Série – A teoria da literatura por seus atores II: Gayatri Spyvak

Gayatri Spyvak parte de um debate entre Deleuze e Foucault no qual há um horizonte de expectativa mais ameno no que tange à fala do subalterno. Ambos homens brancos europeus, e por isso mesmo, segundo Spyvak, têm uma percepção menos radical e problematizadora sobre a possibilidade de falar dos de baixo – aqui me refiro de maneira amplamente generalista, mas a autora, em seu Pode o subalterno falar?, nos propõe que não façamos generalizações de modo algum.

Ao longo do seu denso texto, Spyvak vai abordar os mecanismos legitimadores de opinião, as discursividades, bem na linha de Foucault, que têm o poder de dizer o que é verdade, o que é legítimo, e o que não é. Como dito acima, ambos os homens brancos europeus intelectuais estão no padrão dos que têm este poder, em detrimento de todas as outras camadas sociais que não são nem brancas, nem homens, nem europeus – aqui caberiam ainda vários recortes, como a autora se preocupa, mas ficarei somente nestes.

Lá pelas tantas a autora traz um termo que sintetiza um pouco o que falei acima: é o que chama de violência epistêmica, que é justamente esse dispositivo legitimador de fatos, disponível somente a uns poucos. O movimento todo do seu texto então é o de apontar para como o ocidente violenta epistemicamente aos que não são ocidentais, brancos, homens etc. (e ela lembra bastante de Said e do seu O orientalismo, no qual demonstra que o oriente nada mais é do que uma criação do ocidente, já que este detém os meios discursivos de poder para tanto).

Ao final do texto, dá um exemplo muito específico da mulher indiana – posição que se reconhece em parte, já que se sabe diferente depois de ter estudado na França e nos EUA. O exemplo recupera uma tradição local histórica que envolve o suicídio de mulheres. Em síntese, em geral as mulheres que se suicidavam fora do ritual em que podiam se atirar na pira e queimar junto a seu ex-companheiro, tinha causas em um ato sexual/amoroso ilegal, visto que a Índia se organiza por castas. A mulher em questão esperou então seu ciclo menstrual para que a sociedade não pensasse que ela fora pecadora, mas sim interpretasse da maneira como ela quera – segundo Spyvak – um ato político. No entanto, a mulher indiana não pode falar, não tem o poder para isso, e o resultado foi uma outra interpretação que não a pretendida. Spyvak aponta então para a incapacidade do subalterno falar a partir do exemplo acima. Aquela mulher de fato falou (Spyvak não pensa em falar como uma atividade estritamente verbal, mas, como vimos, através também de uma ação), mas não foi ouvida. Isso leva a autora a concluir que não, o subalterno não pode falar, porque não possui os caracteres discursivos de poder para valer seu ponto de vista. (O termo “falar” causa problema, porque o problema de fato não é “falar”, mas “ser ouvido”.)

Um exemplo literário rápido e perto de nós aqui no Brasil: Antonio Candido no último capítulo da Formação da literatura brasileira, ao falar da incipiente crítica literária brasileira na qual flagra a tomada de consciência literária, aponta Ferdinand Denis como um influente importante. Este apontava, junto a outros, para a poeticidade do índio. Isso daria muito pano pra manga, mas me restringirei a dizer que: quem diz dessa poeticidade? Quem a performa? Óbvio que não são os indígenas, que servem somente de objeto para virarem símbolos nacionais às custas de seu próprio genocídio. O subalterno não têm voz. O homem branco, colonizador ou descendente deste, vê e diz algo sobre os indígenas a despeito deles, pela capacidade e poder discursivo que detém.

* * *

Recentemente, depois do incêndio da Notre Dame, saiu no noticiário que haviam encontrado um relógio idêntico ou que fora perdido nas chamas e por isso poderia recompor de maneira fidedigna a estética desta parte específica da construção. Não digo que não seja verdade, mas fiquei pensando na necessidade da construção de uma narrativa pró-França, que no fundo é pró-Ocidente, que busca legitimar positivamente um acontecimento trágico, para não sair tão por baixo.

 

Rodrigo Mendes

 

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