A fuga dos problemas no longa “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”

“E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria?”

Seria esse um dos impasses acerca do filme de Michel Gondry “Brilho eterno de uma mente sem memórias”? Não restam dúvidas de que essa é uma questão que nos enreda sempre. Ora, quem nunca pensou um dia em não mais se lembrar de determinada situação ou pessoa? Contudo, quando nos projetamos pra trás, querendo repensar e mudar rumos, os problemas se nos mostram em forma de avalanche. Ora, como nos mostra a canção do Los Hermanos, o caminho de regresso a um momento talvez fizesse com que nos tornássemos, já pela caminhada, uma pessoa diversa daquela do início. Assim, será que a pessoa que retorna ao passado para mudar, chega lá com fôlego para mudar e apagar determinados passos? Parece que Joel Barish, personagem de  Jim Carrey, não conseguiu chegar até o fim nessa tentativa de se autofurtar um pedaço da história de sua vida.

Na trama do filme, Joel conhece Clementine Kruczynski, personagem de Kate Winslet. Eles vivem um romance com toques interessantes. Desde passeios inusitados, até mesmo a vivência da cor do cabelo de Clementine, que era pintado diversas vezes com cores fortes. A mudança da cor no cabelo mostra um pouco da reflexão que o filme nos permite. Estamos hoje em um tempo em que a existência é assim como uma tinta de cabelo. Tão logo colorimos, estamos já a projetar qual a próxima cor. Os brilhos não duram, aliás, temos flashes, não temos brilhos. A fugacidade é uma dimensão importante do filme. Bauman já nos diz da sociedade líquida, e a escola de Frankfurt também alertava para esse esvaziamento existencial. Assim, quando Clem entende que o relacionamento não mais a agrada, ela procura uma espécie de clínica psiquiátrica que se chama “lacuna” – nome extremamente sugestivo. Mas esse nome é sugestivo por dois motivos. Vamos a eles: em primeiro a palavra significa mesmo um espaço vazio. Logo, quando o paciente procura o local, ele sofre uma intervenção que o permite esquecer uma determinada pessoa e tudo que viveu com ela. Há aqui uma questão: e a outra pessoa, não estaria sendo lesada em seu direito á memória? Essa lacuna seria aquilo que hoje uma sociedade infantilizada procura fugir a todo custo? Há uma cultura hedonista na qual a felicidade e o gozo são sacralizados, enquanto sentimentos como luto e melancolia devem ser combatidos como se não fizessem parte de nossa constituição enquanto humanos. A angústia discutida em Heidegger, como um existencial que realiza uma dimensão do dasein, deve ser um inimigo. Isso é um diagnóstico de que as pessoas não se podem permitir ao sofrimento, que, no limite, está estampado nesse filme. A lacuna como aquilo que cura. Assim, construímos buracos nos quais enterramos aquilo de que não queremos lembrar. Contudo, esse buraco pode talvez um dia se encher e talvez ao invés de chamarmos lacuna aquilo que criamos nessa intervenção, estejamos enfim a cavar um buraco dentro do qual viveremos. Ao invés de percebemos a vida como uma construção, poderíamos pensá-la agora como uma demolição?

Outra dimensão do filme toca também  o peso das  memória. Ou seja, quando deixamos de lembrar, acabamos vivenciando novidades de maneira mais constante. Nietzsche diria que a criança seria o estágio mais elevado do humano, pois ela se permite ao esquecimento. Ela cria. Não vive presa aos preconceitos. Mas é importante perceber que a memória tem a força de nos mostrar também nossa capacidade criativa. Ora, podemos construir obra de arte dos escombros. Ao mesmo tempo em que sairmos dos problemas é jeito de fazer-nos fortes. A memória é aquilo que nos dá a dimensão da existência. A escolha pela lacuna é a escolha talvez pela infantil ideia de fuga de problemas. O filme “Efeito borboleta” mostra isso. Os remédios antidepressivos tomados constantemente também. Não olhar pra trás é deixar de se permitir um novo presente. Ora, o brilho se dá na medida da escuridão. O presente é sempre uma possibilidade. O passado, nosso alimento: doa vida e mata.

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