As relações humanas no filme ‘Entre nós’ de Paulo Morelli

Entre nós. Nós entre. Entre em nós. Nós, eles e “eus”. Entre e feche. Não feche a porta. Entre é meio. Meio de alcançar outro lugar. Entre, ir para ou estar em algum lugar. Entre um tempo e outro, há o meio. Meio é entre. O passado e o futuro. O que virá e o que restou. De cada um, o pedaço do outro. Entre. Não saia. Nós. Desate os nós. Quando miramos a película “Entre nós” de Paulo Morelli, não assistimos apenas a estória de um ciclo de amigos escritores marcados pela tragédia da morte prematura de um deles. Tampouco o clichê das cartas escritas e após dez anos abertas traz o enredo total do filme. Fala-se evidentemente de amizade e tempo, mas também, fala-se ali de alteridade, de construção de si pelo infinito do outro, fala-se da incompletude humana e todo tempo trata-se ali de responsabilidade. Daquilo que conduz a existência, espreita o tempo, se confunde com ele, não é sinônimo de tempo, apenas inscrição dele em nós, portanto, entre nós. Pessoas e nós. Que unem, ao mesmo tempo em uma relação e uma prisão. Estar no nó. O nó é feito por quem o constitui ou é ele mesmo o nó, sem questionar acerca da singularidade que o forma. As relações pessoais destroem a singularidade? Tornam as pessoas apenas nós?

A trama simples, aliás, como é mesmo o existir, desenvolve algumas questões interessantes. Observamos amores jurados para sempre. Amizades cantadas para sempre. Livros que se queriam vivos e imortais. Uma verdadeira batalha, não contra o tempo, mas dentro de sua dimensão. Nossa única tragédia. Assim, quando o personagem de Caio Blat (Felipe), sofre o acidente com o outro amigo Rafa (Lee Taylor) e aquele sobrevive, iniciam os indícios daquilo que enxergamos nos entremeios do filme. Felipe agora está entre a vida e morte. Escolheu a vida. Furtou o manuscrito recém-apresentado pelo amigo morto. Salva o manuscrito do fogo. Dá vida a ele. Lança ao mundo as palavras de Rafa, no entanto, o nome, a inscrição que denota a autoria do livro é a de Felipe. Responsável pela não morte do manuscrito. Não responsável pela vida das letras ali dentro. Responsável por guardar consigo o seu segredo. Não responsável pelo sucesso de sua carreira de escritor malfadado. Um ghost writer às avessas. Um ladrão? Apenas um ladrão? Um apaixonado que quis guardar a memória do amigo assim tão de perto que colocou seu nome? Havia será, a vontade de Felipe de unir-se profundamente a Rafa a ponto de confundirem-se no mesmo livro?  Amor ou aproveitamento apenas? Entre a vontade de ser reconhecido como escritor e o remorso pelo furto, soprou a vida de Felipe. Ladrão ou apaixonado? Os ladrões não adquirem amor pelos objetos roubados? Há amores bandidos? Amores furtados? E a memória de Rafa? Estaria em seu livro? Estaria naquilo que de agora em diante seria lembrado e inventado pelos amigos? Felipe morrera junto com Rafa? Quem é Felipe? Teria se tornado outro a partir do livro furtado? Um nó.

Independentemente da obviedade de discutirmos acerca de direitos autorais ou sobre a questão do furto, o que nos apreende no filme é o que está em seu título. “Entre” é uma palavra que denota várias possibilidades de compreensão e a partir do contexto muda inclusive sua classificação gramatical. Logo, quando os amigos viajam juntos e plantam suas cartas, estão a construir entre eles um laço existencial que os une a partir do tempo daquelas cartas, cada um sabedor da sua, todos agora imersos nessa mesma dimensão. A responsabilidade a que nos referimos aqui é aquela que nos informa Lévinas quando nos diz de uma responsabilidade anterior à razão, responsável ela mesma pela nossa possibilidade de estar no mundo. Assim, a despeito de estarem juntos, unidos pelas cartas, aqueles sete amigos, antes das cartas, dos escritos, da adolescência e da vida adulta, antes do furto, do livro e do sucesso, estavam já responsáveis pelo outro que atravessa nosso existir particular.

No microcosmo do filme põe-se a nu a responsabilidade infinita pelo outro que sustenta o próprio tempo do humano. Estar no mundo é ato de responsabilidade ética. Logo, ali naquele sítio, o de antes e o de depois, restou evidenciado pela morte e pelo furto. Pela culpa e pela decepção. Pela alegria do encontro. Pela infelicidade do presente e a nostalgia do passado. Toda a dimensão de responsabilidade que o humano carrega em seus ombros desde seu nascimento. O livro furtado, a memória vilipendiada, recriada, mexida, suja e vendida, mostra ali a infinitude que é o outro, inalcançável em sua singularidade, frágil e ao mesmo tempo mortal, que nos cria e nos coloca desde sempre responsáveis por ele. Entre essa existidão que nos supera, que nos assombra e que nos coage. Entre o antes e o depois. O sorriso e o choro. Entre a vida e a morte. Entre a porta e a fechada. Entre eu e o outro, restou a existência questionada. Entre os valores de uns e de outros. Entre o esquecido e o presente. Entre um e outro. Entre Felipe e Rafa. Entre o fogo e as palavras. O rastro que resta é o entre que nos inspira e fere de morte todos os dias. Antes não há, tampouco depois. Entre nós é o caminho pesado que vai nos esculpindo enquanto tempo e enquanto tragédia. Nessa difícil arte de cuidar do outro. Nosso algoz e nossa salvação.

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