura feita por um terceiro que o vício pode ser apontado. É como se um desconhecido que vive sob o mesmo teto do autor lhe fosse finalmente apresentado. O leitor pode apontar para algo que sempre esteve ali, mas que o autor jamais havia se dado conta. Esse terceiro pode retirar o manto de invisibilidade que cobria aquele hábito desconhecido. Expõe-se uma característica até então desconhecida, demonstrando-se que existe algo ali que pode surtir algum efeito incômodo em outros leitores. Assim sendo feito, compete ao autor analisar a questão e se comprometer com uma possível mudança – caso a superação seja necessária. Essa constatação por um terceiro e a consequente apresentação do vício ao autor acaba sendo condição de possibilidade para que o primeiro passo para uma suplantação seja possível e venha a ser dado.

Os vícios na escrita podem ou não ser aparentes num primeiro momento. Em alguns casos, até mesmo a leitura do texto feita por terceiros requer uma maior atenção e inclusive algumas releituras para que o hábito peculiar do autor passe a ser perceptível. Como também já pontuado, o vício pode ou não constituir um erro. Muitas vezes aquilo que é considerada uma característica ruim na escrita é visto como estilo quando presente no texto de determinado autor. São casos e casos, situação e situações, bem como interpretações e interpretações. Seja como for, fato é que os vícios na escrita existem – e aos montes. No presente texto, por exemplo, é possível que algo tenha passado despercebido pelo autor, podendo vir a ser esse algo um erro ou um vício. Eventualmente, somente a partir da leitura de terceiros é que isso acaba se demonstrando perceptível, pelo que o autor clama para que seus vícios sejam apontados, pois intenta conhecer o desconhecido – que assim o é por descuido ou pela impossibilidade de enxergar o que para si é invisível.

Os vícios na escrita, eles podem ser muitos. Que os ocultos sejam desvelados!


Fonte da imagem:

http://www.blogdapapelaria.com.br/wp-content/uploads/2017/05/vicios-de-linguagem.jpg

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