“Queda livre”: deslocamento do mundo real

* Texto de Evelin Padilha

O presente trabalho é desenvolvido a partir do capítulo “Queda livre” do seriado Black Mirror. O primeiro momento será mais expositivo, narrando sinteticamente o episódio em questão de modo a contextualizar o/a leitor/a. Na segunda e última parte serei analítica, à luz de Durkheim, e conduzida por dois conceitos chaves, a saber, patologia e normalidade, sendo possível exprimir questões sociológicas a partir destes. O debate se insere no processo e nas consequências em uma sociedade distópica, em que o avanço da tecnologia e as formas como a sociedade se adéqua ou é quase involuntariamente “sugada” pela mesma, engendram o fato social (conceito desenvolvido por Durkheim), ou seja, as regras das relações sociais como fator externo, coercitivo independente das manifestações individuais.

O episódio referenciado acima inicia com uma cena em que a protagonista Lacie Pond aparece praticando uma atividade física, a corrida, mas, ao mesmo tempo, mexe em seu celular e tem sua atenção totalmente voltada para o mesmo, se mostrando extremamente preocupada em conseguir novos seguidores/amigos virtuais e ser “bem avaliada” nesse meio. Metonimicamente, essa cena explica e explicita a coerção do avanço da tecnologia de comunicações virtuais sobre o dia-a-dia das pessoas que vivem nessa sociedade. Lacie se insere nesse mundo distópico no qual são realizados desejos materiais como qualificação no emprego, boa reputação e bens materiais a partir da atribuição de notas online dentro de uma rede social em que todos fazem parte. Importante ressaltar que também é um banco de dados jurídico-institucional, ou seja, um mecanismo legal que parece ser obrigatório, pois é utilizado, inclusive, não menos que em todas as instituições dessa sociedade, sendo então para além das vontades individuais das pessoas, tendo em vista que as instituições reforçam essa lógica de analisar os indivíduos partindo de suas notas em tal rede de comunicação.

A personagem principal busca um aumento no serviço para conseguir adquirir um apartamento de luxo. Para isso, seu empregador sinaliza que a mesma precisa aumentar sua nota para que consiga realizar seu sonho. Dentro de inúmeros esforços e ações inconsequentes, Lacie se vê incorporada a essa lógica sem refletir se essas ações faziam dela uma pessoa feliz de verdade. E de maneira reflexiva o seriado termina com ela não só tendo fracasso nessa busca, tendo sua nota extremamente rebaixada, mas tendo a destruição total também na sua vida real, acabando literalmente em uma prisão.

Talvez seja possível dizer que os conceitos de patologia e normalidade são conceitos essenciais para analisarmos tal obra. A patologia social é o elemento presente nessa sociedade se formos compará-la com a nossa, pois as regras sociais são modificadas e lapidadas por meio da construção dessas relações virtuais superficiais e estima alcançada através disso. Porém, sendo o mundo real totalmente organizado por esses aspectos, tornando esse estado patológico permanente e generalizado, me parece plausível dizer que a normalidade dessa sociedade – que deveria ser a maioria das pessoas e das instituições legais não se balizarem por esse critério e lógica virtual – se inverte. Nessa sociedade a maioria das pessoas está dentro desse sistema, partilhando dessa consciência coletiva que também se torna um fato social por ser imposta aos indivíduos, deslocando a ideia de ações e estado patológico para as pessoas e instituições que não se submetem às criterizações promovidas por essa rede digital.

A opressão da mídia digital na sobrevivência dessas pessoas nos permite dizer que as regularidades postas dentro da sociedade – as maneiras de socialização – constroem a lógica organizacional, introduzindo a apreensão e incorporação das mesmas, deslocando o mundo real para o tutelamento dos mecanismos e elementos virtuais superficiais que passam a ser e, principalmente, a comandar as normas sociais gerais.

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