O filme ‘Que horas ela volta?’, de Anna Muylaert

Macabéa é outono. É imperdoável em um mundo de verões e primaveras. Não há perdão que dê conta de Macabéa. Antes de cometer o ato. Lá está Macabéa, pronta para o ato de pedir. Ela está à disposição. Mas Macabéa não está apenas ao dispor das pessoas. Ela também se coloca ao dispor das coisas. Macabéa é a hospitalidade em sua forma mais pura. A hospitalidade de Macabéa é uma hospitalidade animal. Poderíamos pensar que em Macabéa há aquela realização do encontro com o animal que somos e que nos propõe Derrida. Nela tem-se a inteireza do animal, uma determinação improvável no humano. Uma necessidade que se transforma em alienação quando pensada em moldes humanos.

Macabéa não é humana. Trabalha sem trabalhar. Namora sem amar. Come sem saciar. Vive sem viver. A sua tragidicidade se dá exatamente na sua impossibilidade de encarar o outro. Ela simplesmente não vê. O outro habita em Macabéa desde seu olhar, passa pelo seu ventre virgem e se afoga na ausência de palavras. Por que as palavras são o que elas são e não outra coisa? Macabéa talvez esteja assim,como em Macondo, nos “Cem anos” de Gabriel Garcia Marquez, lá onde as coisa não possuíam nomes e careciam ser apontadas.

A inquietude de Macabéa é aterrorizantemente inerte. Macabéa é estrangeira de si. Não sabe que é, tampouco, quem é. Macabéa é um rio que corre sem ter conta dos peixes que nadam ali. Enquanto desce, seu leito nem se percebe, caem barrancos ao seu lado, sua água fica barrenta, quase com mau cheiro. Peixes vivem e morrem ali. O rio, Macabéa, sequer se dá conta. Macabéa nem sequer conta sua história. Narradores de fora dizem dela. Ela apenas está ali, a cumprir um papel de absoluta alteridade, ou seja, um papel em que, por certo, não há, apenas e tão somente é habitada.

Poderíamos assim, pensar Macabéa como sendo aquele local no qual habita o “incondicional” derridiano. Não pelo fato de o humano, enquanto texto que é, abrir-se ao transbordamento da linguagem, ao seu inaugural sertão. Macabéa tinha de sertão lembrança vaga, longe dela carregar imensidões. Mas, paradoxal que é, também ali, onde não habitava conceito, nascia tudo, mesmo sem o saber. Ela se dava ao mundo em uma medida tão restrita de linguagem que o mundo inundava ela, sem que ela soubesse. Macabéa guardava segredos. E assim como o outono, mais marrom que colorido. Ficam insuportáveis à razão. Daí nos diálogos percebermos as incessantes perguntas sobre a felicidade. Doce fel na boca do capital em dias de hoje.

O texto nos arrebata pois Macabéa em “A hora da Estrela” de Suzana Amaral, igual outono, é também Val. Personagem principal do filme “Que horas ela volta? ” de Anna Muylaert.  Val (Regina Casé) é mais uma mulher do sertão, que se aventura na cidade grande e é submetida `lógica binária e perversa narrada no livro “Casa Grande e Senzala”. Val, encarna esse cotidiano. Macabéa, mais que uma encarnação dessas ordens sociais, ela é ela própria a ontologia daquilo que se chama opressão. Assim, o outro, enquanto nosso local de habitação, enquanto aquele que vem, aquele que nos chega sem avisar, em Macabéa aparece de forma originária.

Assim, enquanto Val, a doméstica que não come com os patrões, não senta à mesa que ela prepara, não alcança as pessoas sem antes um prenome, reitera essa formação social, Macabéa tem na sua própria existência o quadro pintado por outro pintor. Essa pintura é de outrem. Macabéa não é em si. Ela não existe enquanto modernidade. Macabéa é uma heroína trágica que sequer dá conta de sua tragédia, mas que nem por isso deixa de persegui-la, mesmo que nas condições que citamos: a alienação é seu motor. Macabéa não é Val. Mas Val é Macabéa, na medida que esta carrega todas as Val’s.. Lispector construiu uma personagem que é todos e é ninguém. Que ri sem abrir a boca e conversa sem emitir sons. Mas que a cada gesto redige um testamento. Macabéa é construtora do tempo em si. De novo, sem saber. Macabéa é uma imigrante de si.

