OBRA DE ARTE DA SEMANA: Midvinterblot (Sacrifício do Solstício de Inverno) de Carl Larsson


Carl Larsson, Midvinterblot (Sacrifício do Solstício de Inverno), óleo sobre tela, 640 cm X 1360 cm, 1915. Conservada no Nationalmuseum, em Estocolmo, Suécia.

Essa imensa pintura do artista sueco Carl Larsson mostra o sacrifício de um dos primeiros reis da Suécia, o semilegendário Domaldi, que teria ocorrido no século VII ou VIII, como descrito na Ynglinga Saga, na Edda Poética do islandês Snorri Sturluson, importante fonte para o estudo da mitologia e sociedade escandinava pré-cristã. É interessante notar que os sacrifícios humanos ocorriam na religiosidade nórdica, entretanto, eram circunstanciais e geralmente os sacrificados eram pessoas de menor importância, tais como criminosos e escravos, e em menor escala a pessoas de fora da sociedade, por exemplo, prisioneiros de guerra. Esse tipo de sacrifício público ocorreria em grandes festivais, tais como aquele do Solstício de Inverno, no meio do inverno, relacionado à fertilidade. Aqui, conforme conta Sturluson, o rei estaria sendo sacrificado para apaziguar os deuses e assim terminar com o ciclo de más colheitas, ou seja, literalmente se sacrificando pelo bem do seu povo.

Quando a obra foi realizada – obra de tema muito diferente da maioria daquelas realizadas anteriormente peloo artista, que mostram leves cenas cotidianas da época-, Larsson havia acabado de finalizar uma pintura mostrando a entrada gloriosa do rei Gustav Vasa da Suécia em Estocolmo para o Museu Nacional, em Estocolmo, e resolveu criar um pendente, sem nenhum concurso aberto pelo museu, mostrando um dos primeiros reis suecos se sacrificando por seu povo. As pinturas ficariam em lugares próximos, equivalentes, como podemos ver nas imagens do local onde estão hoje no museu, acentuando sua correspondência. Assim, o artista estava inserido no ideal nacionalista da época, o qual exaltava seus governantes e frequentemente resgatava elementos do passado nórdico de maneira saudosa. Entretanto, o esboço apresentado foi duramente criticado pelo tema escolhido, pelo seu tratamento, que não seria fiel à história, e pelo fato de a pintura de história, com gigantescas obras mostrando cenas mitológicas ou históricas, estava fora de moda, em um momento no qual o modernismo começava a ganhar força. De qualquer maneira, Larsson continuou com o projeto pagando de seu próprio bolso, expondo a pintura terminada no museu em 1915. Devido às críticas, ela acabou sendo retirada e exposta em um museu menor, em Lund, durante quarenta anos, e, em seguida, passou pela mão de particulares, que ocasionalmente emprestavam a obra para exposições temporárias, até que em 1997, o Museu Nacional finalmente a comprou e a expõe atualmente no local idealizado pelo artista.

 
Midvinterblot


Entrada de Gustav Vasa em Estocolmo

Apesar de Larsson ter sido criticado por sua composição não corresponder à história – e em muitos aspectos realmente está bastante longe da realidade istórica –, alguns detalhes e elementos decorativos mostram que ele estava a par das mais recentes descobertas arqueológicas da época, se inspirando em objetos encontrados para criar elementos da pintura, como indica o pesquisador Johnni Langer. Toda a correspondência arqueológica que veremos foi indicada por ele em seu livro Dicionário de Mitologia Nórdica: Símbolos, Mitos e Ritos, que indico fortemente a todos interessados no tema.

Primeiramente, é importante entender o que se passa exatamente na cena. Em uma composição equilibrada e simétrica, com um grande monumento arquitetônico ao fundo e cores dramáticas e contrastantes, que lembram a pintura de história neoclássica, mas em alguns pontos apresenta claras influências art nouveau, vemos ao centro os personagens principais: o sacerdote, de roupa branca, que ergue o martelo do deus Thor, um homem nu sobre um trenó dourado, o rei Domaldi, e o imolador de costas para o espectador, trajando vermelho, com a faca escondida. Há ainda no grupo central, homens puxando o trenó e músicos. Do lado direito, guerreiros assistem impassíveis à cena, enquanto que à direita, mulheres de preto demonstram luto. Ao fundo, o templo de portas abertas, através das quais podemos entrever a estátua de Thor atrás do sacerdote.

Dentre os elementos não correspondentes à realidade histórica, temos o sacerdote de roupas e barba branca que é visto aqui de maneira próxima ao druida celta ou ao padre cristão, quando este levanta o cálice com a hóstia para sua consagração. Na sociedade nórdica, o sacerdote profissional não existia, era alguém proeminente da comunidade, por exemplo, o rei ou chefe local que realizava essa função. O sacerdote ainda usa um pingente com o triskelion, símbolo muito difundido na era viking.

