Entenda a diferença entre horror e terror

Geralmente as duas palavras são praticamente utilizadas como sinônimos, sendo que a palavra “terror”, em português, é até mesmo frequentemente utilizada como tradução para “horror”, por exemplo, quando no inglês temos a expressão “horror movies”, a qual costuma ser traduzida como “filmes de terror” em português. Porém, apesar disso, há diferenças entre os gêneros do horror e do terror, ainda que ambos possam, e em geral costumem, integrar as mesmas obras em diferentes momentos narrativos.

Então, qual a diferença afinal? No ensaio On Supernatural in Poetry, de 1826, a escritora Ann Radcliffe faz a seguinte distinção:

“Terror e horror são tão opostos que o primeiro expande a alma, e desperta as faculdades a um grau elevado de vida. O outro as contrai, congela e quase as aniquila” (RADCLIFFE,1826, pp. 145-152)

Ou seja, se o terror expande a alma e desperta as faculdades, podemos entendê-lo como sendo relacionado ao medo do desconhecido, aliás, o mais forte e mais antigo medo da humanidade, de acordo com Lovecraft (1927). Portanto, o medo do desconhecido costuma ser uma sensação referente a algo, alguém ou algum evento, ainda não ocorrido ou não encontrado, ou seja, cuja iminência se mostra presente na mente do personagem, de forma a permear a atmosfera da narrativa, o que faz do terror um gênero mais conectado ao medo psicológico.

Já o horror, segundo Radcliffe, contrai, congela e quase aniquila as faculdades humanas, pois é causado por algo que nos choca, algo a qual ficamos sem reação, congelados no tempo, horrorizados: o que em geral é causado pelo vislumbre de algo horrendo, graficamente assustador, seja no outro ou em si mesmo, o que pode ser relacionado a abnormalidades físicas repentinas, como mutilações, ações de violência extrema, cenas de carnificina que causem repugnância. O horror é causado pelo choque do qual não se pode retornar, enquanto que o terror é o estado de alerta a temer a possibilidade do horror.

Noël Carroll diferencia ainda o que ele chama de art-horror do horror natural, afirmando que em art-horror o horror é produzido na arte, no cinema e na literatura, com o propósito de causar uma sensação, de construir uma estimulação estética, enquanto que o horror natural é aquele que pode ser causado por eventos reais assustadores, como ataques terroristas ou assassinatos. Carroll também se debruça sobre a distinção de art-horror e do terror psicológico: para Carroll, art-horror é produzido por obras em que há um monstro o qual causa medo e repugnância devido ao seu aspecto abnormal, enquanto que, em outras obras, como os contos de Poe ou filmes de Hitchcock, como Psicose, o que temos é o efeito “de arrepiar os cabelos por meio da exploração de fenômenos psicológicos extremos (CARROLL, 1987, p. 52, tradução minha).

Vejamos abaixo alguns exemplos de quando temos terror e de quando temos horror no cinema.

Nos filmes do gênero conhecido como slasher, em que geralmente um assassino persegue vítimas e as mata sequencialmente, temos terror e horror em momentos distintos. Por exemplo, em Jogos Mortais, quando é anunciado que as vítimas terão que participar de um jogo misterioso para sobreviver, este é o momento de terror. Já quando vemos os personagens sangrando, sendo mutilados das formas mais grotescas, tudo isso é puro horror.

Já em um filme como O Iluminado, temos muito mais a presença do terror, ao presenciarmos o protagonista enlouquecer isolado no hotel e tentar matar sua família. O horror se manifesta nas cenas de violência e na cena em que Jack Torrence presencia uma mulher de aparência repugnante em um cômodo.

Em filmes com elementos sobrenaturais, como Invocação do Mal, as cenas em que os personagens presenciam tópicos sinais de assombrações, como barulhos ou movimentos suspeitos, tudo isso é terror. No entanto, quando a criatura se revela, seja possuindo algum personagem ou aparecendo em sua forma própria, isso já é horror.

Vejamos agora onde temos terror ou horror na literatura. Comecemos pela obra de Edgar Allan Poe, na qual temos, em geral, mais a presença do terror do que do horror.

