A questão da imigração no longa ‘Samba’ de Olivier Nakache e Éric Toledano

“Só é poético um ato de hospitalidade”. Interessante ver essa frase escrita pelo filósofo franco argelino Jacques Derrida e ao mesmo tempo refletir acerca da condição dos imigrantes não apenas na França, mas na Europa de maneira geral e porque não nos EUA. Ou a hospitalidade distanciou-se da poesia ou ao contrário, a poesia do outro deixou de dar o tom nas relações humanas internacionais. Se é que um dia já foi esse.

No filme “Samba” de Eric Toledano e Olivier Nakache há uma narrativa aparentemente simples a dizer dos problemas enfrentados por imigrantes. Nomeadamente aqueles advindos de países com problemas financeiros e até mesmo em contextos de guerra civil. Samba é o nome próprio de um sengalês que vive em solo francês. Não haveria muito o que dizer se acaso estivéssemos a tratar de um estrangeiro. O meteco dentro da língua grega antiga nunca foi lá considerado como um cidadão pleno da polis. Há controvérsias sobre como os gregos tratavam os estrangeiros. Mas de maneira geral. Não eram se tornariam nunca aristois. Mas a reflexão querida aqui extrapola a questão conceitual. A poesia do outro não se acaba em uma distinção seja étnica ou estatal. O opúsculo “Sobre a paz perpétua” de Kant talvez desse conta dessa dimensão do estrangeiro. Mas quando o pensamento político jurídico de Kant fora colocado à prova perante a hospitalidade incondicional de Derrida, por certo, não pudera resistir. A poesia é irresistível. Escrevo este texto escutando o disco Stone Flower de Tom Jobim. O samba também é irresistível.

A hospitalidade incondicional proposta por Derrida é um impossível conceitual. Sua dimensão, portanto, coloca-se no não lugar que é o outro. Aquele que vem sem avisar. Sem comprar passagem. Que desde sempre está ali. A nos espreitar e a nos recobrar um olhar mudo. Que no silêncio o deixa passar à frente. Que não questiona nome ou idioma. Que não carece passaporte. Aquela hospitalidade que vem, sempre incompleta. Um devir que se completa exatamente na medida de sua impossibilidade. O outro é esse impossível que clama sempre por mais. Requer nossa inteira atenção. Dele somos prisioneiros desde sempre.

Assim, a partir dessa pequena reflexão estamos já na dimensão desse outro: o samba. É um gênero musical que mistura a negritude africana que coloniza o Brasil com os ritmos das senzalas. Mas é também o nome próprio de um senegalês que vive às margens na França europeia. Não há lugar para o samba ali. O serviço de ajuda a imigrantes ilegais é seu lugar. Ali ele conhece uma voluntária. Ela possui problemas mentais advindos de sua adequação inteira ao mandos do mercado de trabalho. Alice (Charlotte Gainsbourg) recebe a dimensão de Samba dentro de si. Ela enxerga a poesia de Samba. Ela talvez goste de sambar.

Talvez aqui esteja uma boa dimensão de nossa prosa. Alice não percebe Samba com a dimensão de estrangeiridade que herdamos dos metecos gregos. Seu olhar para Samba talvez esteja mais próxima do que Derrida chamou de hospitalidade incondicional. De outro lado as pessoas não veem Samba. Interessante notar que apenas podemos enxergar na dimensão de nossa sensibilidade. Os ouvidos também não escutam todas as notas. Será que faltam notas nas relações humanas de maneira geral? O samba não pede identidade. Pode entrar, quem samba e quem sabe amar. Alice abre as alas para Samba.

Sambar é um verbo muito próximo de amar. Da mesma maneira. Esse outro que nos interpela ao existir, nos inaugura perante o mundo. A alteridade como local de habitação. Samba ensinou à Alice um jeito novo de caminhar. Os passos do samba. Alice conferiu a Samba um ouvido que dantes ele não experimentara. Toda vez que tocar Tom Jobim haverá samba. Toda vez que um olhar de amor existir a poesia da hospitalidade nascerá. Amar é outro. Do mesmo jeito que antes dos continentes existiram as pessoas a os colorir. Que enxerguemos misturas de cores. O samba nasceu delas. Não é possível amar sem samba. Só é poético um ato de sambalidade.

 

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