O acaso no filme ‘360’, de Fernando Meirelles

“Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião, o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração.” Chico Buarque

Nosso olhar hoje esteve em relação com o filme 360 de Fernando Meirelles, que além de nos fazer passear pelo nosso entorno, fazendo com que nos encontremos conosco, traz também uma trama que espreita as escolhas que diuturnamente somos obrigados a fazer, mas que não temos a menor possibilidade de prever as relações que elas irão trazer e as estradas que iremos trilhar a partir do rumo tomado. Os encontros e desencontros com que as escolhas nos criam, e ainda, as consequências de nossa vida trazidas pelas escolhas alheias são alguns, ou talvez, os melhores momentos que este filme nos empresta. Temos uma interessante mostra de cidades como Paris e Londres, conexões que as cidades não têm, mas que as pessoas que as inscrevem na história acabam por estabelecer. Vidas que se cruzam, mas que não se pretendiam cruzar. Cheiros que se misturam e que não mais se irão evaporar.

Uma prostituta que tentou ser modelo fotográfica foi modelada pelas escolhas do seu fotógrafo, aliciada, na verdade. A irmã, quase uma Ismênia pós-moderna, não é nada e é tudo ao mesmo tempo, ela não fazia escolhas diretas, ao menos até então. Havia também um casal com um pai de família bem-sucedido e que de tanto trabalhar para ser bem sucedido deixou de ser um bom pai e bom marido. Na mesma trama havia um fotógrafo imigrante que se relacionava com a esposa do marido que deixou de ser um bom marido. O fotógrafo tinha uma namorada que trouxera do Brasil – Maria Flor – que além da beleza, mostrou ali alguns dos problemas que acontecem com imigrantes sonhadores em uma Inglaterra sombria pelo clima e pelas relações interpessoais, ou mesmo pela falta delas. Em outra trama, uma ex-alcoolatra casara-se com um “capanga” de um bem-sucedido empresário. O capanga escolheu ser um bom capanga, perdeu a esposa que se apaixonou pelo seu chefe, chefe que depois escolheu despedir a funcionária, ele escolheu seu trabalho. O romance deles estava a atrapalhar seu rendimento. Escolhas suas e dos outros, rumos seus ou dos outros?

Dentro de todas essas vidas em exposição, o diretor de maneira magistral captou a essência do acaso que nos conduz. A necessidade de reconhecer que nossas escolhas só são realizáveis concretamente em relação com as escolhas alheias, e daí em diante a fortuna do tempo e a poeira do vento se encarregará em conduzir-nos. De alguma forma é um jeito de mostrar que a exatidão que buscamos, a previsão que imaginamos fazer é apenas uma das engrenagens que nos irão moer e dar-nos como resultado de nós mesmos enquanto história, tragédia. Nesse contexto, a história sai do trono da arrogância racional e moderna e nos entrega a um turbilhão de vicissitudes que são completadas pelo olhar do outro, que além de nos completar, de nos inscrever no mundo, são a própria condição de nossa existência.

Vestir-se com nossas escolhas é o que nos resta – até que o encontro nos faça perceber que toda aquela vestimenta não passa de uma fantasia que dura o trágico instante do próximo passo, do próximo olhar e da próxima esquina. O acaso nos abraça e não nos deixa nunca mais, acalenta nossos passos de maneira sorrateira. Isso tudo enquanto pensamos estar a conduzir nosso caminho. Talvez imaginar a existência seja nossa única saída, ao menos enquanto sonhamos a realidade pode ser mais bela, ou talvez, menos trágica. Tragédia que caracteriza todos os encontros. Mas será que nossa imaginação também não se encontra com o outro? Correr não adianta, pois na roda da vida, o que nos sobra é uma espécie de escravidão, como num círculo infinito que não nos avisa quando começamos a escolher e quando começamos a ser escolhidos. É mesmo de muita lucidez do diretor escolher 360 para narrar estas estórias reais do humano, ora, os gregos tinham o círculo como a figura mais perfeita e é exatamente nele que nossa errância se nos mostra enquanto realidade. Também Platão, grego por excelência, em seu Banquete conta que existiriam os andróginos, seres que possuíam uma forma circular e que carregavam as características do masculino e do feminino e por isso mesmo tinham muita força e se tornaram arrogantes diante dos deuses, o que os levou a cortarem os andróginos em dois e daí nasceu o sonho do amor – o sonho de encontrar sua metade. Busca que de alguma forma rege a sinfonia dissonante da história humana, mas que depende das escolhas que sua metade irá fazer: encontrá-la ou padecer à sua procura: está aí a tragédia circular de Fernando Meirelles, 360, 360, 360…

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