[ATENÇÃO: SPOILERS]

Em O Coração Denunciador, toda a atmosfera perturbadora do conto envolvendo o protagonista que afirma sua sanidade, mas planeja um assassinado aparentemente sem motivos reais, isso causa tensão, isso é terror. Porém, a cena em que ele esquarteja o velho e esconde o corpo é de horror.

Em Berenice, toda a narrativa passa uma tensão devido à obsessão exacerbada do protagonista pelos dentes da prima. O final do conto, porém, fecha o enredo com uma cena chocante de horror, em que vemos o corpo da jovem com a boca sangrando, pois seus dentes foram arrancados.

Já no poema O Corvo não há qualquer elemento de horror, mas a atmosfera sombria e o mistério do animal vindo da noite chuvosa repetir “Nunca mais”, as palavras de despedida do narrador com sua amada e falecida Lenora, criam uma tesão que pode ser considerada terror.

Em Frankenstein, de Mary Shelley, o terror manifesta-se no fato de um ser humano ser capaz de criar vida através da ciência, que foi quando o terror uniu-se à ficção científica, questionando até onde a ciência pode chegar, atravessando limites entre vida e morte. Já o horror aparece quando temos a descrição da criatura, de suas feições repugnantes, resultado de um experimento científico considerado fracassado por Victor Frankenstein, o qual utiliza pedaços de cadáveres para criar vida, porém acaba horrorizado com o ser gerado, devido ao seu tamanho desproporcional seu aspecto grotesco.

Em Drácula, de Bram Stoker, durante maior parte da narrativa temos uma atmosfera sombria, em que um jovem vai a um castelo distante, onde mora um homem misterioso, de hábitos peculiares. Toda essa expectativa repleta de aflição que permeia o romance é terror. Quando eles descobrem a presença dos vampiros e temem ser atacados, também temos o elemento do terror, pois ainda estamos no temor do ataque, o ataque em si, que causa o horror, ainda não ocorreu. Podemos afirmar, então, que o terror em Drácula é o elemento principal. Porém, quando a personagem Lucy é transformada em vampira e aparece mordendo crianças no cemitério, temos a manifestação do horror, assim quando ela é decapitada.

Resumindo: terror é relacionado ao medo psicológico, à ameaça de perigo, à aflição, ao temor, enquanto que o horror ocorre quando temos uma repulsa a algo grotesco, quando há algo mais gráfico, geralmente envolvendo sangue, violência, ou até mesmo cadáveres ou pedaços de corpos desmembrados, é quando a expectativa do terror já foi superada, e não há mais nada a ser feito: os sentidos, antes aguçados, em alerta, ficam então congelados, sem reação perante o horror presenciado ou vivenciado.

Bibliografia:

CARROLL, Noël, The Nature of Horror, 1987, In: The Journal of Aesthetics and Art Criticism
Vol. 46, No. 1, pp. 51-59. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/431308

LOVECRAFT, H.P, Supernatural Horror in Literature, 1927, disponível em https://www.hplovecraft.com/writings/texts/essays/shil.aspx

RADCLIFFE, Ann, On Supernatural in Poetry, 1826, New Monthly Magazine volume 16, no. 1., pp. 145-152. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/208925/On%20Supernatural%20in%20Poetry%20%28Ann%20Radcliffe%29.pdf?sequence=1&isAllowed=y

RADCLIFFE, Ann, Do Sobrenatural na Poesia, trad. Marcos Balieiro, 2019, In: Prometheus, no. 31, pp. 253-267.

4 comentários sobre “Entenda a diferença entre horror e terror

  1. Sempre imaginei que TERROR estivesse relacionado com atos Terroristas – Políticos que provocam eventos de carnificinas, de mortes violentas e etc. Por exemplo: Os homens bombas, o Ataque nas torres gêmeas, as decapitações dos cristãos praticados pelo estado Islâmico. Tanto que quem pratica tais atos são chamados de terroristas e não de “horroristas”. No presente texto este aspecto sequer foi abordado. Antigamente os gibis que apresentavam histórias do sobrenatural, fantasmagóricas eram chamados de Histórias de Horror.

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  2. Por acaso gostava de saber porque em Portugal optaram por escolher o nome ‘terror’ em vez do ‘horror’ para os respetivos filmes. O ‘horror’ é usado nos países anglo-saxónicos.

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