O amor e o tempo no filme ‘A incrível história de Adaline’

Acaso procurasse uma relação próxima entre o amor e a ciência, diria, são criações que solicitam fé. Pensar que uma teoria poderia explicar todas as peculiaridades humanas estaria na mesma dimensão de imaginar a teoria do amor. Bom, este não pode ser um texto científico, salvo se o leitor estiver com a fé de que necessitam os cientistas. Acaso se desdobrar em um escrito amoroso, que o leitor esteja também com sua vela acesa. Eros requer esse ritual.

Lévinas escreveu que “Eros é uma relação com a alteridade, com o mistério, ou seja, com o futuro, com o que está ausente do mundo que contém tudo o que é…”. Por certo voltarei a esta questão. Mas primeiro devo confessar que o filme, “A incrível história de Adaline” de Lee Toland Krieger é cinema puro, lugar de invenção de tempo, de amor e de ciência. Ou ainda há quem diga que a prova científica não se questiona? Bom, quando Adaline (Blake Lively) sofre um acidente e toda uma conspiração cosmo científica faz com que ela pare de envelhecer começa uma saga interessante que coloca a ideia de ciência em xeque. Ao menos em uma dimensão imagética que, por certo, é algo que podemos afirmar. Somos seres tão imagéticos que criamos a ciência. Mas e o amor?

Quando Lévinas afirma que a questão do amor é algo relacionado com a alteridade, parece nos informar mesmo que essa existência se dá a partir e pelo outro, algo como que uma anunciação, feito a cantoria do Valença. Essa estrada então, como nos ajuda a saber Bauman, não pode ser descrita, o saber do amor se dá no exato momento posterior em que acontece na gente – é sorrateiro feito o morrer. Espreita e dá o bote. Sem ensaios para tal, por favor! Assim, a primeira questão do filme é ver como o tempo suspenso de Adaline foi sendo marcado pelos amores que ela “quase” viveu. Isso é um chiste, pois amor só é, e não talvez. 

O tempo de Adaline figurava fora do relógio, por isso o filme é cinema puro, inventou o tempo. A duração que requer o amor era interrompida por Adaline, senhora de si e de seu “não tempo”. Nesse ponto entendemos estar uma questão interessante, ora, mesmo que quiséssemos dizer que Adaline era condutora do seu “não tempo”, como explicar sua escolha, ou seja, ela poderia ter revelado a outrem que tinha esse problema com o tempo. “Ela não sabia mudar”, porém, fatidicamente, numa confluência de astros, raios e da neve, ela “resolve” revelar a Elis (Michiel Huisman) toda sua verdade. A suspensão do seu tempo findara ali mesmo. No precipício da morte ela começou a viver. Daí que talvez Lévinas tenha acertado em seu dizer, o amor é mistério e futuro. Questões que a própria Adaline desconhecia. O amor concedeu a Adaline o tempo. O tempo é o local no qual o outro brota quando nasce amor. Enquanto vagueava sem tempo, Adaline conseguia desvencilhar-se daquilo que é tragédia, o próprio amor.

Bauman nos ensina que “nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes – menos ainda que no rio de Heráclito. Eles são, na verdade, suas próprias cabeças e seus próprios rabos, dispensando e descartando todos os outros (…) o amor e a morte não têm história própria…” Por isso a história de Adaline é tão interessante, ora, ela pôde vivenciar ao mesmo tempo o amor e a morte. Quando amou o pai de Elis em um passado, ela precisou morrer para ele. Quando amou Elis, ela também morreu para sua vida de “não tempo”. O tempo de Adaline é, portanto, o genuíno tempo do amor, que nos acossa em uma estrada fria de morte, uma única vez, criando um tempo que nunca existiu.

 Ela desconhecia, portanto, o que seria amor, esse local de porta única e tempo próprio. Como não sentia o tempo em si, o amor, esse inventador de gente e tempo, talvez também estivesse escondido na alteridade que funda o ser. Porém, como uma vez habitado não pode mais sair, misturadamente, tempo e amor nasceram para Adaline. Numa troça científica o diretor nos ensinou que no amor e na ciência é preciso ter coragem, assim como na fé.

 

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