‘Numa uma escola de Havana’, filme de Ernesto Daranas

Dedicado à Professora Lulia Queiroz

Iremos prosear acerca do filme “Num uma escola de Havana” de Ernesto Daranas. Estar acercado de algo talvez seja das coisas mais claras para os cubanos. Estão enredados por águas. Há ali fertilidade. Houve revolução, de certa forma, ainda há. Contudo, o filme não se esbarra a uma possível e maniqueísta discussão sobre o governo em Cuba – seus males e benesses. Tem a escola como pano de fundo. Possui Cuba como local de uma fotografia apaixonante. Há ali rinhas de cães, pássaros aprisionados. Um adolescente na escola. Uma professora maior do que os “muros da escola”. Cena pronta para mais uma narrativa de drama escolar. Estamos em que país mesmo?

A ideia que nos acerca, ao mesmo tempo, é um mar infinito que circunda a ilha revolucionária. Como são infinitos os professores. Mas infinitos também são os alunxs. E tão finitas são as cercas da escola! É interessante como iniciamos por usar o termo “acerca” que nos poderia dar, “sem cerca”. Mas que na inscrição do filme acaba por revelar que a escola ali é um limite. Expliquemo-nos: Carmela (Alina Rodriguez)  é uma professora que não se vale daquilo que impera nas escolas desde há muito: a lógica do pecado, da culpa. Há uma aura de punição que envolve a escola, e de alguma maneira, parece que o descaso com os professores, acaba por fazer nascer em alguns, uma espécie de gozo pervertido, que se converte em punição. Isso de alguma forma conduz algumas salas de aula: estamos em qual país?

Nesse sentido, e não nos parece vão, a narrativa também é conduzida pelo olhar do jovem Chala (Armando Valdes Freire), 11 anos. Ora, não é de professores apenas que se faz a escola. Assim, a partir dessa dimensão da vida de Chala, miramos outra questão complexa a envolver a escola, qual seja, a distância entre a vida real dos discentes e a generalidade como são tratados dentro da sala de aula. O olhar de Chala mostra esse distanciamento. Ele possui uma amiga que tem o pai preso e por quem ele é apaixonado. Nada disso está no conteúdo das aulas. É possível educação sem amor e drama? Em que país estamos?

Carmela narra a trama, e quando fala da escola, não diz apenas dos seus muros. Do conteúdo das matérias, tampouco de suas práticas. Parece evidente que a professora entende que a escola é formada de carne, osso, riso e choro. De revolução e de controvérsia. A escola é local de invenção de vida. Por isso a narrativa ali vem entremeada pela vida dos alunos. Não há escola sem vida. Logo, não podemos confundir. A vida não cabe em uma escola “murada”. Esta é espécie daquela. Viver não é preciso. Escola não é preciso. Se houver uma bússola para o ensino, que seja aquela na qual bate o coração. A professora Carmela entendeu essa questão. Sua docência, portanto, consistia na máxima questão ética. Ela, assim, se constituía a partir e através da alteridade que era a escola. Ao ouvir xs alunxs, ela ouvia o mundo. A escola imita a vida. A maneira de existir de Carmela, paradoxalmente, era a partir do ouvido. A escola é o local da eticidade máxima. Enquanto local de construção de tempos. Local no qual a cerca não serve. Providencial uma escola na ilha. O mar é infinito, a professora foi, a escola não. Em que país estamos?

Enquanto a mãe de Chala se drogava, ele enfrentava a luta da vida real – simbolizada a partir da rinha de cães. Ao mesmo tempo, como a escola estava aquém de Chala, a professora, sensível à existência particular dele, oferece ouvido, asilo, quentume. Ensinar é quente. Retira as cercas que separam alunxs e professores. Os pombos de Chala sempre voltavam para seu lar. Eles moram ali, não inventam caminho. Foram des-ensinados A escola quando não se ocupa da subjetividade dx alunx, cria pombo correio. Fará o caminho que lhe for imposto. É pecado! Toda subversão deve ser castigada! Mas a escola é esse outro que inventou Carmela. No trato com o outro, ela passou ao largo das regras. Inventou regras fundadas no cuidado. Esteve pelxs alunxs até o fim. Em jeito de hospitalidade incondicional, ouviu. Os papéis nas escolas precisam se confundir para que o ensino exista. Enquanto o “o outro não passar à frente”. Enquanto houver protagonistas e não, o cerco continuará existirá. Ensinar é sem cerca. Cheio de invasões. Lutas e revoluções. Em que país estamos?

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