Série – A teoria da literatura por seus atores II: Aristóteles

Ao analiticamente sistematizar os aspectos formais e de conteúdo das peças do teatro grego (tragédia e comédia), e do gêneros épico, Aristóteles se aproxima e se afasta do seu mestre Platão. Se distancia porque não pensa necessariamente, embora faça, a literatura numa república ideal. Não a coloca a servir de exemplo à sociedade. Ela está no centro de seu estudo. Contudo, elabora alguns aspectos, como a análise do ethos (o ser, o que caracteriza, que é sempre inato) da personagem, que acabam justificando a desigualdade social. O ethos é a fonte da Poética. Através dele se sabe um pouco sobre a pessoa já ao nascer, ao olhar para a família: se for nobre será nobre, se for pobre será pobre, se for deus será deus. (Durkheim parece beber um pouco aqui seguir, longe no tempo e no espaço, este caminho para elaborar a idéia de coesão e moral social, que basicamente repete os princípios de ethos por classes sociais – ou seria melhor estamentos?). A tragédia trabalha com personagens e enredos elevados, nobres, sobre deuses e semideuses ou grandes heróis. A comédia ao contrário, gente comum e enredos rebaixados.[1] Não pode haver uma tragédia com o personagem principal sendo um feirante, um sapateiro (para repetir o exemplo de Platão). Isso tudo define o caráter da peça: personagens e enredo certos, logo bons.

O ethos se relaciona com o a práxis, ou seja, com as ações.  A partir dele é possível afirmar o que é verossímil e o que não é na sociedade. O sapateiro não tem potência, seu ethos é rebaixado já ao nascer e perpetuado durante sua vida. Justificamos isso e cristalizamos a estrutura hierárquica e por isso desigual da sociedade. Tal conhecimento é oriundo da observação da empiria. São semelhantes, verossímeis, e este termo é caro a Aristóteles, a partir da representação mimética: é o caminho contrário de Platão. Quanto mais se representa a realidade com justeza, depois de observá-la, mais caráter terá a peça. Atitudes e ethos nobre compõem o caráter das tragédias; atitudes e caráter rebaixado às comédias. Sapateiro e Aquiles, cada um com sua potência, seu ethos, e dispostos conforme a boa poética exige.

A literatura, conforme dito, caminha ao lado da sociedade. Aquela adquiri maior autonomia sob o olhar de Aristóteles, mas segue complementando e perpetuando as relações de opressão na sociedade. Ao se dizer o que é nobre e o que não é, ao elaborar uma idéia de caráter oriundo de certos pressupostos que são dados somente a algumas pessoas, Aristóteles autoriza a manutenção das assimetrias sociais. Literatura e sociedade seguem a troca de influências e continua-se com escravos e mulheres sendo oprimidos. A sociedade respalda a opressão da mesma maneira que a literatura o faz.

Rodrigo Mendes

[1] No século 20 o filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin identifica no riso e no baixo corporal – a risada pelos membros da cintura para baixo, que são o motivo derrisório – uma fonte de cultura popular, informal, podendo ser iletrada, e que configura uma tensão no que o autor vê como Carnaval na obra de François Rabelais, escritor francês da época do Renascimento. O riso é rebaixado por ser popular e porque este, o riso, juntamente com a atmosfera de carnaval da idade média, que previa uma alteração simbólica dos estamentos sociais (quem é rico vira pobre e vice-versa durante uma semana inteira de festas), tensionam as relações entre pobres e ricos, entre homens e mulheres, entre leigos e religiosos. O livro de Bakhtin é Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais e na “Introdução” explicita seu problema. Interessante pensar em como o riso aparece aqui e como já lá na Grécia clássica Aristóteles apontava para algo semelhante, a saber, que comédia e risada são coisas de pobres, dos de baixo.

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