O aprisionamento das convenções sociais em ‘O anjo exterminador’, de Buñuel

Por obra do ocaso, hoje me encontro com algumas figures interessantes: um vinho português, um escritor português e com Buñuel a partir do seu filme “O anjo exterminador”. Essa obra traz um enredo em que pessoas estão reunidas em uma casa para uma festa. No entanto, ninguém consegue sair da ala na qual se dá a festa. Não há nenhuma barreira física que impeça as pessoas de irem embora. Simplesmente: elas não vão!

Sim. E qual a relação disso com o vinho e o autor? Na verdade, o encontro com o autor, Saramago, foi me dado por outro assunto, que de alguma maneira, feito uma serpente, lastreia o filme de Buñuel. Para este tema Saramago diz: “Pecados…O que é isso o pecado? Quem é que inventou o pecado? A partir do momento em que se inventa o pecado. O inventor passa a dispor de um instrumento de domínio sobre o outro tremendo. E foi o que a igreja fez.” Nesse sentido, podemos iniciar nossas relações. Ora, por mais que o vinho português nos abra os poros para o mundo. A construção da sociedade portuguesa, esta alicerçada no mais tacanho medidor social, no qual as etiquetas à mesa, junto das convenções sociais, estruturam uma maquilagem esculpida há séculos. A burocracia, as hierarquias fantasmas e medievais. Os feudos sociais. A linguagem carregada de pronomes de tratamento. Tudo isso, aliado a uma sociedade extremamente aferrada aos valores cristãos, é ingrediente que sustenta a festa de Buñuel.

Saramago fala do pecado. Aqui na película podemos pensar na construção do imaginário social através da culpa. Da mácula eternizada na cruz. Que todos carregam e que sustenta as amarras sociais como um dos principais vernizes. A culpa elege o bom e o mal. De aí em diante, os maniqueísmos necessários à hipocrisia social fazem a festa. Ninguém saía dali para que não ficasse para trás em alguma manobra que poderia ser realizada. A lógica do lucro, ninguém quer perder. Mesmo que essa vitória custe a vida. Estar ali significava perecer para o resto, contudo, uma vez inseridos na ideologia, o humano perde sua capacidade inventiva. A festa deixa de ser festa. O objetivo não seria nunca alcançar a saída, que ademais, estava ali aberta. Isso mostra a necessidade da revolução para a mudança. Se ela não ocorre, o que resta são possibilidades dentro do mesmo discurso. Dentro da mesma sala. Não se tratava de mudar os móveis de lugar. Mas enfim, de arremessá-los pela janela. Não apenas uma nova época das luzes, mas luzes unidas a sombras para a construção do novo.

Podemos observar que ao início da festa os funcionários saíram da casa. Talvez uma leitura interessante de que, com a saída dos funcionários, a culpa, essa invenção que alicerça nossas relações, recairia em outros, mas nunca ela deixaria de existir. Acaso os funcionários estivessem lá dentro, de quem seria a culpa por ninguém sair da casa grande? E ainda, interessante perceber a animalidade que exsurge naturalmente a todo humano. Essa evidenciação com os reclames de mau cheiro e as brigas por água tornam ainda mais claras as construções culturais, as regras de etiqueta que querem encobrir isso que torna os humanos iguais. Quanto maior a dificuldade de romper com essa estrutura social, da educação padronizada, do pronome de tratamento, mais clara fica a animalidade que move a orbi social.

À medida que o tempo se esvai algumas cenas de fora da casa aparecem. O padre que cuida dos filhos de uma das confinadas na festa talvez mostre a transferência irreflexiva das culturas. Ao mesmo tempo, lá fora também há o mesmo problema que não deixa as pessoas saírem. Uma espécie de ideologia que não quer que a roda gire. Aliás, quer que ela gire apenas em uma direção – que é quase o mesmo que não girar. Há uma naturalização de uma burocracia que apenas existe para se resolver a si mesma. A prova disso são as pessoas confinadas em si mesmas dentro da casa. O aprisionamento ali não é na sala. Fazer conviver pessoas de classes distintas. Maçons, médicos e pessoas com tendências desprezadas pela “sociedade” foi uma maneira de Buñuel mostrar o aprisionamento ideológico que o tripé da anulação impõe à formação das pessoas;  a família, que nos leva às festas e nos ensina a comportar; a escola, que nos dá educação e nos ensina a sempre respeitar as leis; e a igreja, que em linguajar de Foucault, também dociliza nosso agir, fazendo com que caminhemos feito ovelhas. O Estado também entra nessa ideia, no filme, quando guardas aparecem atirando nas pessoas. Será talvez o guarda da ideologia e o inventor/sabedor terreno do pecado? Depois que a festa acabou, restará eternamente a pergunta: quem inventou as portas?

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