OBRA DE ARTE DA SEMANA: Os comedores de batatas, de Van Gogh

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VAN GOGH, Vincent. The Potato Eaters, 82 cm x 1,14 m, 1885.

A garotinha nos dá as costas, como se estivesse prestes a arrastar a cadeira e se juntar à família. A senhora, à direita, serve o café em pequenas canecas, enquanto o senhor, possivelmente seu marido, sorri agradecendo o café que o aquecerá ou pedindo para beber mais um pouco. No lado esquerdo do quadro, marido e esposa apanham os talheres para se servir. Esta é a cena de Os comedores de batatas, de Van Gogh, de 1885.

Junto à família, a luz é uma grande personagem. Ela emana do alto, da suave flama do lampião, distribuindo luz e sombras bruxuleantes. Essa luz torna o ambiente aconchegante, ao mesmo tempo em que reveste de doçura e uma leve melancolia o ambiente. Há certa solenidade, tanto do olhar do espectador, quanto do próprio artista: pois adentramos em um ambiente íntimo humildemente, pedindo desculpas pela intromissão.

Em vez dos ambientes íntimos das casas iluminadas burguesas, onde menininhas tocam ao piano enquanto as mulheres costuram e o pai toma um café à mesa, a família que Van Gogh mostra é a operária. Possivelmente trabalhando em fábricas, minas de carvão ou no meio rural. O cuidado da pincelada de Van Gogh é rivalizar a delicadeza da reunião familiar com a rigidez de sua condição social.

Na mesa há muito pouco, o café é para esquentar na noite fria, a luz é fraca e há pouca comida para cinco pessoas. Além disso, usando o marrom esverdeado, Van Gogh acentua as rugas das mãos exaustas do trabalho, e os rostos que possuem esse mesmo cansaço pelas horas de ofício. A felicidade da reunião simples entre a família consiste no sentido do lazer como uma pausa. A tão aguardada pausa que os dignifica, que permite um respirar de próprio ritmo, não mais no ritmo do trabalho.

Em todo o cenário, Van Gogh escolhe em mostrar alguns objetos que circundam a família, como um bule, relógio, itens de cozinha, e as janelas. A casa possui poucos adornos e o único tom de marrom demonstra essa simplicidade. Para compor a luz, em vez de trabalhar com o método clássico, Van Gogh reveste os personagens com o mesmo tom. A luz é apresentada quando o pincel acrescenta branco no contorno da garotinha; na mancha amarela na bochecha da mãe; e no amarelo claro como gotas nas bochechas do casal de idosos. Nas vestes há amarelo em detalhes pontuais, e a única presença do azul brilhando no braço do homem que faz o gesto para o prato central.

A escolha pela cor de terra possuía o objetivo de remeter à batata, a única comida da qual os personagens se servem, “algo como a cor de uma batata realmente empoeirada, com casca”, escreveu o artista. A pintura de Van Gogh recebeu críticas, inclusive uma nota na época, onde ressaltava-se a anatomia incorreta, a imperfeição técnica. Contudo, os personagens de Os comedores de batatas carregam a simplicidade de uma classe, expressões e costumes que remetiam ao trabalhador do século XIX. Há algo dos personagens de Dickens nos traços das figuras de Van Gogh, de pessoas que seriam vistas como marginalizadas. O que o trabalho do artista faz é revelar não apenas o ambiente íntimo de uma família, mas um ambiente que prefere-se não notar que existe.

A solenidade no gesto dessa família é a humanidade que Van Gogh ressalta. É como se o artista tornasse sagrada aquela mesa onde só há batatas. Se para os críticos tratava-se de alguma incongruência anatômica, Van Gogh apresenta personagens inteiramente ligadas à terra, tanto em embate com essa terra que os enche de pó quanto a terra da qual provém seu sustento, uma relação com a natureza e com o campo que já começa a sofrer alterações quando a cidade passa cada vez mais a representar o capital.

Além disso, seus personagens são providos de enorme vivacidade. A esposa que olha com admiração e amor para o marido. O olhar dele, plácido, distraído e um tanto melancólico, para o prato, quase como se estivesse prestes a suspirar com alívio ao botar a primeira garfada na boca. O senhor que parece reavivado pelo calor do café, a esposa dispondo com carinho a bebida quente. A garotinha que não vemos o rosto parece se aliar harmonicamente à delicadeza da cena. E mesmo a chama que ilumina a cena parece viva, movendo-se ao mesmo tempo em que o gesto dos personagens é lento e cerimonioso.

O detalhe mais importante da obra, porém, é que Van Gogh não abandona a gravidade das condições em que essa família vive. Ele equilibra o lado frio, assombreado e pesado que circunda a família, enquanto a ilumina de forma tímida no que seria o único instante de descanso ao qual a família tem certo direito. Van Gogh, por ter escolhido ver a vida rural como um tema para a pintura, na sua busca pela natureza e a vida rústica, acaba por perceber muito mais da vivência dessa classe. E consegue expor a universalidade sagrada no gesto de um talher e de um café que escorre para a caneca, de uma mesa simples, alimentada pela terra.

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