Em seguida, há o próprio rei Domaldi, que não se sabe se realmente existiu; Entretanto, seu trenó foi inspirado em um equivalente cerimonial encontrado em Oseberg em 1904.

Ainda no grupo central, as vestes dos músicos possuem inspirações oriundas das vestes folclóricas lapônicas, um grupo étnico do norte da Escandinávia, que não corresponde ao que era usado na era pré-cristã. O instrumento tocado pelos músicos vestidos de azul na verdade era usado na Idade do Bronze e não no período que o artista pretendia representar (século VII ou VIII).

À direita da composição, os guerreiros usam elmos com lisos ou com adereços, aqueles decorados sendo próximos aos representados nas placas de bronze, tais como as de Vendel e Olândia, que mostram guerreiros com capacetes cerimoniais com cristas com a figura de javalis, animal sagrado ligado a Freyr, deus da fecundidade. Somente um dos guerreiros porta um elmo com chifres, algo irreal difundido pela ópera, principalmente as de Wagner, e pelas artes plásticas.

Do lado esquerdo, as mulheres que sofrem correspondem perfeitamente à realidade histórica, dado que elas eram as únicas que podiam demonstrar pesar, os homens tendo que continuar condizentes ao ideal de coragem e força mesmo em ocasiões de morte de próximos.

Ao fundo, o templo segue em partes a narrativa de Adam de Bremen, outra importante fonte para o período, colocando, por exemplo, uma árvore em sua frente, mas a maior parte das características da construção faz referencia à arquitetura cristã, com alguns elementos descritos por Olaus Magnus, em 1550, e outros, tal como as esculturas douradas de dragões nas bordas dos telhados, retiradas de igrejas norueguesas medievais, como aquelas de Borgund, do século XII, e de Gol, do século XIII. Já os intricados painéis sobre a porta são similares aos da igreja de Urnes, do século XI. Ladeando a entrada do templo, existem dois leões dourados, próximos àquele encontrado em uma coluna em Oseberg, 1904.

Finalmente, voltamos ao centro da pintura, com a estátua de Thor segurando seu martelo Mjóllnir em um carro puxado por bodes negros, próximo à descrição de uma escultura que teria verdadeiramente existido nos templos de Throndheim e Hundsthorp, na Noruega. Para o rosto, a inspiração foram as figuras barbadas existentes em pequenos objetos, tais como pingentes e estatuetas, por exemplo, o machado dinamarquês de Mammen, do século X.

Assim, o artista criou uma composição complexa que mistura elementos reais e imaginários e glorifica o passado nórdico e a monarquia sueca, de maneira bastante nacionalista. Sua composição equilibrada e ordenada é contrária àquela do imaginário popular que via e ainda vê a sociedade viking como primitiva e repleta de caos e violência.

É possível analisar a pintura em detalhes através desse link no Google Arts & Culture. https://artsandculture.google.com/asset/midwinter-s-sacrifice/FgHwZjBuY9GDjA?ms=%7B%22x%22%3A0.651275466723811%2C%22y%22%3A0.35871366602402494%2C%22z%22%3A10%2C%22size%22%3A%7B%22width%22%3A0.8751930473481778%2C%22height%22%3A0.696590909090909%7D%7D

Bibliografia:

Johnni Langer (org.), Dicionário de Mitologia Nórdica: Símbolos, Mitos e Ritos, São Paulo, Hedra, 2015, p. 428-432.

Johnni Langer, “Sacrifício Escandinavo” in Johnni Langer (org.), Dicionário de Mitologia Nórdica: Símbolos, Mitos e Ritos, São Paulo, Hedra, 2015, p. 428-432.

Links:

“Carl Larsson” in Google Arts and Culture, [Online]. Consultado em 11/06/2018.
https://artsandculture.google.com/entity/m0m431

 “Midvinterblot” in Nationalmuseum, [Online]. Consultado em 11/06/2018.
http://collection.nationalmuseum.se/eMP/eMuseumPlus?service=ExternalInterface&module=collection&objectId=32534&viewType=detailView

“Midwinter Sacrifice” in Google Arts and Culture, [Online]. Consultado em 11/06/2018.
https://artsandculture.google.com/asset/midwinter-s-sacrifice/FgHwZjBuY9GDjA

Fontes das imagens:

en.wikipedia.org/wiki/File:Carl_Larsson_-_Midwinter%27s_Sacrifice_-_Google_Art_Project.jpg

https://en.wikipedia.org/wiki/Gustav_Vasas_int%C3%A5g_i_Stockholm_1523

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s