Poderíamos pensar a existência dessa heroína na perspectiva de mais uma imigrante nortista. Mas Macabéa é mais que isso. Ela é o próprio norte. A condição de margem dá a ela a condição de ser e não ao mesmo tempo. Macabéa recebe da margem aquilo que não lhe importa. Convites para festas sem graça e cargos de trabalho que ninguém aceita. As mulheres no romance de Lispector ocupam locais interessantes na cidade dos homens. Uma amiga que furta seu homem e comete abortos sorridentes. A dona da pensão que vive da vida péssima que várias mulheres levam dividindo um quarto e um banheiro. Além disso uma cartomante. Essa também lucra com manobras vis. O lugar das mulheres ali  talvez sejam o da própria escritora. Estrangeira de seu país, estrangeira de si. Macabéas são mulheres nas cidades dos homens. A elas resta a margem que está ali evidente. Ela recebe ordens da vida, as acata, sem cessar, rola pelo vento como um tufo de cabelos caído no chão.

Macabéa é mulher, nortista, datilógrafa e gosta de coca-cola. Nem sempre ela se lembra disso. Ela também é virgem, mas pensamos, ai mora o principal mistério deste texto. Ao mesmo tempo em que ela não fora tomada por nenhum homem, distanciando-se assim da maioria das mulheres oprimidas, ela também não ocupa determinadas sensações. O humano é linguagem. Como Macabéa é humano se sequer ela conhecia as mais elementares palavras? Sem não sabia do gozo, poderia gozar. Como ser mãe sem saber da maternidade?  Mas se Macabéa desconhece papéis, seria ela então a mais livres das mulheres? Ou ao contrário, por não saber, sequer, portanto, poderia libertar-se? Macabéa é um ventre: o bebê ali está preso. Não foi fecundado. Macabéa seria o humano em formação enquanto se descobre, ou em decomposição, quando é impedido de conhecer? Os conceitos que abrigam Macabéa são tão gerais que sequer poderíamos construir seu rosto em um retrato. Macabéa não foi fotografada. Qual o tempo dela? Se acaso Macabéa não sabe porque foi parar no Rio de Janeiro, poderíamos responder: quem é Macabéa?

Macabéa é outono, pois diferente do verão que tem o céu azul de logos incandescente, distinto da primavera que tem o amolecimento das flores, longe do inverno que torna juntos os humanos, mesmo que apenas pelo frio. O outono oferece apenas o não ser. Não arde. Naõ cheira. Não esfria. O outono é como é. Macabéa também. E assim, exatamente por essa “essência” de não ser é que Macabéa e a literatura se encontram quase que em uma comunhão de placenta. Não há literatura sem Macabéa, e o oposto também não, ora, se de uma lado, o mundo está dito, as coisas no lugar, mutantes e no lugar. Macabéa apenas não está. Logo, como uma aquarela em branco, como uma virgem à espera da fecundação, Macabéa aguarda  o mundo. Feia, sem jeito, maltrapilha e condenada. Apenas deixa-se ir. Assim com queria a alteridade levinasiana, Macabéa não tem fim. Ela é espelho, e espelho, não há, apenas acontece em acordo com as “aconteções”. Se não rolar nada. Macabéa estará ali, de novo, sem estar. Assim também a literatura, essa fêmea do mundo inteiro, prestes a parir, assim como, prestes a matar, pois não se sabe de vida, nem de morte. Sabe apenas de pergunta. A literatura é a pergunta eterna do mundo. Assim como a mãe que pergunta pelo filho que vem. Da mesma maneira que as mulheres perguntam pela mulher que vem. Ela, essa mulher, ou ela, essa literatura, ainda não se pode dizer, sob pena de negar o enigma do que se chama literatura enquanto feminino: não lugar de nascimento, morte e danação. Por isso Macabéa, de humana, não tem, apenas de estrela – esse feminino que brilha.

 

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