‘Trem noturno para Lisboa’, um filme sobre viagem e mudança

Esses filmes que falam de viagens são sempre filmes por demais interiores. Bille August relê na tela o romance homônimo de Pascal Mercier. Viajar em verdade é um reencontro. A viagem viaja a pessoa enquanto ela inscreve nos locais por onde passa o seu próprio tempo. A viagem, portanto, é dizer. Discurso aberto. A viagem e o outro que enreda nossa imaginação. Furta-nos de nós mesmos. Assim, e por isso mesmo, há um ato de alteridade quando estamos a viajar. O outro é sempre o amor que vem pela próxima parada. No trem as coisas passam ou passamos por elas? Dentro do trem há outro tempo?

O filme tem locais interessantes para pensar as dimensões do discurso. Primeiro falamos sobre um professor de línguas que vive em Berna. Ele vive imerso nas dimensões que as traduções – violentas como sempre – permitem. No entanto, carece de escutar e vivenciar mais dimensões em sua própria existência. E dentro da ideia de dimensões, ele, o professor, de línguas, encontra em uma ponte uma mulher que supostamente iria se suicidar. A ponte é outro local que apresenta diferentes dimensões de tempo. Ontem de um lado. Amanhã de outro. O presente assim seria a travessia. A moça estava atravessando o tempo ao querer pular? Os encontros surtiram dois efeitos: a moça não morreu. O professor de línguas iniciava sua nova vida. Parar na ponte. Sobre ela. É jeito de parar o tempo? Havia ali uma suspensão de tempos?

Raimund Gregorius, personagem de Jeremy Irons, encontra um livro no bolso do casaco da moça que não deixou pular da ponte. É um novo tempo. Dele cai uma passagem para Lisboa. É interessante pensar na palavra passagem. Ora, ela nos indica que estamos no próprio ato de travessia. No entanto, a passagem nos indica um local de chegada. Quando chegamos, chegamos? Gregorius ao folhear o livro quer a todo custo encontrar o autor da história. Sente nas palavras talvez as ausências que o acometem sempre. A obra de arte talvez seja isso: constituidora de sentidos. Criadora de caminhos. Inventora de tempos.

O casaco da moça era vermelho. Os batons do filme também. Os cravos da revolução portuguesa também são vermelhos. Há uma estória contada ali. O amor é vermelho. Voltaremos nisso. O professor então conhece a irmã do autor do livro. Ele já esta morto. Ela é obcecada por ele. Submissa. Por aí inicia uma narrativa entre o livro e a visão de Raimund. A travessia está a se realizar. Onde vai dar a outra margem? Marginal ao livro, Raimund conhece uma médica que o apresenta ao seu tio, sobrevivente da ditadura de Salazar. Ele queria apenas fumar. Talvez para deixar espraiar no tempo a dor de ter sua própria história furtada pelo regime. O professor conversa e dá cigarro ao tio da médica. Ela tem um carro vermelho. Ela também usa batom vermelho. A bandeira de Portugal tem vermelho. Sangue é vermelho.

O autor do livro fora um médico. Ele salvou um dos carrascos de Salazar. Ficou marcado por isso. Mas entrou para a revolta e passou a viver o que estava escrito no livro. A revolução é um novo tempo. Ela destrói e constrói pontes. Amadeu é um médico que desde a escola tinha um amigo pobre. A ponte que os unia era a da amizade. Agora a da revolução. Importa dizer que em meio às revoluções há revoluções. Explico-me: Amadeu se apaixonara por uma das revolucionárias do grupo, a qual vivia um romance com seu melhor amigo de escola. Esse amor correspondido fora a revolução dentro da revolução. O cravo de Amadeu agora teria um destino. Não apenas o de salvar Portugal do regime opressor. Mas o amor pela companheira agora estava misturado. O vermelho dos cravos junto do vermelho do coração. O amigo revolucionário perdera essa batalha. Contra esse levante não há como retroceder: mata ou morre. A ponte para o amor não tem fim.

Na fuga com sua amada, Amadeu é surpreendido pela polícia. Ele telefona ao carrasco de Salazar. Ele o libera. A ética médica de Amadeu acaba de salvá-lo de um homem que era chamado “carniceiro”. Esse componente é interessante. Gregorius continua sua saga e conhece a amante de Amadeu. Ainda viva. Professora de história. No carro vermelho da médica, Gregorius persegue o passado de Amadeu. Essa viagem a Portugal, que a mais das vezes, é sempre um regresso ao passado, na verdade era a ponte de Gregorius. O vermelho do casaco da moça o conduziu ao vermelho dos cravos da revolução portuguesa. Essa travessia, simbolizada nos novos óculos que a médica lhe dera, seria mesmo a ponte dele. Para dentro da língua portuguesa. Cheia de passado. Ao sentir saudades, talvez regresse. Num trem noturno ou em uma ponte. Mas o vermelho daquele lábio iria revolucionar os seus novos tempos. Deixar a sala de aula em Berna correndo na chuva é jeito de fazer revolução. Amar foi sempre inventar pontes sobre o mar…”tanto mar”.

Compre o livro de Pascal Mercier que inspirou o filme aqui.

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